Divulgação
Divulgação

Catarse sem reflexão diminui alcance do longa 'Nascimento de Uma Nação'

Questão da escravidão surge com contundência e violência

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2016 | 06h00

Não falta topete a Nate Parker. Com o seu O Nascimento de Uma Nação, toma emprestado o mesmo título do clássico racista de 1915, de D.W. Griffith. Neste, Griffith, apesar do conteúdo tosco, coloca as bases da narrativa cinematográfica e, por isso, garante seu lugar na História. Nate Parker, pode-se dizer, não inova. Mas coloca a questão da escravidão com contundência e violência como poucas vezes se viu no cinema. São seus pontos fortes. E, pelo exagero, também os mais fracos.

Isso porque existe um ponto de partida dos mais promissores para uma visão original sobre a escravidão. Há o garoto negro Nat Turner, que ganha proteção de uma dama branca sulista. Esta o alfabetiza. O menino se interessa pela biblioteca da casa grande, mas a mulher lhe diz que aquilo não é leitura para negros. Para estes, existe um único livro reservado. O Livro. A Bíblia. E Nat a ela se dedica com entusiasmo. Já adulto, e agora interpretado pelo próprio diretor, Nat torna-se um privilegiado pregador bíblico. Sua função é levar a palavra do Senhor aos negros desesperados e revoltosos. Quer confortá-los, para que não se desesperem ou se revoltem contra os donos. Ou seja, Nat usa a religião como anestésico para a desumanidade da escravidão. Não convém dizer mais sobre a trama, mas o leitor pode saber que essas experiências e também a ultrapassagem de certos limites levam Nat a uma revisão de suas convicções.

Com essa hipótese de trabalho favorável, Nate Parker poderia ter levado sua obra a temas mais agudos, como o fato de que, em parte, a escravidão é sustentada pelos próprios escravos. Observação que serviria não apenas para tempos passados, mas para os EUA da atualidade (ainda mais com Donald Trump presidente) e também para outros países. Mas, em vez de discutir a servidão voluntária, opta pelo caminho da exposição cruenta e busca a explosão emocional do público. Não por acaso, uma cena de vingança mais explícita foi aplaudida em cena aberta numa sessão da Mostra. O deslizar do naturalismo para sequências alegóricas, ao som do clássico Strange Fruit, também não ajuda. Catarse, sem pensamento, diminui um filme que, com um pouco mais de elaboração, poderia ser fundamental.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.