CCBB exibe filmes clássicos de ficção científica

Invenção sem futuro, como o consideravam os próprios irmãos Lumière, o cinema começou documentário, em 1895, mas logo passou a sonhar, por interferência de um mágico, Georges Méliès. Em 1902, ele fez a sua fantasiosa Viagem à Lua, coroada pela apoteótica recepção que as selenitas, como dançarinas de cabaré, ofereciam aos desbravadores do espaço. Desde então, interpretar ou prever o futuro tem sido um passatempo ao qual muitos cineastas têm se dedicado com afinco, a ponto de poder-se dizer que a invenção sem futuro dos irmãos Lumière virou a verdadeira máquina do tempo, se é que existe uma. No cinema, o espectador não apenas participa de histórias no presente, como viaja ao passado e ao futuro. Um pouco dessas viagens futuristas que o cinema proporciona foi reunido pelo curador Marcelo Lyra no ciclo, recheado de palestras e debates, que começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, devendo prolongar-se até o dia 30. Reúne 15 títulos abrigados sob o rótulo daquilo que se chama de ´ficção científica´. Serão exibidos em película ou DVD. Em 1926, o mestre expressionista Fritz Lang realizou um filme que hoje parece um tanto ingênuo, do ponto de vista político, mas é insuperável como proposta arquitetônica para a cidade do futuro. O visual de Metrópolis, com certeza, influenciou o de Blade Runner, de Ridley Scott, de 1982, como o cinéfilo poderá comparar, mas a solução afetiva para os conflitos entre o capital e o trabalho, proposta pelo grande diretor alemão, consegue ser mais risível hoje, em tempos de globalização, do que há 80 anos. Outra comparação interessante será entre as duas versões de Solaris, a filosófica do russo Andrei Tarkovski, de 1972, e a pragmática do norte-americano Steven Soderbergh, de 2002. Ainda no território das comparações, o computador Alpha, que rege o mundo contra o qual se insurge o agente Lémmy Caution em Alphaville, de Jean-Luc Godard, de 1965, parece um prolongamento da dominação que o Grande Irmão exerce em 1984, que Michael Anderson (em 1956) e Michael Radford (em 1984) adaptaram do livro de George Orwell. E não se pode esquecer do apocalíptico futuro previsto por François Truffaut, com base em Ray Bradbury, em Fahrenheit 451, no qual as idéias são consideradas tão perigosas que a função dos bombeiros consiste em atear fogo aos livros. A pérola da programação é Daqui a Cem Anos, que William Cameron Menzies dirigiu em 1936, sobre uma idéia de H.G. Wells. Things to Come - muitas das coisas que o cineasta e o escritor achavam que viriam já foram. O tempo passa e o futuro antecipado pelo cinema muitas vezes vira passado. Daqui a Cem Anos será exibido em película, o DVD acaba de sair pela Aurora. Vai ser divertido (re)ver o explosivo RoboCop, de Paul Verhoeven, de 1987, mas Marcelo Lyra fica devendo a odisséia do espaço de Stanley Kubrick. Por óbvia que fosse sua inclusão no programa, 2001, de 1968, é um marco da forma como o cinema vê o futuro. O visual clean de Kubrick, de qualquer maneira, anima THX 1138, de George Lucas, de 1971, sobre o tema do controle da natalidade, que remete a 1984. O Cinema Vê o Futuro. Hoje, 16h, Gattaca, a Experiência Genética (1997), de Andrew Niccol; 18h, THX 1138 (1971), de George Lucas; 20h, Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard. Amanhã, 15h, Robocop (1987), de Paul Verhoeven; 17h, Solaris (1972), de Andrew Tarkovsky; 19h, Solaris (2002), de Steven Soderbergh. Centro Cultural Banco do Brasil.(69 lug.) R. Álvares Penteado, 112, Centro, 3113-3651, metrô Sé. 4.ª(12) a dom.(30) R$ 4. Até 30/4.

Agencia Estado,

12 de abril de 2006 | 12h00

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