CCBB do Rio abre mostra de cinema noir francês

Se você é cinéfilo, sabe: nos anos 1940, um grupo de diretores europeus em fuga do nazismo criou em Hollywood a vertente (gênero ou estilo?) chamada de filme noir. Eram filmes urbanos sobre detetives e mulheres fatais, sobre homens enganados por mulheres, sobre homens e mulheres enganados pelas aparências, narrados com muita luz e sombra. Pois esse cinema noir, cujas origens são européias - expressionismo, realismo poético -, voltou à Europa e aclimatou-se muito bem na França. O filme noir francês ganha, a partir desta terça, um ciclo no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio.Não, não há previsão de que esse programa, sugestivamente intitulado O Lado Escuro da Tela, seja trazido para o CCBB de São Paulo, a menos, é claro, que o próprio público se encarregue de fazer ver à direção local do centro que se trata de uma mostra cult, destinada a atrair espectadores, principalmente jovens, que só conhecem esse cinema de ouvir falar. São 25 títulos que os cariocas passam a ver, a partir de hoje. Por seus elementos visuais e pela visão sombria da sociedade e do homem, podem ser classificados como filmes noir. É uma seleção tão eclética que vai desde o pré-nouvelle vague Yves Allégret, de Uma Praia tão Bonita, de 1949, até os neobarrocos Jean-Jacques Beinex e Léos Carax, de Diva - Uma Paixão Perigosa e Sangue Ruim, de 1982 e 86, respectivamente.Esse conceito do filme noir é tão amplo que permite aos programadores incluírem na mostra obras de Jules Dassin (Rififi, de 1956), Robert Bresson (Pickpocket, de 1959), Jean-Luc Godard (Alphaville, de 1965) e Claude Chabrol (Frango à Vinagrete, de 1985). Independentemente de gênero ou estilo, o maior de todos esses filmes, um dos maiores da história do cinema, é Pickpocket. Pode-se mesmo discutir se é um filme noir, mas ilustra, à perfeição, a máxima bressoniana: "O cinema é movimento interior."Há, na mostra, apenas um filme de Jean-Pierre Melville: Técnica de Um Delator. Essa é uma limitação grave que será corrigida, a partir de segunda-feira, pelo Telecine Classic, da Net/Sky, que vai exibir, até sexta, um ciclo dedicado ao maior diretor do noir francês. Esse ciclo inclui, logo na abertura, Bob, o Jogador, que antecipa a nouvelle vague e cujo erotismo será anulado nas obras-primas Os Profissionais do Crime e O Samurai, que o Telecine deixa de fora. O ciclo do Rio inclui uma homenagem a Henri-Georges Clouzot, no 25.º aniversário de sua morte. Ele era chamado de Alfred Hitchcock francês. Nada a ver, mas Clouzot, vilipendiado pela nouvelle vague, hoje tem status de mestre do noir francês. De O Assassino Mora no 21 e O Corvo - Sombras do Passado, nos anos 1940, a O Salário do Medo e As Diabólicas, nos 50, Clouzot é sempre um autor perverso e perturbador.

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