Cartunista francês dá a sua versão do Rio de Janeiro

Depois de Rugendas, Debret, Pink e Frans Post, um novo estrangeiro veio ao Brasil com a incumbência de retratar a terra e os tipos humanos do lado de cá. Desta vez, no entanto, no lugar daqueles artistas europeus afetados e maneiristas, veio um ex-punk magricela, compridão, com mullets antiquados no cabelo, que fuma cigarros sem a menor pressa e cresceu sob a influência dos quadrinhos iconoclastas de Robert Crumb e Gilbert Shelton. Trata-se do cartunista francês Jean le Guay, mais conhecido como Jano, que foi convidado para fazer um álbum de desenhos com o Rio de Janeiro como tema. O álbum, Rio de Jano, desdobrou-se num documentário com o mesmo nome, que chega às telas hoje. Dirigido por três admiradores do trabalho do francês, Anna Azevedo, Eduardo Souza Lima (aka Zé José) e Renata Baldi, o filme mostra Jano em peregrinação por lugares como Copacabana, Madureira, o estádio do Maracanã, os Arcos da Lapa, a ilha de Paquetá, a Praça 15, a Floresta da Tijuca, o bondinho de Santa Tereza."Você tem certeza que conhece a alma carioca melhor que este gringo?", desafia a peça publicitária do filme. Quando vemos as imagens e conhecemos Jano, no entanto, essa quase arrogância do slogan desaba por terra, porque Jano mostra que não tem a mínima intenção de conhecer a fundo a alma carioca. Ele é extremamente humilde, e é desse seu "só sei que nada sei" que nascem as pequenas maravilhas que são os quadros de Rio de Jano, um olhar agudo - e sem vícios - sobre os hábitos, sobre as circunstâncias, sobre o acaso, sobre a geografia. Jano - que desenha seres humanos com corpo de gente e faces e características de animais - viu os traficantes armados ("Como nos filmes americanos", ele ressalta) nos "portões" da Rocinha, viu o lixo na praia de Botafogo, viu a camisa do Flamengo em cada esquina e procurou o que havia além disso. Viu o clichê do samba e a barbárie da prostituição. Viu o carioca explorado, pedindo ao turista a lata de alumínio do refrigerante antes mesmo que ele acabasse de tomá-lo. Viu o garçom cansado, sem perspectiva, mas ainda assim eficiente em meio à multidão de turistas, com a sua bandeja de chope.Mas viu também uma fibra, uma alegria e uma coragem que sobrevivem à revelia dos problemas e da pobreza. E relatou isso sem resvalar para a pieguice, sem referendar que "o carioca blablablá é antes de tudo um forte blablablá". Jano, mal comparando, é uma espécie de Mauricio de Sousa dos franceses, só que dark, junkie, insolente. Ok, mais para Angeli do que para Mauricio. Ele veio ao Brasil para iniciar o projeto a convite da editora Casa 21, que também convidou o espanhol Miguelanxo Prado para desenhar Belo Horizonte. A série é intitulada Cadernos de Viagem. Jano credenciou-se a iniciar a série por um motivo cristalino: ele já tinha redescoberto a cidade mais vista do mundo, Paris (sua cidade natal), num álbum magnífico da Albin Michel, Paname, publicado em 1997.

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