CCBB exibe ciclo de filmes de Robert Guédiguian

O cineasta francês Robert Guédiguian está no País para prestigiar uma retrospectiva quase completa de sua obra, que começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, e, no dia 17, no do CCBB do Rio. É a oportunidade de se conhecer uma carreira única no atual cinema francês. Autor de uma carreira com 13 obras, o diretor nascido em Marselha mostra que o mundo globalizado não terá solução se continuar se desumanizando. Daí o motivo de seus longas estarem recheados de personagens que sofrem tanto com problemas pessoais (brigas conjugais) como sociais (desemprego). Guédiguian veio a São Paulo com a mulher, Ariane Ascaride, atriz de todos seus filmes. Ela parece fazer sempre a mesma personagem, mas o que as tornam semelhantes é a marcante característica social, ou seja, são todas mulheres trabalhadoras. Marselha também é a matéria-prima do cinema de Guédiguian, exibida em seus filmes por meio de bares, casas, fábricas e mercados por onde passam operários, trabalhadores temporários, pequenos comerciantes, aposentados, desempregados. Personagens de pequenos dramas envolvendo pessoas excluídas do paraíso capitalista. No mês passado, o cineasta aventurou-se em uma nova experiência quando foi lançada a versão em quadrinhos de seu filme Ao Ataque!. O diretor já esteve antes em São Paulo, em 2002, quando promoveu o lançamento de A Cidade Está Tranqüila. Apesar da rápida passagem, gostou da cidade, como comenta na seguinte entrevista feita por telefone, antes de embarcar novamente para o Brasil. Estado - Qual sua expectativa em voltar ao Brasil?Robert Guédiguian - Muito grande. Estive aí em 2002, para participar do Fórum Mundial do Audiovisual, uma das atividades do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Gostei muito da experiência, especialmente pela reunião de tantos especialistas para discutir a globalização. O clima na cidade provou que, sim, um outro mundo é possível. Por falar em cidades, Marselha é seu ponto fixo, que surge de formas diversas nos filmes, apresentada como microcosmo do restante do mundo. Como definiria a importância da cidade em sua obra?De fato, ela é um espaço de transformações, um microcosmo do mundo, como você falou. Marselha é um reservatório de histórias de pessoas que vivem lá e que por lá passam, pois é uma cidade muito aberta - se hoje são os asiáticos que chegam, há 40 anos foram os africanos e antes os italianos, os armênios. A principal transformação, no entanto, é econômica: a indústria e os estaleiros desapareceram e isso afetou profundamente sua sociedade. Outro ponto marcante de seu trabalho é o trabalho em grupo. Como é trabalhar sempre com praticamente o mesmo elenco?Um prazer e uma segurança. Todos nos conhecemos há mais de 20 anos e não consigo imaginar fazer um filme sem eles. Dispor de uma trupe como essa é um fato único no cinema francês atual. Todos os papéis são definidos em função da personalidade de cada um e geralmente há muito pouco de improvisação durante as filmagens. E creio que é um prazer para eles representarem pessoas atípicas, iconoclastas e totalmente diferentes de suas reais personalidades. Apesar da aparente semelhança, seus filmes são todos individuais, cada um com sua particularidade. Como é não temer a experimentação?Em meus longas, há duas tendências essenciais: uma história curta e a constatação de um fato. Meus filmes têm propostas irrealistas, eu sei, mas sou consciente disso, mesmo quando criticado. Eles oferecem propósitos otimistas sobre a realidade em que se baseiam. Para mim, essas histórias curtas apresentam um mundo que deveria ser o real. Talvez seja por isso que meus filmes sejam comparados aos de Marcel Pagnol: atmosfera de diálogos familiares e melodrama de inesperada veracidade, que são a chave de todo filme político.Retrospectiva Guédiguian - Centro Cultural Banco do Brasil, Rua Álvares Penteado, 112, 3113-3651. Hoje, 15h30, Último Verão (1981); 17h15, Sul Vermelho (1984); 19h20, Ki Lo Sa? (1985). R$ 4. Até 15/8. Programação completa no site do CCBB.

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