CCBB abre mostra Crimes Políticos no Cinema

Quando João Batista de Andrade ouve dizer que nunca deixou de fazer política, o cineasta e atual secretário de Estado da Cultura, concorda. "Meus filmes sempre envolveram essa temática. Desde Doramundo, O Homem Que Virou Suco, O Cego Que Gritava Luz, meu interesse sempre caiu no Brasil que sempre misturou polícia com política e de como isso causa turbulência dentro da sociedade. Grandes fatos históricos não me interessam, mas sim os meandros da realidade."Não por acaso, seu novo filme, Veias e Vinhos, uma História Brasileira, abre nesta terça-feira a mostra Crimes Políticos no Cinema, que o Centro Cultural Banco do Brasil promove até domingo. "O Brasil é muito pródigo quando o assunto é política no cinema. Não falo só dos filmes atuais. Mesmo durante a ditadura militar, muitos filmes sobre o assunto foram produzidos. E João Batista é um cineasta que sempre se dedicou ao tema", comenta Marco Altberg, coordenador do projeto Encontro com o Cinema Brasileiro, que todo mês leva um filme à tela do CCBB, incluindo debate com o diretor.Veias e Vinhos é baseado no romance homônimo de Miguel Jorge e conta a história real de uma família em Goiânia nos anos 50, dona de um bar-armazém que ostentava numa das paredes uma foto de Juscelino Kubitschek e de Getúlio Vargas. Sem motivo aparente, desconhecidos invadiram a casa e assassinaram o casal e os filhos. Só pouparam uma menina de 2 anos, que assistiu a tudo. "O crime abalou Goiânia. Até hoje os moradores têm medo de falar sobre o assunto. E isso se deve muito ao nível de manipulação política e policial vigente na época, quando a polícia, pressionada, organizou uma verdadeira fábrica de culpados, com a tortura como regra", conta o diretor de Rua Seis sem Número. "Neste filme, pensei mais uma vez em mostrar como a história brasileira e o poder interferem na vida das pessoas comuns que, pela simples preferência política atraem a intolerância", explica João Batista, que pretende lançar Veias e Vinhos no circuito neste ano. "É um filme que fala muito da minha própria memória. Vivi essa época, entre o governo Juscelino, a eleição de João Goulart, esse período pré-golpe. Quis mostrar que a violência já era arma de ação, mas que a ditadura transformou a truculência em sistema."Este será o segundo longa do diretor a estrear em menos de um ano. "Filmei Veias e Vinhos antes de Vlado, 30 Anos depois, mas montar uma ficção é sempre mais complicado", conta ele, que pretende trabalhar ainda neste ano em outros dois projetos. "Já havia falado muito do período em que o Brasil se abria após o fim da ditadura. Agora, enfoquei o período que o antecedeu. Para o próximo projeto, pretendo focar no período em que a repressão estava no auge", adianta o diretor. "É sempre difícil conciliar a política com o cinema. Vou tentar filmar neste ano. E montar depois de deixar a secretaria."A mostra segue com Quase Dois Irmãos, Terra em Transe, Vlado, Cabra-Cega e Bens Confiscados. Crimes Políticos no Cinema. Hoje, 19h30, Veias e Vinhos, uma História Brasileira (2005/2006), de João Batista de Andrade, seguido de debate. Amanhã, 17 h, Quase Dois Irmãos (2004), de Lucia Murat; 19 h, Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Centro Cultural Banco do Brasil (69 lug.). Rua Álvares Penteado, 112, 3113-3651,3.ª a dom. R$ 4 (R$ 8 para todas as sessões). Até 25/6

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