CD-ROM faz raio X do mercado brasileiro de cinema

Quais são as 50 maiores bilheterias do cinema brasileiro nas últimas três décadas? E as bilheterias do cinema internacional? Quantas salas de cinema existem no País? Quantas integram o circuito de arte? Que filmes lideram o ranking nos segmentos comédia romântica, filmes infantis ou filmes sobrenaturais? Que produções tiveram a melhor "abertura" (número de espectadores no primeiro fim de semana em cartaz)? Estas e outras perguntas estão respondidas no CD-ROM Brasil Database 2000, editado por Paulo Sérgio Almeida, produtor e diretor dos filmes Beijo na Boca, Banana Split e Sonho de Verão (e co-diretor de Xuxa Popstar).Há quatro anos, Almeida criou o boletim Filme B, publicação semanal que fornece dados sobre o mercado cinematográfico brasileiro e conta com 300 assinantes (empresas e profissionais do ramo audiovisual). A pequena equipe do boletim Filme B repete, a seu modo, o trabalho desenvolvido pelo Concine (Conselho Nacional de Cinema), organismo governamental criado em 1976 e extinto em 90, no início da gestão Collor. Durante 14 anos, o Concine fiscalizou o mercado exibidor brasileiro e tabulou dados. Com sua extinção, o País ficou seis anos sem dispor de estatísticas. Com a criação do projeto Filme B, a situação mudou. Quem consultar o CD-ROM saberá que o País tem 1.480 salas de cinema, sendo que 533 estão em São Paulo, 205 no Rio, e o restante (742) nas outras unidades da federação.Ou seja, o eixo Rio-SP tem metade do circuito nacional. Detalhe espantoso: em Rondônia e Roraima, há quatro cinemas (dois em cada um). O Acre inteiro dispõe de uma única sala. Do total de 1.480 cinemas, 102 integram o circuito de arte. Neste segmento, o Rio bate São Paulo (com 29 contra 26 salas). Vale lembrar que a empresa Filme B só leva em conta espaços que funcionam mesmo como cinema. Nem na categoria circuito de arte são incluídos auditórios de prefeitura ou centros comunitários, que vez ou outra exibem este ou aquele filme.Campeões - Os campeões de bilheteria integram as minuciosas listas do Brasil Database 2000. A produção nacional aparece detalhada, ano a ano, de 1992 a 2000, com seu respectivo público. Sucessos como Xuxa Popstar, Auto da Compadecida, Central do Brasil, os filmes dos Trapalhões, Carlota Joaquina e O Quatrilho convivem com dezenas de títulos que tiveram menos de 10 mil espectadores (a faixa dos fracassos comerciais).No meio da lista dos 168 filmes produzidos nos últimos oito anos, estão títulos de custo modesto e que se destacaram com bilheterias significativas (Pequeno Dicionário Amoroso, Como Ser Solteiro, Menino Maluquinho, Terra Estrangeira e Cronicamente Inviável). O ano de pior desempenho é o de 92 (apenas três lançamentos). Os melhores, os de 99 (32 lançamentos) e 2000 (44).Outra tabela que chama atenção no CD-ROM é a que traz as produções que tiveram melhor "abertura". Ou seja, alcançaram espantoso êxito de público no primeiro - e crucial - fim de semana (o do lançamento). Neste caso, o campeão dos campeões de bilheteria, Titanic (quase 17 milhões de espectadores), ocupa modesto 25.º lugar. O filme não "arrebentou a boca do balão" em sua arrancada. O boca-a-boca, porém, começou a funcionar. E entrou o fator Oscar: a mais cara e hollywoodiana das produções ganhou 11 estatuetas e virou ( com ...E o Vento Levou) o maior fenômeno da história industrial do cinema.Paulo Sérgio Almeida pondera que Titanic não serve de parâmetro para nada. Só pode ser visto como fenômeno. "Hoje, o mercado mostra-se cada vez mais segmentado. Tornou-se quase impossível produzir filmes que agradem a todos os segmentos sociais e etários." Por isso, "a carreira de um filme depende tanto de sua abertura. O público do primeiro fim de semana, multiplicado por cinco, nos leva, em geral, à sua bilheteria final". Não há mais tempo para boca-a-boca. Além do mais, "só um filme, a cada ano, tem a chance de acumular dez ou 12 estatuetas da Academia".O peso do Oscar continua brutal no mercado planetário. Beleza Americana, que, sem os Oscars da Academia, teria público médio de 400 mil espectadores, vendeu 1.835.165 ingressos. O mesmo se passou com A Vida É Bela (1.593.756) e O Paciente Inglês (1.487.030). Esses três filmes - todos laureados com o Oscar - comandam a lista de filmes de arte/qualidade estabelecida pelo CD-ROM.Poucos cinéfilos aceitarão a relação apresentada pelo Brasil Database 2000. Talvez só Tudo sobre Minha Mãe, de Almodóvar, e o inglês Tudo ou Nada tenham abrigo numa lista de filmes de arte. Títulos como Evita seriam evitados até pelo mais condescendente dos cinéfilos. Para a próxima edição do CD-ROM, vale sugerir à equipe do Filme B que separe "filmes de qualidade" de "filmes de arte". Neste último nicho ficariam obras de realizadores que têm o cinema como território da criação e reflexão (caso dos herdeiros de Fellini, que fez de Amarcord um estrondoso sucesso de crítica e público). Não importa se este tipo de filme patina na faixa dos 50 mil aos 500 mil espectadores. O ganho deles é mais qualitativo que quantitativo.Informações perdidas - Paulo Sérgio Almeida conta que inicialmente desejava disponibilizar os dados catalogados (e processados) pelo Boletim Filme B através do sistema palm top (pequeno computador de mão), mas concluiu que esta tecnologia ainda não está devidamente disseminada no meio cinematográfico brasileiro. Optou, então, pelo CD-ROM. "Nossa intenção é disponibilizar dados da indústria cinematográfica no Brasil, de forma que os interessados possam realizar diagnósticos e planos futuros, conhecendo bem o terreno em que estão atuando.""Os americanos" - lembra o editor do CD-ROM - "sabem que sem informação não há diagnóstico. O Brasil é o país das informações perdidas". Por isso, Paulo Sérgio colhe dados sem descanso. "Não temos informações estatísticas das primeiras seis décadas de nossa história cinematográfica."A maior bilheteria brasileira de todos os tempos é Dona Flor e Seus Dois Maridos (quase 11 milhões de espectadores). Esse dado é inquestionável. Mas que filme ocuparia o segundo lugar se estivessem disponibilizados os borderôs de O Ébrio, O Cangaceiro e do ciclo Mazzaroppi? Alice Gonzaga, herdeira da Cinédia, produtora de O Ébrio, supõe que o melodrama estrelado por Vicente Celestino vendeu 8 milhões de ingressos.

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