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Caverna.club: Um telefone como arma

Jean Cocteau havia cantado pra subir no ano anterior, mas sua obra, mais do que nunca, era incandescente

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2021 | 03h00

Um apartamento na Place Dauphine, Paris, 1964. Jean Cocteau havia cantado pra subir no ano anterior, mas sua obra, mais do que nunca, era incandescente. Talvez por ser a mais popular delas, A Voz Humana (La Voix Humaine) chegava agora ao gorgomilo da atriz e pitéu francesa Simone Signoret na pele de Elle/Ela, a mulher abandonada pelo amante que durante 40 minutos trava uma conversa com o miserável por telefone. Claro, telefone fixo, um horror. A gravação virou fita cassete, o sucesso foi absoluto (bit.ly/3CW9F1v). 

Esta gravação foi feita no próprio apartamento de Signoret em Paris e é uma das dezenas de versões existentes da peça de Cocteau. Entre o dia em que o azougue surrealista botou um ponto final em seu texto, em 1928, e hoje, A Voz Humana transcendeu o teatro, tornou-se ópera, filme e instalação. Talvez tivesse virado marca de enxaguante bucal, mas nunca soubemos – algo, cá entre nós, bem possível se considerado o gosto dos surrealistas. Encenaram, gravaram e filmaram a peça atrizes como a norueguesa (nascida em Tóquio) Liv Ullman, a sueca Ingrid Bergman e mais recentemente a inglesa Katherine Matilda Swinton, vulgo Tilda. Esta, no média-metragem de Pedro Almodóvar lançado ano passado. Chegará em breve às plataformas digitais de Pindorama.

A Voz Humana está em todos os lugares e de todas as formas, não adianta tentar fugir. O texto de Cocteau virou ópera por suas mãos. Escreveu o libreto e jogou a bola para o compositor Francis Poulenc fazer a partitura em 1958. Desde então tem sido apresentada de todas as maneiras. Tome-se como exemplo a exibição, até amanhã, no Opera Theatre of Saint Louis, da soprano e bambambã da ópera Patricia Racette, debulhando o texto surrealista na chamada tragédia lírica. Há uma versão paga no site Opera (operaphila.tv/videos/la-voix-humaine). Gratuitas, no Vimeo (vimeo.com/88116605), com Dietlinde Turban como Elle/Ela, ou com Isaiah Bell, na City Opera Vancouver (youtu.be/--Fqi-yCesQ). 

Cocteau dizia que a peça era uma reação aos textos teatrais decorativos e também um reforço ao seu gosto pelo desumano, maravilhoso e pelos sonhos. Bonito isso. Claro, se contarmos também a questão da solidão humana e o instinto de autopreservação. “Não só o telefone às vezes é mais perigoso do que o revólver”, dizia, “mas também seu fio sinuoso bombeia nossas forças e não nos dá nada em troca”. Mais vivo que nunca.

Simone Signoret é centenária e se foi em um dia como hoje. Era o pseudônimo de Simone-Henriette-Charlotte Kaminker. Não importa. Não é qualquer uma que tem seu nome adotado por uma gigante da música, como Nina Simone, como forma de amor e admiração.

 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS

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