REUTERS/Gustau Nacarino
REUTERS/Gustau Nacarino

Carlos Saura: ‘A televisão está destruindo tudo’

O diretor de ‘Cria Corvos’, aos 85 anos, critica em Nova York a homogeneização temática imposta pelas redes

Helen Cook, EFE

26 de junho de 2017 | 03h00

Após mais de seis décadas de trajetória no mundo do cinema, Carlos Saura responsabiliza a telinha por boa parte dos males que atingem o panorama cultural espanhol e, concretamente, a sétima arte. “O mundo da televisão está destruindo tudo, banalizando tudo de maneira brutal”, afirmou o diretor na sede do Instituto Cervantes de Nova York, onde recebeu uma homenagem por sua longa e frutuosa carreira. 

Saura, considerado um dos mais importantes diretores da história do cinema espanhol, afirmou que a televisão decide hoje quais filmes devem e quais não devem ser produzidos, geralmente, longas com argumentos superficiais e repetitivos que não levam o espectador a pensar. 

“O cinema espanhol baixou de qualidade por uma razão muito simples: não se pode mais fazer um filme se não houver contrato prévio com a televisão”, afirmou. Segundo o diretor, o setor televisivo defende “o cinema de costumes que sempre fez: rapaz apaixonado por moça, mãe que tem problema com não sei quem. São histórias monotemáticas das quais se fizeram 2 milhões de filmes.” 

Saura denunciou que as grandes empresas privadas de TV exercem um tipo de censura sobre o que se exibe nas salas de cinema, já que, por exemplo, investem em produções com os mesmos atores que trabalham nas séries televisivas. “É uma espécie de controle e censura que antes não havia e depende muito da televisão.” 

Saura, que dirigiu mais de 40 longas, criticou ainda a pouca importância que as instituições e meios de comunicação dão à cultura na Espanha – uma cultura que, por sua vez, não se defende nem se promove. “Um problema grave em nosso país é a falta de informação cultural em muitos meios e a pouca atenção dada pelos políticos à cultura em geral”, afirmou. 

O cineasta lembrou que a Espanha é conhecida pelo trabalho de artistas do porte de Picasso, Gaudí, Velázquez e cobrou do governo que incremente a promoção das artes. “Enquanto os governantes não se derem conta de que a cultura não é uma coisa engraçada, que serve para entreter os desocupados, como acham alguns, não há nada a fazer”, insistiu. 

Saura elogiou a revolução tecnológica, que permitiu mais acesso do cidadão comum aos instrumentos necessários para se criar obras audiovisuais de qualidade, mas apontou os inconvenientes que isso traz. “Hoje existe massificação em tudo. Numa livraria há uma oferta de 4 mil romances. No cinema é a mesma coisa – encontram-se 8 mil filmes. E por aí vai.” 

O diretor de filmes como A Caça ou Cria Corvos falou sobre seus novos projetos, como um documentário musical, na mesma linha de Jota: Para Além do Flamenco. As filmagens começarão no próximo ano, com Saura viajando para o México. 

Ele falou ainda do planejado longa 33 Dias, no qual pretende contar o período que Picasso levou para criar Guernica, com Antonio Banderas. “É um projeto atualizado todo mês. Tenho duas propostas para fazer o filme, mas ainda não decidi.” 

Enquanto isso, Carlos Saura, de 85 anos, disse que não tem intenção de encerrar a carreira. “Por que parar, se gosto de trabalhar? Desenho, pinto, escrevo, ouço música e, de vez em quando, faço um filme. Tenho a sorte de poder fazer o que quero e vou continuar fazendo.”

Tradução de Roberto Muniz

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