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'Carnívora' é suspense psicológico dos irmãos Renier

Jérémie e Yannick falam sobre a ‘loucura’ de filmar a fraternidade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2018 | 06h00

Yannick Renier provoca o irmão. “Eu sou ator, ele (Jérémie) é astro.” Jérémie Renier retruca – “Deixa ele falar. Meu currículo com diretores autorais (os Irmãos Dardenne, principalmente) me dá toda tranquilidade quanto a minhas escolhas.” Irmãos, e belgas, os Renier vieram ao Brasil, em junho, no Festival Varilux, para promover seu longa de estreia na direção. Carnívoras estreou na quinta, 13. Conta a história de irmãs letais. Carnívoras, no plural. Ou seja, de certo ninguém é normal. Justamente o S final pode ir preparando o público para o fato de que o longa tem reviravoltas.

Tem também camadas. Irmãos fazendo filme sobre fraternidade? “Há tempos que a gente vinha amadurecendo o desejo de dirigir. Eu queria, Jérémie queria. Mas não planejamos que seria desse jeito, com esse tipo de filme. Aconteceu, e estamos felizes”, avalia Yannick. Carnívoras tem defeitos, e qualidades. A história cria tensão, as atrizes são formidáveis. O desfecho, porém, é um tanto previsível e enfraquece o resultado. Enfraquece? “O que é fraqueza para você outros jornalistas viram como a força do filme”, agora Yannick provoca o repórter.

Os irmãos Renier passaram por São Paulo, mas conversaram com o repórter no Rio. Trouxeram a atriz Zikta Hanrot. Ela sabia qual seria o desfecho? “Com toda certeza. Trabalhamos na maior transparência. Não só as atrizes, nossos técnicos também sabiam como a história ia terminar. Era importante para que o filme pudesse ter camadas”, avalia Jérémie. Leila Bekhti e Zita Hanrot interpretam as irmãs, Mona e Samia. Na ficção de Carnívoras, Mona quer ser atriz, mas quem já é famosa é a irmã. Disputada pelos diretores, feliz no casamento, mãe. Apesar desse sucesso indiscutível, Samia nunca está muito satisfeita. Quando desaparece, a irmã começa a ocupar o espaço que era dela. O que está ocorrendo?

Os Renier trabalham no registro do suspense psicológico. “Leila faz uma personagem que, no fundo, é mais opaca, por isso lhe pedíamos que criasse alguma ambivalência, para deixar o público de sobreaviso de que alguma coisa grave poderá ocorrer no final.”, disse Jérémie. Ele gostou de trabalhar nesse registro do cinema de gênero. “Com Jean-Pierre e Luc (Dardenne), o registro é naturalista e toda preocupação fica com o humano e o social. Gosto do cinema que eles fazem, seria absurdo não reconhecer quanto lhes devo. Me deram papéis pelos quais sou grato. Acho bom quando o cinema faz a gente pensar. Todas essas questões políticas que estão no ar... Mas o cinema não é só isso. Pode também divertir, e é o nosso filme.”

Yannick de alguma forma contradiz o irmão. “Estamos vivendo um momento muito grave de crise na Europa. Toda essa questão de refugiados, de migrantes. Não creio que se possa brincar com isso, mesmo na ficção. O momento exige comprometimento, mas, no meu caso, sinto-me mais à vontade para tratar dessas coisas no teatro. A literatura também vem em nosso socorro. Acho que as ideias não precisam ser colocadas muito frontalmente. É melhor que venham através da trama, das personagens. Dessa maneira, tudo fica mais consistente.” Durante a realização e a montagem, havia momentos em que Yannick se questionava sobre o que estava fazendo. “Me perguntava se ia conseguir sobreviver a essa loucura de fazer um filme sobre fraternidade com meu irmão. Mesmo quando a gente não quer, as questões pessoais afloram. De repente, as irmãs éramos nós.”

Jérémie concorda, em parte. “Hoje, com um pouco de distanciamento, acho que o que ajudou foi ter feito esse filme com o Yannick. A gente discutia muito a questão do sangue, do elo a nos unir na vida e a uni-las na ficção.” Impossível não pensar em obras cultuadas como Irmãs Diabólicas, de Brian De Palmas, ou Gêmeos – Mórbida Semelhança, de David Cronenberg. “Você está falando de grandes diretores, que têm uma obra consolidada. Nós somos principiantes. Tomamos gosto, eu tomei, mas nada garante que vamos continuar filmando juntos nem mesmo se vamos prosseguir carreira como diretores solo. Mas que foi estimulante, foi. Dirigir é brincar de Deus. Decidir sobre a vida, as personagens. E na vida não tem segundo take. Na ficção, sim, você pode tentar aprimorar a cena”, finaliza Yannick Renier.

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