Cate Blanchett conta como foi brincar de envelhecer em filme

Aos 39 anos, mãe de três filhos, atriz fala com exclusividade sobre 'O Curioso Caso de Benjamin Button

Flávia Guerra, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2012 | 16h07

Na antessala do Covent Garden Hotel, um dos mais cult de Londres, entre canapés gordurosos, conversas sobre o tempo londrino e sobre como anda a política internacional, o assunto que realmente importava aos jornalistas que esperavam sua vez para ter 20 raros minutos com uma das maiores estrelas de Hollywood era mesmo Como é que ela faz para ter aquela pele incrível?   Ela era Cate Blanchett, 39 anos, três filhos, várias indicações, e premiações, ao Oscar, Globo de Ouro, ao Bafta. Duplamente nomeada ao Oscar de 2008, por Elizabeth - The Golden Age e Eu não Estou lá, e vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2005, por O Aviador.   O que ainda falta na carreira desta australiana que, após viver em Londres por anos, onde conheceu o marido, o dramaturgo, e também australiano, Andrew Upton, decidiu voltar à sua terra natal para ter uma vida 'menos errante'? "Tanta coisa. Dirigir um filme, fazer um bom trabalho na Sydney Theatre Company (da qual ela e Upton são diretores artísticos), criar meus filhos", lista a atriz quando, após horas de entrevistas e um ensaio interminável para a Vogue Inglesa, jantava uma frugal salada (para "manter a forma que conseguiu recuperar" depois do nascimento do terceiro filho, Ignatius Martin, em abril de 2008) enquanto conversava com o Estado sobre seu mais novo filme, O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher (Clube da Luta e Seven - Os Sete Pecados Capitais).   Dia exaustivo, mas não o suficiente para tirar a polidez elisabetana da atriz que parece ser capaz de se sair tão bem no papel de mãe quanto no de Bob Dylan. No filme, adaptação de um conto de F.Scott Fitzgerald, ela é uma bailarina que se apaixona pelo curioso Benjamin. A história vem curiosamente a calhar em tempos em que velhice virou tabu. Com cinco indicações ao Globo de Ouro (Melhor Drama, Melhor Direção, Melhor Ator Dramático, Melhor Roteiro), o longa já é apontado como um dos figurões do Oscar deste ano. A trama de Curioso Caso conta a história de Benjamim (Pitt), um bebê que nasce velho, quase à beira da morte, e vai rejuvenescendo com o passar do tempo. Em um determinado momento, a trajetória, e as idades, de Daisy e Benjamim se encaixam perfeitamente. E eles parecem ser o casal perfeito.   O problema é que ele vai se tornando cada vez mais o filho. E Cate cada vez mais a mãe do homem que ama. "Engraçado como isso muitas vezes acontece na própria vida. Perdi meu pai muito jovem e, de certa forma, meu marido é também uma figura paterna para mim", abre a atriz ao Estado.   Enquanto conversa, entre uma folha verde e outra, ela conta que perdeu o pai aos dez anos, em "um dia em que me despedi dele na janela quando ia para o trabalho e nunca mais o vi", e até entrega a marca do creme que usa para rugas. A tal da pele de pêssego parece mesmo ser imune às horas de perguntas repetidas e respostas talvez mais repetidas ainda. A atmosfera protocolar que maratonas de entrevistas em geral têm não deixa de pairar no ar cheirando a tapete antigo do hotel, mas Cate faz questão de tentar ser o mais natural possível. Você deve estar um tanto cansada de ouvir pela enésima vez no mesmo dia que sua forma está incrível no filme, que forma um belo casa com Pitt, não?, pergunta o Estado. "Estou. Mas faz parte do meu trabalho. E estou bem crescidinha para entender que não só a pele, mas a mente também tem de se manter fresca para enfrentar estas maratonas", responde ela, enquanto monitora com sua assessora particular se os três filhos (além de Ignatius, Dashiell, então com seis anos, e Roman, de quatro) também jantam no andar de cima.   Ainda que mais rápida do que qualquer fã de seus filmes gostaria, uma conversa com Cate merece sempre ser lida na íntegra e nas entrelinhas: Você não acha que a frase (que já foi atribuída a Chaplin) de que deveríamos nascer velhos e rejuvenescer até morrermos bebês se aplica bem a Benjamin Button? Acho esta frase linda, mas tão triste de ser dizer. Porque é tão carregado de arrependimento. E este é um filme sobre a alegria e a tristeza de se nascer não com a sabedoria, mas com o corpo de um velho homem e a mentalidade de um jovem. E quando ele vai ficando velho, vai acumulando sabedoria de quem vive uma vida plena.   Vocês não brincam com a ironia de que muitas vezes se tem juventude, mas não sabedoria. No caso de Benjamin, ele tem os dois. Você envelhece. Ele não. Foi esta dualidade o que mais a seduziu neste papel? Na verdade, ele também envelhece. Nada é perfeito. Meu primeiro impulso ao aceitar este papel foi bem mais prosaico do que parece. Queria voltar a trabalhar com o David (Fincher) e com Brad (com quem dividiu a cena em Babel). E aí esta história apareceu. De início, parecia tão dolorosa e, ao mesmo tempo romântica e fantástica. E pensei o quão desafiador seria interpretar um personagem que vai dos seis aos 86 anos. Minha voz foi fundida com a voz da atriz que me interpreta aos seis anos Em geral, há duas ou três atrizes para o mesmo personagem.   E como é trabalhar com David Fincher? É uma doce agonia. Ele é extremamente meticuloso. Ele nos adora e nos odeia ao mesmo tempo. E é incrivelmente engraçado também. Com ele e com Brad eu posso literalmente brincar em cena.   Vocês continuam brincando com a ideia de não só envelhecer, mas com a diferença de idade (e tempo) entre vocês. Sim. E brincamos também com o fato de como o amor se trata também do fato de duas pessoas estarem no mesmo momento da vida, em sintonia, não só fisicamente, mas também mental e emocional.   Foi também desafiador trabalhar a velhice na tela?Mulheres estão comentando sobre o quanto você parece ser mais jovem do que é. Até o creme anti-idade que você usa as interessa. Você sente esta pressão para ser sempre jovem? De forma alguma. Óbvio que me cuido, mas também é óbvio que estou mais velha. No fundo, ainda morremos de medo da morte. Mas é inevitável e temos que nos preparar. Somos obcecados com o que parecemos ser e não no que pensamos. Ou na evolução de nossas crenças. É bizarro...   Mas você pôde 'brincar de envelhecer' neste filme. E para a 'fase jovem'? Também precisou de efeitos especiais? Fosse outra época, poderia ficar ofendida com esta pergunta. Hoje não. A idade é algo essencial neste filme. Por isso, houve um pouco de 'maquiagem digital' para me fazer parecer mais jovem. E também para me fazer parecer mais velha. E pode-se fazer muito só com iluminação. Posso parecer que acabei de fazer um lifting só pela forma com que meu rosto é iluminado. E muito disso também é a energia que eu, como atriz, empreguei nas expressões. Então, me desculpe, mas não se trata só de maquiagem.   O que há de tão especial em Daisy? O que há difere e a aproxima de personagens como Elizabeth? Acho que cada um é diferente, claro, mas eu simplesmente pensei em como achamos que tudo é possível quando somos jovens, como lutamos contra o mundo sem medo e com vontade de provar algo. Mas não é fácil lidar com sua própria mortalidade quando se é jovem. E Daisy tem de aprender a lidar com isso muito cedo e isso muda o curso de sua vida. Ela é muito ambiciosa. Mas sua ambição é pela vida. Ela pode ser cruel, mas está vivendo uma situação muito especial também. Tem de aprender a lidar com a perda de uma forma muito particular.   Você perdeu seu pai muito jovem. E hoje você é mãe de três garotos. Isso com certeza mudou sua forma de lidar com a morte. É verdade. Ele morreu quando eu tinha dez anos. Foi um estranho privilégio. Isso faz com que você dê valor às coisas desde muito cedo. E isso passou a ser mais forte depois que me tornei mãe. Hoje valorizo muito mais meu tempo. Tornar-se diretora da Sydney Theatre Company é uma forma de valorizar mais seu tempo e estar mais próxima de seus filhos? É. Estou mudando meu foco também. Eu e meu marido decidimos voltar para Sydney porque lá é nosso lugar. Além de poder usar nosso prestígio e nossas conexões para promover ações, podemos trabalhar e projetos que são desenvolvidos mais a longo prazo. Temos um contrato de três anos como diretores artísticos da companhia e queremos desenvolver novos projetos, além de trazer novos parceiros internacionais para o teatro. Isso é bom.   O que é mais desafiante? Estrelar em Hollywood ou administrar o teatro de sua cidade? Difícil pergunta.... São coisas diversas. Retornar à minha cultura foi algo realmente importante. Sinto esta responsabilidade imensa. Acho que ter vivido no exterior nos dá uma outra perspectiva, muito mais crítica em relação à nossa própria cultura. Ganha-se uma perspectiva nova e se aprende sobre o que você precisa descobrir sobre seu próprio país, mesmo que de longe.   Apesar de desempenhar papéis inesquecíveis no cinema, o teatro ainda é muito importante para você, não? Claro. Isso é até um chavão de se dizer, mas o palco é muito mais orgânico. A relação com o público no cinema é tão mais distante. Este ano vou viver um personagem que sempre quis fazer: Blanche du Bois, em Um Bonde Chamado Desejo. E será dirigido pela Liv Ullman. Há tempos que queriam trabalhar juntas. E Um Bonde foi sugestão do Andrew, meu marido. Estou feliz, pois este ainda é um texto muito atual e poderoso.   Uma mulher dirigindo um texto como este é algo interessante, não? Ela é incrível. Vamos encenar em Washington e Nova York . Quem sabe não vimos para a Europa e você poderá nos ver.   O que ainda falta você fazer, seja na Austrália ou no mundo? Ainda quero criar meus filhos, e bem. Mas tanto no teatro ou no cinema, o que quero continuar fazendo diz muito mais respeito a projetos que surgem de conversas que vão acontecendo, diretores que te imaginam em um certo papel, encontrar uma boa história. A única personagem que não fiz ainda e que gostaria de fazer é Berenice. Mas por ora, ainda não tenho nenhum filme em vista.

Tudo o que sabemos sobre:
filmecinemaCate Blanchett

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.