CCBB realiza maratona de filmes marginais

Cinema marginal, marginalizado, experimental, de invenção, cinepoesia. Bressane, Sganzerla, Candeias, Mojica, Tonacci. Trinta anos depois, a chance de rever os filmes de uma época muito discutida e pouco vista: 40 filmes, 4 debates, oficina de interpretação e lançamento de livro com 60 textos inéditos discutindo os filmes e o momento em que esses foram realizados. É a Mostra Cinema Marginal e Suas Fronteiras, que ocorre de hoje até o dia 22, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo. "Eu tinha de avacalhar, um cara assim só tinha de avacalhar para ver o que sai disso tudo! ", diz o protagonista de O Bandido da Luz Vermelha, filme emblemático do que mais tarde ficaria conhecido como cinema marginal. Essa frase sintetiza o sentimento coletivo de toda uma geração que após o golpe militar se viu tolhida de seus direitos políticos e desiludida em seu sonho de transformar o Brasil numa nação desenvolvida e independente. Na década de 60, a América Latina passou por um processo de radicalização de discursos visando a um processo revolucionário que "libertaria" a América de sua condição de subdesenvolvimento. Essa crença influenciou fortemente a cultura da época que começa a realizar um cinema político para fortalecer esse processo. É a época no Brasil da canção de protesto, do CPC e do Cinema Novo. Com o golpe militar em 64 e sua radicalização em 68, os cineastas brasileiros se encontram frustrados em sua crença em um cinema revolucionário que seria porta-voz da "futura libertação." Uma parte dos cinema-novistas se alia ao governo militar para administrar a Embrafilme. Os que antes pregavam um cinema artesanal , "uma câmera na mão, uma idéia na cabeça", agora querem conquistar uma maior parcela de público e passam a realizar filmes mais caros, com maior interesse mercadológico. O cinema marginal surge como uma reação a essa nova tendência. Retoma-se a produção barata e artesanal, mas a palavra de ordem não é subversão, mas sim transgressão. Transgride-se a linguagem, as instituições, o "bom gosto", a moral burguesa, a família... Tudo o que pode representar a ordem institucional é desconstruído nesse cinema de imagens violentas e viscerais. Uma espécie de "guerrilha cultural" produzida em larga escala utilizando uma estética "suja", marginal e em muitos momentos escatológica. A direção do festival pretende realizar um panorama geral desse contexto, exibindo não só filmes "marginais", mas também outros que de algum modo se alinham a uma estética de experimentação, como Câncer, de Gláuber Rocha, O Profeta da Fome, de Maurice Capovilla, e Na Boca da Noite, de Walter Lima Júnior. Entre os considerados precursores do cinema marginal, serão exibidos A Margem, A Herança e o praticamente inédito Zézero, de Ozualdo Candeias, e À Meia-Noite Levarei Sua Alma, de José Mojica Marins. Rogério Sganzerla comparece com A Mulher de Todos, Copacabana Mon Amour e Sem Essa Aranha e Bressane com O Anjo Nasceu e Matou a Família e Foi ao Cinema. Tonacci mostra o clássico Bang Bang e Blá Blá Blá. A "marginália" baiana está representada por Meteorango Kid, de André Luis Oliveira, e Caveira My Friend, de Álvaro Guimarães. E ainda Hitler do Terceiro Mundo, do escritor Agripino de Paula, Sagrada Família, de Sylvio Lana, Jardim de Guerra, de Neville de Almeida... Um panorama extenso, o maior já realizado, da produção experimental da década de 70. Será uma ótima oportunidade para se reavaliar posições quanto ao período e retomar questões importantes para a historiografia do cinema brasileiro. Uma das indagações que se coloca diante das variantes estéticas e temáticas dessa mostra é se podemos realmente caracterizar o cinema marginal como movimento. Há uma organicidade estética e de conteúdo no conjunto dessas obras? Esses filmes representam realmente uma ruptura radical com o Cinema Novo? Será também uma boa ocasião para que os jovens cineastas, que praticamente não conhecem essa cinematografia, se familiarizem e se inspirem nesses filmes inventivos e baratos, que mantêm ainda hoje o vigor criativo e formal. Cinema Marginal e Suas Fronteiras - De terça a domingo, a partir das 12h30. R$ 4,00. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3600. Até 1.º/7

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