Cassetas filmam "Abaicho a Ditadura!"

Depois de quatro anos de muita conversa - fiada, inclusive -, os sete integrantes do programa Casseta & Planeta, Urgente! chegaram ao roteiro final de seu primeira longa-metragem: Abaicho a Ditadura!. Isso mesmo: abaixo com "ch", já que a palavra de ordem é pichada nos muros do Rio de Janeiro, na década de 70, pelo inculto comunista stalinista Wladimir, interpretado por Bussunda."Ele é radical e meio analfabeto. Também gosta de pichar: ´Mais verbas para a inducação´", diverte-se o humorista, que está à frente do projeto, em fase de captação de recursos.Contra regime e churrasco - O filme - que se vale de várias licenças humorísticas históricas e cronológicas - conta a saga de um grupo atrapalhado de terroristas que seqüestra a taça Jules Rimet, assim que os tricampeões mundiais de futebol chegam ao Brasil, em 1970, e resolve fazer barganha com os poderosos militares, pedindo desde o fim da ditadura até o fechamento das churrascarias, onde o consumo excessivo de carnes é política e nutritivamente incorreto.A comédia, orçada em R$ 3 milhões e dirigida por Lula Buarque, da Conspiração Filmes, tem tudo para entrar no rol dos empreendimentos da Globofilmes. "Estamos quase fechando o contrato. Afinal, a Globofilmes faz parte da empresa na qual trabalhamos e nos dá certeza de uma divulgação muito legal. Não vê A Partilha? Pelo que a gente está sentindo, não vai ser tão difícil captar recursos", acredita Bussunda.A orelha da taça - Se tudo der certo, Abaicho a Ditadura! será rodado em 2002, com estréia prevista para o fim do ano que vem. "A idéia era fazermos o filme nas nossas férias, durante janeiro e fevereiro, mas está muito em cima, acho que não vai dar tempo", calcula o comediante. Com as gravações do programa de TV sempre às segundas e terças, e o resto da semana dedicado à redação e preparação dos quadros, não sobraria espaço na agenda dos cassetas para as filmagens.A história de Abaicho a Ditadura! é marcada pelo tal grupo terrorista que acredita ter em mãos algo muito mais importante do que qualquer embaixador seqüestrado. "De posse da Jules Rimet, eles podem tudo. Tem um momento em que, para pressionar os militares e mostrar que são capazes de qualquer coisa, mandam um orelha da taça. Isso em meio à fuga e à elaboração da lista com os pedidos mais doidos de cada um", conta Bussunda.Os personagens principais são o militante Wladimir; o hippie maconheiro Denilson (Hélio De La Peña), que é contra a poluição e a carne vermelha e o cantor brega Peixoto Carlos (Hubert), um revoltado porque se acha o criador da jovem guarda, que lhe foi roubada por outros intérpretes. Na linha de frente, além deles, estão a mãe de Wladimir, dona Julieta (Reynaldo), que vive tricotando casaquinhos vermelhos para o filho não se resfriar em suas incursões terroristas; o general Mamede (Reynaldo), velho político que só pensa em se aposentar para cultivar rosas e parar de correr atrás de comunistas; dona Dolores (Marcelo Madureira), mulher de Mamede, que, ao contrário do marido, é linha dura e quer vê-lo presidente da Junta Militar; e o general Manso (Beto Silva), torturador de primeira.Maria Paula também está no elenco: ela é Lucy Helen, filha do general Manso, que entra para o grupo quando se apaixona por Wladimir, mas que, logo depois, começa a trocar de companheiro - sem trocadilhos - a toda hora. O filme, que será todo rodado no Brasil, começa com o roubo da taça, durante o memorável desfile dos jogadores, pelas ruas do Rio, no carro do corpo de bombeiros.Craques maquiados - Os Cassetas estão pensando em convidar tricampeões como Pelé, Carlos Alberto, Jairzinho e Tostão, entre outros, para reviverem aquele momento. "Eles serão maquiados, rejuvenescidos, para chegarem o mais próximo do que eram naquela época", provoca Bussunda. " É claro que vai ser difícil conseguir isso... Com o Tostão, por exemplo, vai ser duro...", brinca. Ele informa que o filme não prevê participações de atores. Mas há um outro famoso cogitado - e ainda não convidado - para fazer o papel dele mesmo: "Quando os terroristas vão alugar uma casa para usar como ´aparelho´, não conseguem, porque todos já estão ocupados. Aí, aparece o Fernando Gabeira entregando a chave daquele em que mantiveram refém o embaixador Elbrick".Humor de hoje - Mesmo que o começo das filmagens demore um pouco mais do que o previsto, o importante, segundo Bussunda, é que ele, Hélio de La Peña, Hubert, Reynaldo, Marcelo Madureira, Beto Silva e Cláudio Manoel chegaram a um consenso "muito democrático" sobre o que seria o primeiro longa da carreira deles. "Nós discutimos pra caramba nesses quatro anos. No início só sabíamos que seria um filme baseado no universo da década de 70, que brincaríamos muito sobre tudo o que aconteceu naquele tempo. Mas é importante frisar que não é um ´humor de época´", explica Bussunda. E esclarece: "Será o nosso humor só que em cima dos fatos de 70". E avisa: "O que não for da época, é porque tem uma piada no meio: como o uso de um celular numa determinada cena, por exemplo".Ninguém será poupado - Assim, é claro que não vão faltar muitas sátiras sobre sexo, drogas e rock-and-roll - lema dos anos pré-Travolta. "Vamos falar sobre a liberação sexual, sobre os hippies, os militantes... Acho que há um certo mito sobre a década de 70, principalmente para quem não a viveu. Vamos brincar com isso". E nada de momentos sérios. "Para o público e a crítica o filme será polêmico. Vai receber críticas pesadas... Não livraremos a cara de ninguém: fazemos piadas com torturado e torturador", garante. E ninguém duvida.

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