Cecilia Roth, o rosto do cinema argentino

Seus fãs dizem que "ela é uma espécie de Meryl Streep argentina", por causa de sua versatilidade em interpretar com brilho o sotaque de personagens de diversos países hispano-americanos. Outra definição que recebe é a de "chica Almodóvar", pela longa lista de filmes que fez com o espanhol Pedro Almodóvar, com o qual roda desde a pré-história do diretor, em Pepe, Lucy, Bon y Otras Chicas del Montón, filme de 1980. Ela é Cecília Roth, atriz que no Brasil ficou conhecida por causa de Kamchatka, atualmente em cartaz, e Tudo sobre Minha Mãe. No dia 18 de julho voltará às telas brasileiras com a estréia do filme mexicano Aos Olhos de uma Mulher (A Filha do Canibal), de Antonio Serrano, um irreverente thriller sobre uma mulher quarentona, um jovem amante e um veterano da Guerra Civil espanhola, envolvidos involuntariamente com a máfia mexicana. Cecília rodou no ano passado Vidas Privadas, filme dirigido pelo músico Fito Páez, que na época era seu marido (atualmente está separada). As más línguas afirmam que a separação teria começado durante os tensos momentos da filmagem. No entanto, nesta entrevista ela declara seu carinho por ele e o desejo de voltar a trabalhar sob sua direção. E também o de ser dirigida pelo brasileiro Walter Salles. Uma vez você disse que tinha vergonha que descobrissem que era argentina... Cecília Roth - Todos sabiam que eu era argentina. Não ocultava isso. O que me dava vergonha era o que estava acontecendo em meu país. Me dava vergonha ser argentina na época da ditadura. Naquela época tinha ido morar na Espanha. Mas não dissimulava ser argentina. E depois voltei a ter vergonha, e muito, na época de Carlos Menem (presidente entre 1989 e 1999). Você possui uma capacidade de falar com o sotaque que quiser, sem cair no estereótipo. Em diversos filmes aparece como uma espanhola legítima, em outros normalmente como argentina e agora, como mexicana... Não é capacidade... é trabalho. Suponho que tenho bom ouvido para adquirir o sotaque com naturalidade, ou seja, não fazer imitações. No caso desse filme, tentava não parecer que era uma estrangeira falando como o Cantinflas... A imprensa argentina não parecer destacar muito seu sucesso - e de outros artistas - no exterior. Quando um ator argentino ganha um prêmio em Cannes ou San Sebastián recebe uma cobertura mínima. Mas, se descobrem que houve dois argentinos trabalhando como extras em Titanic, merecem manchete. Sim, mas se esses dois extras tivessem sido protagonistas seriam derrubados com críticas imediatamente (risos)... Então, nesse país existe uma grande inveja pelo sucesso alheio? A mentalidade daqui é muito difícil de entender. É muito diferente da mentalidade brasileira, que respeita quem faz sucesso lá fora. Existe uma indiferença, por parte da imprensa. Mas não por parte do povo. Quando Fito rodou Vidas Privadas, a imprensa acabou com ele. Foi porque era um cantor que se ´atrevia´ a fazer cinema? Possivelmente, se Fito não fosse quem é, o filme teria tido outra crítica. Me dá muita tristeza. Com Almodóvar acontece o mesmo na Espanha. Diversos diretores trabalham com seus filhos ou esposas e todos comentam que pode ser complicado. Como foi a experiência de trabalhar com Fito Páez, que ainda era seu marido, em Vidas Privadas? É preciso trabalhar muito na relação pessoal para resolver uma relação de trabalho tão intensa como é quando se roda um filme. A próxima que fizer com Fito será melhor. Há planos de um próximo filme? Não sei. Mas adoraria voltar a trabalhar com Fito. O cinema brasileiro lhe atrai? Há pouco tempo me ofereceram fazer um filme no Brasil, mas acabou não dando certo. Mas adoraria trabalhar no Brasil... Com qual brasileiro gostaria trabalhar? Gosto de Walter Salles, o Waltinho... Adorei Central do Brasil. E gosto do Hector Babenco, que é argentino e mora há décadas no Brasil. Adoraria ser chamada para trabalhar no Brasil. Qual é o estado do cinema argentino depois da crise econômica? Na Argentina não há mais uma indústria. E em qualquer país sul-americano. O cinema, aqui, se faz no muque. E porque existe um imenso amor pelo cinema. Mas a verdade é que não sei como o cinema argentino fará para conseguir mais orçamentos. Só com as co-produções a coisa fica mais fácil.

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