CCSP promove mostra da videoarte equatoriana

Selecionados a partir de situações que sempre se repetem, os vídeos mostram passado imperfeito comum na América Latina

Carolina Spillari, Estadão.com.br

18 de janeiro de 2011 | 17h21

 

 

Momentos semelhantes na história dos povos da América Latina dão o tom da mostra de vídeos Passado Imperfeito, que começa nesta terça-feira, 18, no Centro Cultural São Paulo (CCSP).  Em comum, a videoarte de cada curta, de autores equatorianos, exibe a repetição de cenas, emoções e vivências que deixaram marcas na América Latina.

 

A mostra já foi apresentada no Peru pela Fundação Telefónica e traz o que há de mais notável na videoarte equatoriana. O crivo usado na seleção dos curtas foi o 'eterno retorno', concepção filosófica segundo a qual o ser humano tende à repetição infinita de situações, acontecimentos, pensamentos, sentimentos e ideias.

 

Os países latinos estão ligados historicamente pela colonização. Segundo Ana Maria Rebouças, do Núcleo Interdisciplinar do CCSP, a ideia da mostra é trazer a reflexão sobre as semelhanças entre as populações dos países latinos. "Buscamos pensar nosso presente e o que carregamos do passado", afirma.

 

A curadoria foi feita pelo equatoriano Rodolfo Kronfle Chambers e uma parceria do CCSP trouxe a mostra à cidade. Os curtas são exibidos em dez telas de plasmas espalhadas pelos locais de maior circulação do local.

 

 

O CCSP, que fica na Rua Vergueiro, 1000. Mais informações.

 

Confira as sinopses:

 

 

1 - ILICH CASTILLO

Confirmação dos acontecimentos, 2007 - 5'40''

O artista parece desconfiar das armadilhas da representação. São verdadeiros os fatos só porque os registra uma câmara? As coisas são como as recorda a memória ou como aparecem assim que se aperta a tecla play? Um jogo entre o desenho e os meios digitais.

 

ILICH CASTILLO

Como está longe O triunfo da vontade, 2010 - 3'10''

 

O autor interfere no filme Como está longe (2006) da cineasta equatoriana Tania Hermida, ao inserir no mesmo os créditos de O triunfo da vontade (1934) de Leni Riefenstahl. Esse simples procedimento de copy-paste permite uma deriva estética instável e mostra uma fascinação com o glitch, o erro e seu potencial significante.

 

2 - JUAN CARLOS LEÓN

Rolf Blomberg, 2009 - 2'59''

Uma nova versão do spot político Guayaquil e seu alcaide (1963), realizado pelo fotógrafo e documentarista sueco Rolf Blomberg e o justapõe ao original. A peça parece inquirir sobre a demagogia recorrente nos discursos de campanha e a manipulação cada vez mais intensa dos meios de comunicação.

 

MANUELA RIBADENEIRA

O ensaio, 2009 - 1'53''

 

Anedotas pouco conhecidas da revolução francesa são evocadas pela artista, como os ensaios que realizavam os condenados à guilhotina, para acrescentar dramatismo à sua morte; uma mensagem ante as transformações ideológicas e os ventos de mudança que sopram no mundo?

 

3 - GRACIELA GUERRERO

Todos cairão - parte da "Suite Barry White", 2010 - 2'11"

"Todos cairão", título de um dos "Caprichos de Goya", faz parte da série Barry White, uma espécie de tragicomédia documental que ironiza as estereotipadas convenções de representação da imprensa marrom sobre a violência e a luta contra o crime organizado. Ao mesmo tempo, focaliza a estrita ordem em que os produtos apreendidos pela polícia são dispostos - como naturezas mortas contemporâneas - e a falácia que encerra as ínfimas conquistas do combate à delinqüência. A trilha sonora, com uma das vozes mais românticas do soul norteamericano, resulta extremamente in(apropriada).

 

GRACIELA GUERRERO

Karaokê (Ñuca juyaigu Guayaquil), 2008 - 3'01''

 

O trabalho não é uma obra de videoarte stricto sensu, mas sim uma peça de karaokê. A artista plagia as imagens de um DVD promocional sobre a cidade, produzido pela comunidade contrária ao governo, às quais acrescenta a canção-emblema da cidade costeira de Guayaquil. A música é legendada no quíchua dos indígenas andinos, linguagem reivindicada na atualidade como idioma oficial.

 

4 - MIGUEL ALVEAR

"Wir Konnen Es" / "Machete reciclador" / "Cobija de tigre" (vídeo editado a partir de tomadas do filme Blak Mama, de Miguel Alvear e Patrício Andrade), 2009 - 22'55''

Nesta reassemblage de imagens do filme Blak Mama evocam-se imaginários sobre a cultura popular, a Historia e experiências sociais do país. Os autores vêem a equatorianidade como "uma espécie tragicômica entre o sentido trágico da mestiçagem andina e sua contraparte: o carnaval, o barroco e o absurdo". Uma interpretação delirante da identidade nacional ou antropologia equatoriana em anfetaminas.

 

MIGUEL ALVEAR

Conteo Bai, 2003 - 1'09"

Um indígena Waorani chamado Bai demonstra sua assombrosa capacidade para imitar os sons de diversas criaturas da Amazônia. Todavia fracassa ao tentar fazer o mesmo com animais domésticos: o gato e o cão são imitados com sons estereotipados. Em sua simplicidade narrativa, a obra lida com temas complexos como noções de cultura versus sabedoria, mas também permite aprofundar os dilemas inerentes à representação do outro: a demanda de exotismo e, pese a consciência atual do pensamento descolonizador - a reiteração do lugar comum preexistente no olhar.

 

5 - ESTEFANÍA PEÑAFIEL LOAIZA

Prefacio a uma cartografia de um país imaginado, 2008 - 103'56''

Peñafiel, que reside e trabalha em Paris, apropria-se do célebre diário de viagem Equador (escrito em 1929 pelo poeta e pintor francês Henri Michaux) para dar corpo à sua própria experiência transcultural. Ao vermos todo o primeiro capítulo do diário ser escrito ao revés, parece que a tinta é absorvida pela pena. A artista considera a obra uma descrição de um território vivido e, através dela, medita sobre seus sentimentos com relação ao Equador.

 

KARINA SKVIRSKY AGUILERA

Viseira (do projeto Memória sobre o desenvolvimento), 2009 - 3'25''

O vídeo explora a herança afroequatoriana da artista, que recita uma poesia que sua mãe lhe ensinou quando era menina. Os versos do escritor Adalberto Ortiz, emblema da poesia "negrista", previnem sobre namoricos com o homem branco. Aguillera explora assim os dilemas de sua identidade: suas raízes afro, a mestiçagem entre seus pais e seu casamento com um "gringo". A leitura do trabalho fica mais densa se repararmos nos cenários utilizados como panos de fundo: panoramas contrastantes da cruel realidade urbana guayaquilenha e versões turísticas da cidade-postal.

 

 

Serviço

Paradas em Movimento: Passado Imperfeito

18 de janeiro a 6 de março de 2011

Terça a sexta, das 10h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h

Bibliotecas, Pisos Flávio de Carvalho e Caio Graco

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