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Cate Blanchett ganha retrospectiva com exposição no MIS

Em comemoração ao Dia da Mulher, mostra resgata carreira da atriz

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2019 | 03h00

Cate Blanchett pode ter sido a última atriz a se beneficiar do efeito Woody Allen para ganhar o Oscar. Durante anos, os filmes escritos e dirigidos por Allen foram celeiros para que atores e atrizes – mais elas – vencessem os prêmios da Academia. As denúncias do #MeToo desestabilizaram a carreira do artista e impediram que outra Kate, a Winslett, pudesse ser indicada por Roda Gigante (e ela, pressionada pela categoria, ainda teve de se desculpar por haver feito o filme). Cate venceu como melhor atriz por sua Blanche DuBois disfarçada de Blue Jasmine, em 2013. Já havia ganhado outro prêmio, como melhor coadjuvante, pela Katharine Hepburn de O Aviador, de Martin Scorsese, de 2004.

O Museu da Imagem e do Som, MIS, escolheu os 20 anos de carreira de Cate Blanchett – e os 50 anos que ela comemora em 14 de maio –, para homenagear o Dia Internacional da Mulher. A partir desta terça, 5, e até domingo, 10, o público poderá revisitar, de graça, momentos importantes da trajetória de Catherine Elise Blanchett, seu nome de batismo. Nascida em Melbourne, na Austrália, ela cravou sua primeira indicação para o Oscar no mesmo ano em que Fernanda Montenegro concorreu, por Central do Brasil, de Walter Salles. Cate foi indicada pela Elizabeth da cinebiografia de Shekhar Kapur – e ambas perderam para a Gwyneth Paltrow de Shakespeare Apaixonado, de John Madden. Há 20 anos.

Adquirindo projeção internacional, e deixando de ser apenas uma estrela australiana, Cate não parou mais. Além dos Oscars, três Globos de Ouro, três SAG Awards, uma Copa Volpi de melhor atriz no Festival de Veneza e a prestigiada presidência do júri no Festival de Cannes ornamentam seu impecável currículo. E os papéis – Galadriel, a rainha dos elfos da série O Senhor dos Anéis, que Peter Jackson adaptou da saga monumental de J.R.R. Tolkien; a sinistra coronel russa de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de Steven Spielberg; a Susan de Babel, de Alejandro González Iñárritu, e a romântica Daisy de O Curioso Caso de Benjamim Button, de David Fincher – e nos dois ela contracenou com Brad Pitt –, a Kate de O Aviador; a Blanche de Blue Jasmine; e a Carol, de Todd Haynes.

Não faltaram desafios nessa trajetória excepcional – ela foi uma das faces de Bob Dylan no conceitual Não Estou Lá, sua primeira pareceria com Todd Haynes, e deu voz aos múltiplos documentos de Manifesto, com o qual o diretor Julian Rosefeldt abordou a função revolucionária da arte, em diferentes momentos da história. Se a carreira é agitada, a vida privada é das mais pacatas para uma grande estrela sempre assediada pela mídia. Cate provoca dizendo aos paparazzi que perderão tempo correndo atrás dela e de sua família. É casada há 22 anos com o diretor e dramaturgo Andrew Upton. Conheceram-se quando ela trabalhou com ele no teatro, numa recriação de A Gaivota. De cara, detestaram-se. Ele a achou tola, ela o definiu como arrogante. Quando as máscaras caíram, iniciaram a relação – duradoura. Têm três filhos – Dashiell John, Roman Robert e Ignatius Martin. Em 2015, adotou uma menina, Vivienne, realizando o sonho de ter uma filha. Com o marido dirige a Sidney Theather Company.

Desde cedo, Cate, que estudou numa escola metodista para garotas, sentiu que sua vocação estava na área de humanidades e interpretação. Aos 18 anos, em férias no Egito, foi abordada no hotel por um agente que lhe propôs uma figuração num longa que estava sendo rodado no Cairo. Kaboria, estrelado pelo egípcio – já falecido – Ahmad Zaki, conta a história do campeão americano que foi derrotado por um modesto pugilista dos arredores do Cairo, uma espécie de Rocky local. Cate aparece poucos segundos na tela, como parte da multidão que torce na luta decisiva. De volta à Austrália, ela fez sua opção pela arte dramática. Transferiu-se para Sidney, frequentou o Instituto Nacional de Artes Cênicas e se formou em 1992. A partir daí, ganhou papéis cada vez mais importantes no palco e, depois, no cinema.

Sendo um dos rostos mais conhecidos do mundo, Cate também representa com a voz – e foi Kaa em O Livro da Selva e Valka em Como Treinar Seu Dragão 3. Justamente a voz – própria. O que pensa Cate Blanchett? Algumas frases que a expressam – “Às vezes é melhor perder essas coisas. E quem quer chegar ao auge aos 28 anos? (Ao perder o Oscar em 1999); “Ninguém é realmente o que diz ou pensa ser. Interesso-me muito, como mulher e atriz, por esse fosso entre o que você é e deseja ser”; “Minha maior felicidade é quando não sei o que vem depois”; “Todas nós (mulheres) gostamos de ser sexys, mas isso não significa que estejamos querendo transar com você”; “Se você amadurece e envelhece com uma pessoa, você passa por muitos estágios – amante, amiga, inimiga, colega, estranha, irmã. Isso é intimidade, quando você realmente está com sua alma gêmea.”

Outras comemorações incluem a do Belas Artes

Durante todas as sextas do mês, conjunto de salas resgatará clássicos de Agnès Varda e Lucrecia Martel

Por mais importante que seja a homenagem do MIS a Cate Blanchett, com dez filmes, pelo Dia Internacional da Mulher – 8 de março –, a data será marcada por outros eventos. Na quinta, dia 7, estreia Diários de Classe, de Maria Carolina e Igor Souza, uma parceria da distribuidora Elo Company com a Cinemark no programa Projeta às 7. O filme, que será exibido em 20 salas de 19 cidades, discute o resgate, pela educação, de mulheres que permaneceriam invisíveis na periferia de Salvador e ainda incita uma reflexão urgente sobre as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio.

Na sexta, 8, começa a homenagem do Belas Artes – ainda sem patrocínio – ao Mês da Mulher. Nos dias 8, 15, 22 e 29, serão exibidos filmes viscerais, a saber, Cléo das 5 às 7, de Agnès Varda; As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola; O Piano, de Jane Campion; e O Pântano, de Lucrecia Martel. Por mais hype que a filha de Francis Ford Coppola tenha se tornado depois, com Encontros e Desencontros e a cinebiografia de Maria Antonieta, seu longa de estreia, de 1999 – há 20 anos –, permanece o mais perturbador.

Sofia revela o subúrbio para tentar entender por que garotas, criadas num ambiente superprotegido e aparentemente perfeito, terminam por matar-se. O elenco contribui para a aura do filme – Kirsten Dunst, Josh Hartnett, Kathleen Turner, James Woods.

Jane Campion permanece como a única mulher a ter vencido a Palma de Ouro em Cannes, e foi justamente por O Piano, em 1993 (ex aequo com Adeus, Minha Concubina, de Chen Kaige). Na verdade, duas atrizes, Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, também receberam o prêmio por iniciativa do então presidente do júri, Steven Spielberg, mas foram Palmas honorárias, pelo trabalho conjunto com o diretor Abellatif Kechiche em Azul É a Cor Mais Quente, de 2013. 

Mas os dois melhores filmes da programação são os de abertura e encerramento. O primeiro longa de Agnès Varda, de 1962, é um marco da nouvelle vague. A diretora segue duas horas na vida de uma mulher (Corinne Marchand), em Paris, enquanto ela aguarda o resultado de um exame decisivo de saúde – terá câncer? Cléo é artista e contracena com Bob, o pianista – o recentemente falecido Michel Legrand. Também um longa de estreia, O Pântano, de 2001, aborda conflitos familiares e expõe a sociedade argentina pelo olhar crítico da diretora Lucrecia Martel.

MOSTRA CATE BLANCHETT. MIS. Av. Europa, 158, 2117-4777. 3ª e dom., 16h/ 18h; 4ª, 18h/ 20h; 5ª e 6ª, 18h/ 20h30; sáb., 16h/ 18h/ 20h30. Grátis. Até 10/3. 

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