"Casseta" filma glória e drama de Simonal

O humorista Claúdio Manoel, do Casseta e Planeta, quer fazer drama. Em seu primeiro projeto paralelo, trabalha num documentário sobre o cantor Wilson Simonal, personagem controvertido da nossa música popular. "Ele inventou o show biz brasileiro moderno. Foi o primeiro cantor a usar marketing, a vender um milhão de discos e fazer show em estádio. Mas morreu no ostracismo, depois da denúncia de que seria informante do regime militar. Acusação nunca comprovada, mesmo por instituições como o Grupo Tortura Nunca Mais, a quem consultei", conta Claúdio. "Aí tem um drama. Como o artista mais amado do País tornou-se tão odiado? Como o homem que vendia alegria morreu de tristeza?"Cláudio tem 43 anos e entrava na adolescência quando os fatos aconteceram, entre os anos 60 e os 70. Interessou-se por Simonal ao ler Noites Tropicais, livro de Nelson Motta, sobre esse período. "Pensei em fazer ficção, mas descobri material inexplorado, bom para um documentário. Além disso, os fatos são inverossímeis, embora absolutamente verdadeiros", comenta o humorista. "Simonal é um caso de delator sem delatado. As acusações contra ele têm sujeito indeterminado. É, disseram, conta-se, mas ninguém assume a denúncia. Não quero inocentá-lo ou satanizar seus acusadores, só contar como era aquela época e reabilitar o cantor magnífico."Simonal foi o típico músico das classes populares. Filho de uma empregada doméstica, aprendeu música em bandas militares e profissionalizou-se em bailes e inferninhos do Beco das Garrafas. Mas tinha mais talento que a média, mais voz, suingue incomparável e completo domínio da platéia. Seu primeiro elepê, Balanço Zona Sul, foi sucesso de crítica e público, e o segundo, Nova Dimensão do Samba, aumentou a dose. Tornou-se onipresente no hit parade, com versões antológicas de Lobo Bobo, de Carlos Lyra, Nanã, de Moacir Santos, Pais Tropical, de Jorge Ben, e Meu Limão, meu Limoeiro, cantiga folclórica. Orientado pelo publicitário Carlito Maia, foi garoto-propaganda da Shell, inaugurou estádios pelo Brasil e lançou produtos com sua marca.Mas não era submisso num tempo em que se dizia que no Brasil não havia preconceito racial porque aqui o negro conhece o seu lugar. Ostentava riqueza e dizem que era arrogante. "Era marrento, mas sem ideologia. Este, aliás, foi seu problema, num tempo em que quem não era contra a ditadura militar era a favor", explica Cláudio Manoel. "A esquerda o tratava como colaborador do regime e os militares o consideravam perigoso, por pregar a quebra de convenções. E ele se sentia um legítimo representante do black power, movimento dos negros norte-americanos pela igualdade racial."A questão precipitou-se por volta de 1972, quando ele, sentindo-se roubado por seu contador, Rafael Vivandi, quis fazer a própria justiça e o seqüestrou. "Aí é que a história tem muitas versões. Ele realmente cometeu um crime, mas foi preso e pagou por isso. Só que ninguém comprova sua ligação com a polícia política, torturadores ou órgãos de repressão. E, se ele foi colaborador da ditadura, por que se deu tão mal?", questiona Cláudio Manoel. "Outros artistas também colaboraram com a ditadura, mas se reabilitaram, como Elis Regina, e até Dom e Ravel, que faziam hinos aos militares e continuaram com suas carreiras, sem problemas. Por que só Simonal não se reabilitou?"Cláudio Manoel pretende mostrar essa sociedade, que se escandalizava quando o maestro Erlon Chaves, também negro e amigo de Simonal, mandava pela televisão um beijo a todas as mulheres do Brasil (foi preso pela ousadia). Para isso, já descobriu de cinco horas de vídeo com o cantor em dueto com Sarah Vaughan, tocando vários instrumentos ou cantando e regendo a platéia. Obteve com os filhos dele, os cantores Simoninha e Max de Castro, autorização para mexer nessa ferida. "Quando eles começaram a fazer shows, o Simonal ia disfarçado, porque temia que a associação dos filhos com sua pessoa os prejudicasse", conta Claúdio. "Eles dizem, até morrer em 2000, que o pai se desesperava por não existir, por ter sido banido da história da música brasileira."Para Cláudio Manoel há passagens obscuras nessa história. Ele conta ter lido uma entrevista do produtor André Midami, então presidente da gravadora Phillips (hoje Universal) na Playboy, contando que contratara Simonal a mando de um general. "Ainda não falei com o Midami, mas é estranho uma gravadora não querer o maior vendedor de discos do País. E, mais uma vez, não há sujeito nessa denúncia. Fala-se em um general, sem identificá-lo", destaca. "Trabalho há um ano nesse projeto, tenho 80% do roteiro de gravação pronto, promessa de exibição no canal a cabo Multishow e o certificado da lei do Audiovisual, mas preciso de R$ 215 mil para concluir as pesquisas e fazer o filme em duas versões, em 52 minutos para a televisão e em 75 minutos, para o cinema."Aí, há mais dificuldades. Apesar de seu currículo de sucessos na televisão, com o Casseta e Planeta, Cláudio Manoel não consegue receptividade nos possíveis patrocinadores. "Nem com o Ministério da Educação, que tem um programa de filmes sobre personagens negros de nossa história. Aliás, há um rap de um grupo paulista que cita 115 artitas negros brasileiros, só falta o Simonal", lembra Cláudio Manoel. "É angustiante porque estou acostumado com televisão. Você escreve e o programa vai ao ar na semana seguinte. Cinema demora, mas eu espero lançar o filme até o início o ano que vem, se possível junto com uma caixa dos discos de Simonal, um projeto dos filhos dele. Estou tão envolvido com isso que sou capaz de fazer na marra. Mas com o patrocínio seria bem melhor."

Agencia Estado,

08 de agosto de 2002 | 17h46

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