Catherine Deneuve estréia 'Um Conto de Natal', de Desplechin

Diretor confessa ter tido prazer enorme fazendo o filme e diz que desafio foi 'falar de morte de maneira positiva'

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 de dezembro de 2023 | 18h49

Tudo começou com um texto do filósofo americano Ralph Waldo Emerson. Diante da morte do próprio filho, tendo de enterrá-lo, ele transformou a sua dor num sentimento positivo. Ao descobrir o texto - por meio de um amigo filósofo -, Arnaud Desplechin confessa que ficou perturbado. A princípio, ele não conseguia perceber o significado daquelas palavras, que lhe soavam estranhas, como produtos de uma mente louca. Mas foi assim, com Emerson, que nasceu o oitavo filme de Desplechin. No finalzinho de 2009, como um presente de Natal, chega um dos mais belos filmes do ano. Chama-se, sugestivamente, Um Conto de Natal. Veja também:Trailer de 'Um Conto de Natal' Desplechin conversa pelo telefone com o repórter do Estado, desde seu escritório, em Paris. A partir de seu segundo filme, La Sentinelle, Desplechin tem conversado sempre com a reportagem do jornal. A mais recente entrevista havia sido sobre Reis e Rainha, há quatro anos. Foi seu primeiro filme com Catherine Deneuve, a grande estrela da França. Desplechin representa o mais radical cinema de autor francês da atualidade. Deneuve, ao se entregar em suas mãos, não o faz por um alto salário. "Nem poderia pagar-lhe. Meus filmes são feitos com o dinheiro de que disponho, que nunca é muito. Trato sempre de me adequar aos orçamentos. Os atores que trabalham comigo sabem disso. Eles vêm pela paixão, ou pelo prazer, do próprio trabalho." Foi, de resto, o que ele não cessou de dizer, em todas as entrevistas que deu no Festival de Cannes, onde Um Conto de Natal foi um dos representantes da França (contemplado pelo júri com um prêmio especial para Catherine Deneuve). Todo mundo queria saber como Desplechin, um autor de filmes que não custam nada, havia conseguido reunir Deneuve, Mathieu Amalric, Chiara Mastroianni, Melvil Poupaud, Emmanuelle Devos. Desplechin ri - "Perguntavam a mesma coisa quando fiz A Sentinela. Fiz aquele filme com atores desconhecidos, mas entre eles já estavam Mathieu (Amalric) e Emmanuelle (Devos). Era uma ousadia fazer um filme sem um nome para vender. Hoje, tenho vários e as pessoas continuam estranhando." Embora lançado em maio, Um Conto de Natal foi feito ao mesmo tempo que o anterior, o documentário L’Aimée, de 2007. "Na verdade, havia alugado um décor, a casa que foi de meus pais, para documentário muito pessoal, sobre o amor de meu pai por minha mãe. Para aproveitar que o cenário continuava alugado, fiz a ficção." Pode ser que seja verdade, pode ser que seja só uma piada, uma ‘boutade’, como dizem os franceses. "Truffaut dizia que era importante fazer os filmes uns contra os outros. Não gosto de me repetir. L’Aimée (A Amada) carregava no sentimento de nostalgia. Aqui, abro o filme com as palavras de Emerson, que são justamente a recusa da nostalgia." Um pai fala de maneira positiva sobre o filho que morreu, há muitos anos. Este pai é o patriarca da família Vuilard, que agora se reúne para o Natal. Mas não é uma reunião tranqüila. A matriarca, o verdadeiro centro da família - ‘Sua referência é Hera ou Juno, mulher de Júpiter e rainha dos deuses, e por isso a personagem se chama Junon", explica o diretor -, está morrendo de câncer e precisa de transplante. O único doador compatível é o ‘mauvais fils’, o filho ruim, interpretado por Mathieu Amalric, o vilão de 007 - Quantum of Solace. "Era o desafio. Falar de morte de maneira positiva, explorar as possibilidades de tensão e rearranjo das relações humanas numa família. O final poderia parecer um happy end, mas o embate continua", diz o diretor, que confessa ter tido um prazer enorme fazendo o filme. "Tenho feito os filmes que quero, como quero, mas esta história de família me apaixonava de maneira particular", afirma. O repórter arrisca que o filme parece mais clássico do que os outros dirigidos por Desplechin, que, aos 48 anos contabiliza 18 de carreira. La Vie des Morts é de 1991. Os mortos já estavam na mira do autor. "Talvez a sua sensação de classicismo venha da temática familiar. Tudo aqui se passa em família, como nas tragédias gregas, mas tentei surpreender o espectado, revertendo as expectativas. Você espera uma coisa, o filme vai em outra direção. Nada, nem o happy end, é o que parece, e é uma coisa que me agrada em Um Conto de Natal", confessa o diretor. É interessante o método como Desplechin trabalha com os atores. Escreve os filmes, deixando pouca margem à improvisação. E não ensaia em grupo. "Trabalho os personagens individualmente, com cada ator."  Ele já havia dirigido Catherine Deneuve em Reis e Rainha e ela se integrou maravilhosamente ao método. "Nunca trabalho sobre o roteiro ou o diálogo. Minhas referências para os atores são sempre textos, livros, poesias. No caso deste filme, as referências para Catherine foram outros filmes." Que tipo de filmes? "De autores que admiro, de Howard Hawks, suas comédias do começo dos anos 40 e os westerns, mas eu dizia sempre a ela: esqueça as mulheres. Quero que você se concentre nos personagens masculinos e interprete Junon como se fosse Júpiter." Durante visita ao set de Quantum of Solace, no Chile, o repórter teve oportunidade de conversar com Mathieu Amalric, que se definiu, enquanto ator, como uma invenção de Desplechin. "Ele conta sempre essa história. Mathieu queria ser diretor e era estagiário em La Sentinelle, mas eu precisava de um personagem que tivesse o meu olhar de diretor e ele assumiu o papel. Na seqüência, fizemos Comment Je Me Suis Disputé (Ma Vie Sexuelle) e Mathieu ganhou seu primeiro César (o Oscar do cinema francês). Mathieu é um artista completo." Logo no começo de Um Conto de Natal, Jean-Pierre Roussillon, o pai, fala do filho que se desprendeu dele como uma folha cai da árvore. A árvore é a família. Emerson, ao renegar a tristeza da morte do filho, buscava criar um ‘novo mundo’. É por isso ou por admiração a Terrence Malick que aparece um cartaz do épico do diretor, O Novo Mundo, no qual ele deu sua versão da criação do Estado da Virgínia e do mito de Pocahontas? ‘Digamos que sejam as duas coisas, mas é um detalhe pequeno. Há coisas mais importantes nas quais prestar atenção", avalia o próprio autor de Um Conto de Natal. Enquanto preparava seu filme, Desplechin assistiu a Sarabanda e ficou muito impressionado com o último Ingmar Bergman. Ele espera, sinceramente, que alguma coisa de Sarabanda tenha passado para seu conto natalino.

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