CCBB apresenta o ciclo A Montagem no Cinema

Em cinema, por paradoxo, cortar significa unir. É dessa forma que o curador Eugênio Puppo inicia o catálogo de A Montagem no Cinema, mostra de filmes com foco no trabalho dos montadores. Como não há filme moderno sem montagem (a não ser, talvez, A Arca Russa, de Alexandr Sokurov, longa em um único plano), qualquer título, em tese, caberia para ilustrar o trabalho do montador. E, de fato, há uma bela diversidade nesta seleção de 32 obras. Não se sabe se o público vai ao CCBB atraído pelas questões teóricas da montagem. Mas pode estar certo de encontrar ótimos filmes. Desde obras-primas como A Falecida, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, Cabra Marcado para Morrer, O Bandido da Luz Vermelha e Terra em Transe, até o mais recentes Estorvo, passando por títulos históricos como Exemplo Regenerador, de 1919. Para quem se interessa em discutir esse foco inédito para uma retrospectiva de cinema, haverá dia 21, às 19h30, mesa-redonda com os montadores Mauro Alice, Idê Lacreta, Cristina Amaral e Daniel Rezende. E mais o editor de som Eduardo Santos Mendes, mediados pelo crítico e professor de cinema Arthur Autran. São todos profissionais competentes e experientes e poderão falar de suas experiências. Inclusive das mudanças tecnológicas da área que, como outras da esfera audiovisual, sofreu uma revolução com a tecnologia digital. Hoje, as antigas moviolas são peças de museu. Mas existem montadores que confessam sua nostalgia por essas máquinas antediluvianas, como há ainda quem prefira a boa tecnologia dos LPs ao MP3. Como tem acontecido com as mostras do CCBB, o catálogo é uma atração à parte. Na verdade, não são apenas catálogos, com horários dos filmes, sinopse, etc. - são livros de verdade, para serem consultados durante a mostra e guardados depois. Este, dos montadores, está um show. É organizado por Eugênio Puppo, que, pensador do cinema, teve de enfiar a mão na massa ao vasculhar o acervo de Primo Carbonari para dele tirar material para um documentário. Esse trabalho, aliás, lhe deu a idéia para esta retrospectiva dedicada à montagem. O livro-catálogo tem ensaios sobre a matéria, assinados pelo próprio Puppo, pelo montador Eduardo Escorel e pelos críticos Ruy Gardnier e Arthur Autran. Reúne quatro entrevistas: com o ensaísta e cineasta Jean-Claude Bernardet, com o professor da USP Ismail Xavier e com os montadores Paulo Sacramento e Daniel Rezende. O livro mapeia a profissão de montador no Brasil e reúne 66 nomes, com respectivas minibiografias e filmografias. É trabalho de grande valia, em especial quando se sabe como são precárias as referências a técnicos da área cinematográfica. E também é evidente que, em mostra de tal nível, e organizada por pessoal tão qualificado, a escolha dos filmes não poderia se dar ao acaso. A montagem, para muitos desses filmes, foi fator decisivo. São os casos - para tomar dois exemplos radicais - de Terra em Transe, de Glauber Rocha, montado por Eduardo Escorel, e O Bandido da Luz Vermelha, montado por Sylvio Renoldi. Como escreve Jean-Claude Bernardet em seu texto para o catálogo, sem a montagem de Escorel e Renoldi esses filmes não seriam o que são: "A construção de Terra em Transe, que dá essa impressão de caos político, de vendaval, é muito precisa nos jogos de simetria, de personagem, de espaço. Tanto no Bandido quanto em Terra em Transe, a construção é uma significação. Os filmes não são confusos, é a precisão e a inteligência da montagem que dão essa impressão caótica e fragmentada. É porque a montagem está muito bem organizada que recebemos como significação o mundo caótico - mas a obra não é caótica." A Montagem no Cinema. Hoje, 14h, Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha; 16h, A Falecida (1965), de Leon Hirszman; 18h, Vestibular 70 (1970), de Vladimir Carvalho; 20h, ZéZero (1974), de Ozualdo Candeias. Centro Cultural Banco do Brasil (70 lug.). Rua Álvares Penteado, 112, Centro, tel. 3113-3651. Terça a domingo. R$ 4. Até 5/3

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