CCBB traz retrospectiva do grupo Dziga Vertov

A retrospectiva do Grupo Dziga Vertov, promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil, ganha interesse particular no momento político atual. Afinal, eles representam um marco do cinema político de esquerda. O grupo Dziga Vertov, no qual Godard operava em parceria com Jean-Pierre Gorin, tem esse nome em homenagem ao cineasta soviético que viveu entre 1896 e 1954. Radical, dentro de uma revolução de radicais, Vertov (pseudônimo de Denis Kaufman) pregava o fim da direção cinematográfica (a mise-en-scène), dos estúdios e dos atores, a realidade existente sendo a da câmera, a "câmera-olho". Godard toma as idéias de Vertov, funde-as com a "crise da autoria", proposta pelos estruturalistas de esquerda, e junta-se a Gorin, então editor cultural do Le Monde, na proposta de um cinema coletivo, militante e de reflexão sobre os limites do cinema político visto como espetáculo "burguês". O grupo Dziga Vertov se forma na ressaca de um grande acontecimento da política francesa (e mundial), o maio de 1968 em Paris. Paradigma de toda utopia esquerdista contemporânea, o maio-68 esvaziou-se rapidamente, segundo a interpretação conservadora, ou deixou sementes importantes para o futuro, de acordo com a visão oposta. O início dos anos 70, na França, assinala o processo de digestão daquele curto período, em que a revolução parecera tão próxima como distante. Daí o tom invariavelmente engajado de todas as obras do Dziga Vertov, como Sons Britânicos, Um Filme como os Outros, Pravda, Vento do Leste, Lutas na Itália, Vladimir e Rosa, Aqui e acolá, Tudo Vai Bem e Carta para Jane. Inéditos no Brasil, como exceção de Vento do Leste, já exibido anos atrás pelo próprio CCBB. É filme que tem um interesse a mais para os brasileiros: a presença no "elenco" de um Glauber Rocha que representa a si mesmo na encruzilhada entre o cinema de aventura e o cinema do Terceiro Mundo, um cinema, como ele diz, "divino e maravilhoso", cantarolando a música de Caetano Veloso. Tudo Vai Bem incorpora entre intérpretes anônimos, dois superstars da época, a americana Jane Fonda e o francês Yves Montand. O casal, chamado na tela simplesmente de Ele e Ela, encena uma ocupação de fábrica nos arredores de Paris. A participação dos dois nesse tipo de projeto já é um depoimento sobre aquela época. Membros do star-system, nem por isso se recusam a atuar em filmes de risco, que julgavam politicamente necessários. Enfrentavam não apenas os desafios da temática, mas da própria linguagem. De certa forma, era como fazer um anticinema de esquerda.

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