CD-ROM resgata trabalho da Vera Cruz

Um projeto que triunfou no objetivo mas fracassou na estrutura - a Companhia Cinematográfica VeraCruz foi uma das melhores tentativas de se implantar, na décadade 50, uma produção talentosa no Brasil, à altura da melhorcinematografia européia. O sucesso comercial e artístico deproduções como O Cangaceiro comprovou que a opção estéticafoi acertada, mas a armadilha em que estava armada acinematografia nacional, em que a maior parte da arrecadaçãoficava com os exibidores, levou a Vera Cruz ao colapso. A importância que tal experiência representou é oprincipal assunto do CD-ROM Vera Cruz e Seus Filmes, queserá lançado amanhã, às 20 horas, no Museu da Imagem e doSom (Avenida Europa, 158, Jardins, em São Paulo). O projeto nasceu da confluência de interesses da empresaAnima Cultural, que montou o plano e contou com o patrocínio daQualix Serviços Ambientais e apoio institucional da Prefeiturade São Paulo. Os textos foram costurados por Sérgio Martinelli eGil K., que coletaram depoimentos de pessoas que participaramativamente das atividades da Vera Cruz. O lançamento serámarcado ainda por uma mostra de quatro filmes rodados peloestúdio, que serão exibidos, com entrada franca, de quinta adomingo, no MIS (informações sobre a programação no tel.:0xx11.3062.9197). O CD ainda não está à venda, o que acontecerá,no próximo mês, em livrarias e pelo sitewww.animacultural.com.br Preocupação - Fundada em 1949 pelos industriaisFrancisco Matarazzo Sobrinho e Franco Zampari (tambémresponsáveis pela criação do Museu de Arte Moderna e do TeatroBrasileiro de Comédia, o TBC), a Vera Cruz produziu, até 1954,18 longas-metragens dos mais variados gêneros (melodrama,comédia, histórico, aventuras e policial), todos concebidos sobgrande preocupação com a qualidade técnica e interpretação. O CD-ROM apresenta um panorama da importância do estúdiona cinematografia nacional, por meio dos depoimentos do atorRenato Consorte, dos diretores Galileu Garcia e Walter HugoKhouri, do crítico Amir Labaki e do estudioso Carlos AugustoCalil. O CD traz ainda dados, cartazes, trechos das trilhassonoras e cenas de todos os filmes produzidos pela Vera Cruz,além de fotos de atores e diretores, como Cacilda Becker, TôniaCarrero, Paulo Autran, Ziembinski, Cleyde Yáconis, Jardel Filhoe Sérgio Cardoso, entre outros. O real entendimento da importância da companhia e dosmotivos de seu fracasso financeiro é apresentado no texto AVera Cruz e o Mito do Cinema Industrial, escrito por CarlosAugusto Calil em 1987 (e revisto em 1999), contido no CD. Eleobserva que o crescimento econômico de São Paulo no pós-guerrafomentou a diversidade cultural. E o primeiro grande passo paraa implantação da Vera Cruz aconteceu em agosto de 1949, quandoentrou em vigor a Lei n.º 790, que isentava de impostos aimportação de equipamentos cinematográficos destinados aosestúdios e laboratórios. Animados com o sucesso do TBC, os empresários italianosdecidiram criar a companhia cinematográfica e convidaram ocineasta Alberto Cavalcanti, radicado na Europa, paraprodutor-geral. Ele chamou técnicos e cineastas do exterior,como o fotógrafo Chick Fowle, o assistente e depois diretor TomPayne, e o montador John Waterhouse. Instalado em uma área de 30 mil metros quadrados, oestúdio é freqüentemente identificado como a Hollywood tropical,mas Calil observa que a visão estratégica "nunca ultrapassou ade uma cidade do cinema, uma cinecittà, produtora porexcelência". Apesar de colecionar sucessos de público, a VeraCruz desabou porque a metade das receitas ficava com osexibidores e o que sobrava não bancava os custos. A experiência porém, permitiu que se adquirisse uma consciência de umaestrutura viciada que não renumerava, na devida conta, aprodução. E, observa Calil, o estúdio também estimulou outroscineastas: "Contra a Vera Cruz e seu triste destino, surgia umsopro de vida: o embrião do Cinema Novo."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.