Cate Blanchett interpreta uma guerreira da notícia

O Custo da Coragem não é um grande filme, mas possui qualidades - a maior delas é a interpretação de Cate Blanchett, impecável, como sempre - e é um programa atraente para se ver e comentar justamente nesta segunda-feira, dia 8, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. No final do filme, um letreiro informa que, desde que Veronica Guerin foi assassinada na Irlanda, em 1996, outros 189 jornalistas foram mortos, em todo o mundo, em associação com o material que produziam para seus jornais, revistas ou emissoras de TV. É provável que o número já esteja defasado, pois o filme é do ano passado e a guerra da informação não cessa de produzir vítimas, em todo o mundo.Veronica Guerin foi morta (e entrou para a história) por suas denúncias sobre drogas. No filme, depois de seguir várias pistas falsas, ela chega ao poderoso chefão. O cara é um bruto e você vai ver o que faz com Veronica. Não satisfeito, ele liga para a casa dela e ameaça - se persistir nas denúncias, ele vai seqüestrar o filho de Veronica e violentar o garoto. A ameaça é terrível, ainda mais vinda de um homem que possui uma existência respeitável e, até então, não podia ser ligado à guerra entre gangues pelo controle do tráfico na Irlanda. Veronica surta. Entra em pânico. Chora, grita, vomita. Ao marido que tenta consolá-la, ela pede que não diga nunca a ninguém. O quê, ele pergunta? "Que você me viu assim, fraca. Eles vão achar que me venceram." É um momento quase en passant do filme de Joel Schumacher, mas talvez seja o mais interessante de todo o filme. Basta isso para expressar a luta da mulher num mundo controlado pelos homens e a coragem de Veronica Guerin, pela qual, informa o título brasileiro, ela pagou um alto preço. A coragem tem seu custo. Muita gente já pagou com a vida pela coragem de denunciar e enfrentar os poderosos. Veronica não foi a primeira e, infelizmente, talvez não seja a última. O Custo da Coragem começa pelo fim, ou o que parece o fim. Cinco minutos de projeção, no máximo, e Veronica é morta, antes mesmo que o espectador saiba quem é e por que está sendo assassinada. Entra o letreiro - Dois anos antes - e aí o quadro começa a desenhar-se. O público descobre quem é Veronica no trabalho, em casa. É uma lutadora. Sua luta, até certo ponto uma derrota, individual, vira um projeto coletivo e aí O Custo da Coragem faz um chamamento à consciência pela via da música - no filme de Schumacher pela voz de Sinéad O´Connor. É fácil descartar um filme como O Custo da Coragem invocando questões que remetem ao rigor estético ou ideológico. Mais difícil é querer invalidar o esforço de uma grande atriz como Cate Blanchett no seu resgate de uma figura como a de Veronica Guerin. Anthony Minghella, que a dirigiu em O Talentoso Ripley, comparou-a a um Stradivarius, dizendo que Cate é o melhor instrumento do qual pode dispor um cineasta para fazer seu trabalho. Essa mulher bela, classuda e elegante, talentosa como nenhuma outra atriz de sua geração, nunca ganhou o Oscar. Este ano não foi nem indicada - e poderia ter sido, tanto pelo filme de Schumacher como pelo western de Ron Howard, Desaparecidas (que a Columbia desistiu de lançar nos cinemas e vai direto para o vídeo). Quando esteve em São Paulo para lançar Batman & Robin, Schumacher disse ao Estado que a morte é o tema dominante do seu cinema porque ele foi muito marcado pela morte do pai, quando era menino. A morte de Veronica Guerin domina o filme de ponta a ponta, mas essa guerreira não morreu em vão e essa é a lição que se pode tirar de O Custo da Coragem, um filme decididamente anticovardia e pusilanimidade.

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