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Carlitos, a criatura de Chaplin, tornou-se parte do imaginário coletivo da humanidade

A construção de um personagem sempre presente entre nós; musical sobre o cineasta estreia no dia 14 de maio em São Paulo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2015 | 03h00

De vez em quando redescobrimos Chaplin. Uma efeméride, mais um relançamento de suas obras, uma nova biografia, agora uma peça de teatro – e ei-lo de volta. Na verdade, seu personagem maior, Carlitos, o Vagabundo, é de tal modo entranhado em nossa cultura, que “esquecê-lo” é admitir sua presença permanente entre nós. 

De tal forma sua presença é natural que omitimos o fato de que é humana criação, que um dia um homem de talento inventou. É preciso refazer esses passos, trajetória na qual se mesclam fatos e lendas. Making a Living (Carlitos Repórter, 1914) é tido como o surgimento do personagem. Mas isso é falso. Há, no máximo, um “proto-Carlitos” nessa história na qual Chaplin faz uma espécie de aventureiro que deseja ingressar no mundo do jornalismo e emprega todos os expedientes para isso. A indumentária não é a característica e mesmo o bigodinho é escorrido, diferente daquele que, dizem, inspirou Hitler quando este cultivou seu moustache ameaçador. No filme aqui conhecido como Carlitos no Hotel, a indumentária é parecida com aquela que o consagrou. O personagem é um bêbado incômodo, que perturba hóspedes e corteja as mulheres de forma despudorada.

Apenas em O Vagabundo (1916) os traços se tornam definitivos, surgindo então o “design Carlitos” em sua forma ideal. Não apenas traços físicos e de vestuário, mas uma atitude peculiar diante da vida, somatório que iria consagrá-lo e firmá-lo no imaginário mundial através de gerações. Toda sua obra posterior, inclusive as obras-primas como Em Busca do Ouro, Tempos Modernos, O Garoto, Luzes da Cidade e outras, pode ser entendida como decorrência do encontro desta “boa forma”. 

Diz a sua biógrafa Joyce Milton (Contraditório Vagabundo, Ática, 1996) que a construção do personagem se deu de maneira progressiva, por depuração de sua experiência cômica e incorporação de características por ensaio e erro. 

No entanto, um parceiro de Chaplin, o comediante Chester Conklin, relata que Carlitos nasceu pronto, de insight advindo em momento de desespero. Chaplin estava desanimado com seu início de carreira nos Estados Unidos e ruminava seu destino. No camarim, reclamava do ritmo muito rápido dos americanos e que jamais conseguiria fazer sucesso naquele meio. De súbito, teve uma inspiração. Pediu emprestado um par de calças que estava pendurado num cabide e era muitos números acima do seu. Vestiu uma casaca que, ao contrário das calças, era apertada demais. Achou um bigode postiço, recortou-o em forma quadrada e colocou-o. Um chapéu coco e uma bengala estavam ao alcance e foram incorporados. Vestiu um par de sapatos muito grandes para seus pés e passou a andar com as pontas viradas para fora, como pato. A esta altura, os companheiros haviam deixado o jogo de cartas com o qual se distraíam e não paravam de rir. Nascia o personagem. 

De uma vez, ou aos poucos, estava aí criada a imagem icônica do maltrapilho digno, que vive de expedientes, passa fome, mas não perde a pose. Nem a bondade do coração. Em meio à aspereza da vida, Carlitos conserva intacta sua reserva de ternura. Nos primeiros filmes, o antecessor de Carlitos era um tanto malévolo. Agora, ele podia ser protetor com as crianças ou apaixonado por mulheres cegas, ao mesmo tempo em que é perseguido pelas figuras do poder – policiais, donos de estabelecimentos, banqueiros. O novo Carlitos se define tanto por uma ética como por uma estética. Ambas interligadas. 

Sem proselitismo, Carlitos empunha também uma bandeira política, pelos fracos contra os fortes. Na única vez em que literalmente brande uma bandeira (em Tempos Modernos) o faz por engano e vai parar na prisão como líder da insurreição da qual ele nem mesmo suspeita. Sua ação é individual. E baseada na astúcia, que emprega para mal e mal sobreviver e se contrapor aos poderosos deste mundo. Como diz Nossa Senhora na defesa de João Grilo, em O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna: “A esperteza é a coragem do pobre”. O nosso João Grilo é um dos avatares de Carlitos, um dos muitos que a genial invenção de Chaplin inspirou. 

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