Carla Camurati decifra o mistério de Irma Vap

Durante dez anos foi a mesmaloucura. Noite após noite, um batalhão de técnicos estava semprea postos nos bastidores de O Mistério de Irma Vap. O mistério dotítulo não era nada. Mistério mesmo era colocar no palco a peça.Se você viu, sabe do que estamos falando. Havia apenas doisatores, Marco Nanini e Ney Latorraca. Mudavam de roupa e até desexo em cena. E tudo ocorria rapidamente, em questão desegundos. Às vezes Nanini, como lorde Edgar e lady Enid, chegavaa ocupar a mesma cena. Como se fazia aquilo? Os bastidores de OMistério de Irma Vap ficaram tão famosos que deram filme.Em 1990, três anos após estrear no curta (em 1987) com A MulherFatal Encontra o Homem Ideal, Carla Camurati fez outro curta,sugestivamente chamado Bastidores. O tema era o mistério nosbastidores de Irma Vap, a peça de Charles Ludlan dirigida porMarília Pêra e na qual Latorraca e Nanini interpretavam oitopersonagens, mudando de roupa 54 vezes durante 90 minutos deespetáculo. A peça já era um fenômeno, estava em cartaz desde1986.A novidade, agora, é que a própria Carla vai adaptar O Mistériode Irma Vap para o cinema. Nanini e Latorraca, claro, estão comela no projeto. O trio lançou oficialmente o projeto de Irma Vap, o filme, na sexta-feira, no Rio. A produção será da CopacabanaFilmes, a empresa de Carla. Ela pretende começar a rodar emnovembro do ano que vem, para lançamento em 2003. Em janeiro, jácomeça a trabalhar com provas de roupas, de maquiagem, com aprocura de locações. Quer rodar as externas num castelo deverdade.Carla já tem parceiros no projeto: a BR Distribuidora e a BrasilTelecom. Nem é ela quem responde, mas sua sócia na Copacabana,Bianca De Felippes. "O filme vai custar R$ 3 milhões e pouco;Carla é uma diretora econômica, que não gasta muito; fizemosCopacabana com R$ 2,7 milhões; Irma Vap poderia custar o mesmo,mas vamos calcular um pouco mais porque começamos a filmar só nofim do ano que vem e ninguém sabe como vai estar o dólar atélá." O filme é um operação arriscada, Carla sabe disso. É, nofundo, o que a motiva. Adaptar um grande êxito é sempre arriscado. As pessoasdesenvolvem uma expectativa muitas vezes exagerada. E há o fatoinegável de que Irma Vap pode ser um fenômeno na história doteatro no País, mas não é, com certeza, nenhum clássico. Oespetáculo era divertido, de fácil comunicação com o público -se não o fosse não teria ficado dez anos em cartaz -, masninguém seria louco de dizer que a peça de Charles Ludlan éexcelente. Não é mesmo e isso aumenta o risco. Aquelecorre-corre, aquelas trucagens todas, de trocas de cenários e deroupas, a ironia das falas, as brincadeiras com os códigos doteatro e do cinema podiam ser hilariantes no palco, mas na telao espaço e o tempo são outros. Os próprios atores vão ter derepensar os personagens que criaram durante uma década. "Vouter de fazer uma lady Enid menos exagerada", anuncia Nanini.Não será a menor das mudanças.Semente fértil - Há 11 anos, quando fez Bastidores, Carla nãopensava que um dia fosse fazer a adaptação da peça. A idéia lheveio quando rodava Copacabana, com Nanini no papel do velho quefazia o inventário de sua vida para que ela pudesse contar ahistória do bairro famoso. O filme é lindo. Delicado, sensível,com um clima muitas vezes felliniano pela qualidade especial daestrutura audiovisual armada pela diretora. Nos intervalos defilmagem, Carla e Nanini, claro, conversavam. Irma Vap entroumuitas vezes como tema dessas conversas. E a idéia, feito umasementinha, começou a germinar o terreno fértil da imaginação deCarla.Por que não fazer uma adaptação para cinema? Nanini vacilou umpouco, mas o talvez logo virou sim. Depois de dois filmes comCarla - Carlota Joaquina, Princesa do Brasil e Copacabana -, elejá tem uma relação de cumplicidade com a diretora. Sabe doquanto ela é capaz. A própria Carla se encarregou de cooptar Latorraca. Nem precisoufazer esforço. "Aceitei na hora", conta o ator, que fez comCarla o primeiro curta da diretora, A Mulher Fatal. Faz tempoque Latorraca anda afastado do cinema. "Mas não é por falta deconvites", ele diz. "Foi por opção, queria dar um tempo, direcionar minha vida paraoutros projetos." Com Irma Vap, ele volta aos filmes, retomandoa carreira cinematográfica que produziu tantos frutos nos anos80, principalmente, quando fez os filmes de Ana Carolina (DasTripas Coração), Walter Lima Jr. (Ele, o Boto) e Ruy Guerra (AÓpera do Malandro e A Bela Palomera).Reinvenção - Latorraca concorda com Nanini. Eles não vão,simplesmente, recriar na tela seus papéis no palco. Com osrecursos que o cinema oferece - proximidade de câmera, cortes,efeitos -, as interpretações poderão ser menos exuberantes,embora dificilmente venham a ser naturalistas. Quem antecipaisso é a propria Carla, ao definir o conceito de Irma Vap, ofilme. "Quero desenvolver uma linguagem de quadrinhos, brincarmuito com os códigos do cinema policial, seja de suspense oumistério." Alfred Hitchcock, claro, vai dar o ar da graça.Rebecca, a Mulher Inesquecível, o único filme do mestre a ganharo Oscar - mas ele não recebeu a estatueta de melhor diretordaquele ano, 1940, que foi para o John Ford de Vinhas da Ira -,é uma forte referência no texto de Ludlan.Por que Irma Vap em filme? Carla talvez surpreenda um pouco aodizer que a peça é uma grande brincadeira - e o filme tambémserá -, mas ela discorda que o texto de Ludlan seja umbesteirol. Adora a história, adora os personagens. Na peça, sãoarquétipos para o trabalho de atores transformistas, que não têmmedo de assumir o travesti e ser homens e mulheres ao mesmotempo, em cena. O filme terá, de novo, só Latorraca e Naninicomo intérpretes, mas Carla, que trabalha no roteiro, estádesenvolvendo personagens e situações que eram apenas referidosna peça. Imagina uma bela cena de casamento para lorde Edgar elady Enid, interpretados pelo mesmo ator, Nanini.Na história, lorde Edgar mora no seu castelo com dois criadosfiéis. Na casa ainda se respira o mistério de Irma Vap, a mulherdo lorde, que morreu. A noiva do aristocrata, lady Enid, estápara chegar. E há a criada que era a confidente de Irma. Nototal, são oito personagens, interpretados pelos mesmos atores,num show de versatilidade e virtuosismo. "Gosto dessa coisa demáscaras, acho que a unidade do meu cinema passa aí", contaCarla. E ela gosta da idéia do teatro como metáfora da vida,mesmo no cinema. "Meus filmes são sempre teatrais, é umacaracterística que carrego e não tento esconder; faço questão dedestacar." Vai destacar em Irma Vap. Aguarde: nas telas, em2003.

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