"Celeste e Estrela" e a dura realidade por trás das câmeras

Agora, tudo bem. O filme de Betse de Paula, Celeste e Estrela, o primeiro a ser exibido, na quarta-feira, no 7.º Festival do Cinema Brasileiro de Miami, foi prejudicado pelas péssimas condições de som. Os personagens falavam aos gritos na tela, mas o público estava gostando e a organização do feastival, em comum acordo com a diretora, manteve o filme até o fim. Na sexta, às 23 horas, após a exibição dos filmes da noite, Celeste e Estrela teve nova exibição, com entrada franca. O público aumentou e continuou divertindo-se.Betse está agora feliz da vida. Seu filme já ganhou o prêmio do público no Cine PE - Festival do Audiovisual. Ela não quer sonhar, mas acha que a exposição na mídia e a repercussão obtida em festivais pode ajudar bastante no lançamento. É um filme de baixo orçamento, um BO, como se diz, na gíria cinematográfica. Acostumada a fazer filmes baratos, Betse anuncia que vai fazer um filme caro, se bem que o caro dela - R$ 3 milhões - é hoje, nesta época de custos inflacionados, uma produção média no cinema brasileiro. O filme vai se chamar Jogada de Milhões.Se em Celeste e Estrela Betse fala sobre a dificuldade de filmar no País - a protagonista, interpretada por Dira Paes, é uma diretora que faz de tudo para realizar o sonho de concluir seu filme -, o cinema continuará sendo um personagem fundamental em Jogada de Milhões, só que em outro nível. Betse, de novo com a cumplicidade da roteirista Júlia de Abreu - que escreveu Celeste e Estrela-, volta-se agora para o processo de criação de um filme mítico do cinema brasileiro. Jogada de Milhões conta como a diretora Gilda de Abreu e o produtor Ademar Gonzaga criaram O Ébrio, com Vicente Celestino.Este não é um filme como Celeste e Estrela, no qual Betse e Júlia sentiram-se livres para criar e a diretora baseou-se, principalmente, em sua experiência pessoal. Para o novo filme, elas fizeram - e continuam fazendo - um extenso trabalho de pesquisa. "Fui pesquisar nos arquivos da Cinédia e encontrei, nos papéis do Ademar Gonzaga e da Gilda de Abreu, informações muito precisas sobre os bastidores da produção."Mesmo assim, ela admite que vai ficcionalizar, e muito, para aproveitar o potencial oferecido pelo romance da diretora com seu astro. Betse ainda não sabe quem serão os atores. "Estou pensando e acho que tenho algumas opções muito boas." Se o filme é dela, tem de ter um papel para Dira Paes, a atriz-fetiche, sempre presente no cinema de Betse. "Ela não vai ser a Gilda pelo motivo óbvio, porque não tem physique du rôle, mas também não vai ser a empregadinha do estúdio", garante. O interesse por O Ébrio não é acidental. Embora filha de Zelito Viana, que, além de diretor, produziu obras clássicas do cinema político brasileiro - como Terra em Transe, de Glauber Rocha -, Betse não se orienta para um tipo de cinema intelectual. Persegue o popular, daí seu interesse por O Ébrio, um dos grandes sucessos de público da história do cinema no País, embora seja difícil contabilizar, pela ausência de registros precisos, se teve mais ou menos público do que Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, o recordista, com mais de 13 milhões de espectadores pagantes.Betse não é a única diretora, aqui em Miami, a voltar-se para as origens do cinema brasileiro. A curta-metragista Luelane Mascarenhas homenageia Vidas Secas em Como Se Morre no Cinema, contando a história do papagaio do filme que Nelson Pereira dos Santos adaptou do romance de Graciliano Ramos (e é considerado um dos marcos definidores do Cinema Novo). Luelane, nascida numa pequena cidade do Espírito Santo, tem vários projetos de curta e longa-metragem. Não consegue se decidir até porque, sendo montadora, está mais acostumada a trabalhar nos projetos dos outros. Mas há um, de curta, que lhe fala ao coração. Chama-se Vestidos de Paris e não é autobiográfico, mas conta a história de um grupo de crianças que vêem muitos filmes na cidade na qual nasceu a diretora. O filme que ela vai mostrar dentro do filme foi seu primeiro grande impacto dianhte de uma produção brasileira. "Quando vi o Brasil Ano 2000, do Walter Lima Júnior, nem sei se entendi direito, mas fiquei chapada com tudo, a cor, a música, a história." É esse encantamento que Luelane tentará colocar na tela em Vestidos de Paris.

Agencia Estado,

07 de junho de 2003 | 13h20

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