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‘Casa Grande’ estreia para refletir o País e ser um dos filmes do ano

Longa de Fellipe Barbosa chega para fazer história no cinema brasileiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2015 | 03h00

Clarissa Pinheiro era aluna de Fellipe Barbosa no curso de direção na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio. Thales Cavalcanti estudava no Colégio São Bento e o diretor e roteirista de Casa Grande achava que necessitava de alguém com a vivência do colégio em que estudou para captar as nuances do personagem que, afinal, tem bastante de autobiográfico. E Gentil Cordeiro, que faz o motorista, Severino, veio do forró. Nenhum deles é ator/atriz, mas então como é que são tão bons no filme que estreia nesta quinta, 16?

O cinema tem desses milagres. Fellipe Barbosa redigiu várias versões do roteiro e ainda trabalhou com os intérpretes não apenas para que adquirissem a embocadura do texto, mas para que lhe ajudassem a dar veracidade aos personagens e seus conflitos. Alguma coisa da relação de Clarissa e Thales na tela, a ligação da doméstica com o garoto da alta classe média, nasceu da interação dos dois. E Severino sempre foi importante. Fellipe Barbosa chega a dizer que, sem o motorista, a jornada de descoberta e conscientização do garoto nunca ocorreria. Severino esteve sempre no seu roteiro, Clarissa chegou bem mais tarde.

O filme também não nasceu com a intenção declarada de refletir, como um espelho, o Brasil - mas o faz. “Essas coisas nunca são planejadas. Existe um elemento inconsciente que é essencial na realização dos filmes, coisas que a gente faz porque o relato exige e só descobre o significado depois. O que sempre houve foi o desejo de falar sobre um garoto que se transforma.” Esse personagem - Jean - é o próprio diretor. Fellipe começou a escrever Casa Grande em 2006, quando estudava na Universidade Columbia, nos EUA. Vivera um pouco a situação do filme. Sua família falira, mas tentara preservá-lo. Escrever a distância ajudou. “A ficção me deu respaldo para matizar a autobiografia.” O personagem é ele, mas não é. Clarissa, a doméstica, surgiu em 2011, como um eco de uma personagem que vivera no condomínio que foi a casa de Fellipe por dois ou três anos. O resultado é um dos grandes filmes da história do cinema brasileiro. 

Para o espectador que vai o filme, que estreia nesta quinta-feira, 16, poderá ser como um eco de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho – que Fellipe “adora”, mas diz que não quis emular. A ideia do filme vem de longe. Há nove anos, ele estava nos EUA. Estudava na Universidade Columbia. A integração social e política era um tema permanente. De longe, ele acompanhou os primeiros debates sobre cotas raciais. Lá mesmo, na Columbia, Gilberto Freyre concebeu uma obra farol para o Brasil, Casa Grande e Senzala.

Fellipe sempre quis fazer, não uma adaptação da obra de Freyre, mas um filme que refletisse as relações sociais entre a casa grande e a senzala no Brasil contemporâneo. Um filme sobre patrões e empregados. Sem que ele soubesse, numa fase de sua vida, a família endinheirada faliu, mas escondeu dele o fato. O roteiro foi nascendo quase como um ato de exorcismo, ou um rito de passagem, como se Fellipe quisesse refletir sobre o garoto que foi, o que poderia ter sido – e o homem que é. “Ao tentar me proteger, escondendo sua falência, meu pai me levou a uma ausência da qual, anos mais tarde, me ressenti. Escrever o roteiro foi uma forma de corrigir essa ausência numa fase tão difícil da vida dele.” O garoto, Jean, no qual Fellipe não deixa de se projetar – mas protegido pela ficção –, faz uma espécie de aprendizado, a descoberta de um outro mundo, um outro País além das fronteiras do condomínio.

Hoje, é comum que lhe perguntem se ele fez Casa Grande para falar de um Brasil que implode. Por todo o Brasil, segue a onda de manifestações e protestos e, mesmo que tenha sido reduzido o número de participantes, tornaram-se mais agressivas como palavras de ordem. Fellipe estaria querendo refletir sobre esse Brasil? Ele diz que, conscientemente, não. Inclusive, quando começou a escrever o roteiro, em 2006, os indicadores econômicos eram os melhores possíveis para o País. Uma fase de euforia. De qualquer forma, o desenho acabado do filme já estava lá. A família isolada pelos muros do condomínio, a falência e os cortes de orçamento. Apesar da crise – os pais devem para todo o mundo, o pai é visto com suspeitas, como trambiqueiro –, a pose se mantém. Jean continua indo para a escola levado pelo motorista. O grande choque é quando Severino é demitido e Jean vai de ônibus para a escola.

“Para mim, é uma cena estilo conto de fadas. Escrevi como se estivesse de volta aos meus 17 anos, e como teria sido se tivesse estado presente naquele momento da minha família. Ela deflagra o processo que vai fazer com que Jean tome consciência. Ele vai terminar brigando com os pais, procurando Severino e com essa nova realidade vai ter... Ah, mas não vamos dizer tudo o que ocorre porque senão o público não vai ver. Vamos deixar a graça da descoberta para quando se estiver assistindo ao filme”, propõe o diretor. Um dos filmes mais ricos e complexos do cinema brasileiro recente, Casa Grande chegou a ser definido nos bastidores do Festival do Rio do ano passado como O Som ao Redor que deu certo. Mesmo considerando o filme de Fellipe Barbosa melhor – é próprio do cinema, as obras vão se depurando e avançando –, a ideia tem, em si, algo de absurdo, porque o longa de Kleber Mendonça Filho fez uma bela carreira de crítica e chegou a estourar internacionalmente, com reconhecimento em festivais e importantes publicações especializadas.

Casa Grande integra atualmente a retrospectiva do cinema brasileiro organizada pela Cinemateca de Paris. “A França incorporou o filme de uma maneira muito calorosa”, diz o diretor. “Casa Grande tem tido ótimas críticas e deve estrear em Paris no começo de junho.” O filme iniciou sua carreira no Brasil em Paulínia, no ano passado, vencendo o prêmio do júri, de roteiro (para o diretor e Karen Sztanjberg) e de melhores coadjuvantes – Marcelo Novaes (o pai) e Clarissa Pinheiro (a empregada boazuda Rita). Depois disso, não parou mais e circulou por festivais na Holanda, Austrália e França, e também por eventos na Eslovênia, Espanha e Coreia. Nessa última, até porque estavam isolados pela barreira da língua, Fellipe tornou-se muito amigo de Benjamin Naishtat, diretor de Bem Perto de Buenos Aires, com o qual seu filme não deixa de ter certa proximidade. Ambos encaram um sentimento de paranoia. No filme argentino, um rombo na cerca que protege o condomínio expõe os moradores à sua vulnerabilidade. “Foi uma das grandes conquistas dessas minhas andanças pelo mundo com o Casa Grande. Tornei-me amigo do Benjamin, e tem sido um privilégio trocar experiências e figurinhas com ele.”

Mas a grande emoção de Fellipe Barbosa no exterior foi mesmo apresentar Casa Grande na UCLA, a Universidade de Cinema da Califórnia, a pedido do brasilianista Randall Johnson, uma das pessoas que mais conhecem cinema brasileiro no exterior, além de ser especialista no estudo das relações entre cinema e literatura. “Para mim, teve até um significado simbólico, porque mostrei o filme em uma sala que leva o nome de James Bridges e meu primeiro prêmio para desenvolvimento de projeto nos EUA já levava o nome dele, uma coisa assim misteriosa, mas que, agora, a posteriori, me parece ter sido premonitória. Eu também fui projecionista na sala em que exibi meu filme, tudo isso fica girando na minha cabeça. É tudo muito sugestivo.” Como se os próprios deuses conspirassem a favor de Casa Grande?

Quando destaca a entrega dos seus atores, Fellipe Barbosa não deixa de dedicar uma atenção especial a Clarissa Pinheiro, que faz Rita. “Já conhecia a Clarissa como minha aluna no curso de cinema da Escola Darcy Ribeiro. Ela me deu a personagem, que nem existia inicialmente. Só bem mais tarde, quando já tinha feito várias versões do roteiro, senti a necessidade de criar essa empregada para realçar o poder aquisitivo da família. Me inspirei numa história que aconteceu no condomínio em que morei, mas a personagem veio mesmo da Clarissa, de algumas improvisações que fizemos sem usar roteiro. Gosto muito da voz dela, acho incrível.”

Sotaque. A própria Clarissa, no Festival do Rio, já havia falado sobre Rita como aquela pessoa com quem o garoto – Jean – pode experimentar ‘certas coisas’. E disse: “Não é a mesma coisa da velha casa grande e da senzala, lá do livro de Gilberto Freyre, a forma como o senhor usava sua escrava. Existe um fetiche que vem do outro lado, também, mas é claro que não estou fechando os olhos para certos detalhes dessa relação”. Suas cenas com Thales Cavalcanti, que faz Jean, possuem uma pegada muito intensa, fruto da química criada entre os dois durante os exercícios propostos pelo diretor. O fato de ser nordestina e a personagem ter sotaque ajudou – “Me senti mais à vontade”.

Um aspecto não negligenciável dessa obra tão marcante – o melhor filme brasileiro do ano? – está no fato de ter sido produzida pela Migdal da produtora Iafa Britz. Ela é a mulher por trás de filmes com vocação popular como o espírita Nosso Lar e a comédia Minha Mãe É Uma Peça, com Paulo Gustavo. Iafa derrapou na curva com Irmã Dulce, mas não porque o filme fosse ruim. Foi o velho problema de levar o público aos cinemas. Num perfil mais seletivo, ela acertou com o documentário sobre Cássia Eller. E agora vem para o segmento “de arte” sem deixar de dialogar com o público. Casa Grande é imenso. Mais que dar ao filme uma chance, dê a você a chance de ver um filme brasileiro para ficar na história. 

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