Divulgação
Divulgação

Carismático, 'As férias do Pequeno Nicolau' chega aos cinemas

Pequeno vai viver muitas aventuras com os amigos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 19h46

Pode até ser cruel, reconhece o diretor Laurent Tirard, mas quatro anos após o sucesso planetário de O Pequeno Nicolau, que ele adaptou das bandes dessinées (comics) de René Goscinny e Jean-Jacques Sempé, o eterno menino está de volta e, claro, com outro ator. Sai Maxime Godart e entra Mathéo Boisselier, porque a essência do Petit Nicolas é ser sempre aprendiz aos olhos do público, adultos e crianças que o desfrutam (consomem?) desde que surgiu nas tiras, em 1956. O novo Nicolau é ainda mais imaginativo e o filme em cartaz consegue ser até melhor que o anterior, mas algo se passou e os números de público encolheram, como Tirard tenta explicar numa entrevista por telefone.

O Pequeno Nicolau fez mais de 6 milhões de espectadores na França e o dobro disso no mundo. Havia o sabor da novidade, de ver o herói de Goscinny ser interpretado por um garoto de verdade. Para As Férias do Pequeno Nicolau, o desafio era, em parte, fazer com que o público se esquecesse do intérprete anterior e aceitasse o novo ator que faz o papel. Mas havia um outro desafio, maior ainda. Na França, há muita resistência da intelectualidade a aceitar qualquer manifestação que veja com delicadeza o período anterior a Maio de 68. Mais que 1789, Maio foi, no imaginário de intelectuais, a verdadeira revolução, mesmo que, no fundo, tenha sido um projeto. Essa maneira idealizada de encarar o passado não cai bem.”

O repórter levanta a possibilidade de ter sido outra coisa. Afinal, quando As Férias do Pequeno Nicolau chegou aos cinemas, Cannes e a televisão já haviam celebrado o fenômeno francês do ano. Quem poderia imaginar que Bruno Dumont, autor de filmes torturados como Flandres, A Humanidade e Camille Claudel, iria fazer uma comédia, e com crianças, e que Le P’tit Quinquin iria estourar na TV e arregimentar a crítica nos cinemas? Para Cahiers du Cinéma, foi o filme do ano. Na trama de Dumont, o policial Van der Weyde e seu parceiro Carpentier investigam o mistério de uma vaca morta. A investigação é acompanhada por crianças lideradas por Quinquin e sua namoradinha. São os terrores da pequena cidade, vivem aprontando. Quinquin é o anti-Nicolau. Quem sabe se foi por causa do sucesso do P’tit Quinquin, que o Petit Nicolas viu seu público encolher pela metade - 3 milhões - na França?

 

Tirard não acredita, e lamenta. Confessa que se empenhou muito mais no novo filme. E se O Pequeno Nicolau já bebia na fonte de Meu Tio, de Jacques Tati, o diretor conta agora que, de volta a Tati, a fonte não poderia ser outra que não As Férias de M. Hulot. “Hulot é um pouco uma criança num corpo de adulto, Nicolau talvez seja o inverso. No primeiro filme havia a escola, a cidade, tudo remetia a Meu Tio, queria mudar. Férias, praia. Não poderia fugir de Les Vacances de M. Hulot, com o acréscimo da cor.” Para o diretor, a cor é fundamental. “Desde Goscinny, Nicolau é indissociável do vermelho - o rouge Nicolas.” Hulot é o herói solitário, que se multiplica ou entra em choque com a multidão. Nicolau vive em grupo - na escola, na praia. “Formatar o elenco infantil foi difícil, mas prazeroso. Até por eles, gostaria que o sucesso tivesse sido maior.”

Cinco livros para dar conta das peraltices do guri

René Goscinny (1926-1977) foi um dos mais imaginativos criadores de HQs da França - e do mundo. Criou Le Petit Nicolas, o Pequeno Nicolau, ilustrado por Jean-Jacques Sempé. Entre 1956 e 64, as tiras deram origem a 5 livros cultuados: O Pequeno Nicolau, As Férias do Pequeno Nicolau, Novas Aventuras do Pequeno Nicolau, O Pequeno Nicolau e Seus Colegas e O Pequeno Nicolau no Recreio. Depois, surgiram novos volumes, como O Natal do Pequeno Nicolau, que saiu no Brasil em 2011. Todos veem o mundo pelos olhos do garoto peralta que não consegue entender os adultos. Ele vive aprontando e, quando os pais brigam com ele, chora. A universalidade do personagem ficou provada com o sucesso das tiras, dos livros e filmes.

ENTREVISTA - Mathéo Boisselier, ator

'Ele é todos nós, os meninos da França e do mundo'

Foram mais de 800 meninos testados para substituir Maxime Godart como o Pequeno Nicolau, no segundo filme da franquia adaptada das tiras de René Goscinny. Na entrevista por telefone, o diretor Laurent Tirard disse que Mathéo Boisselier fez o melhor teste e se impôs de saída. O próprio Mathéo conta como foi a sua experiência.

Quantos anos você tinha e como foi selecionado para o papel de Nicolau?

Tinha 9 anos quando meus pais viram o anúncio e perguntaram se eu queria participar. Achei que poderia ser divertido, e foi, mas confesso que só essa vez já foi suficiente. Não quero ser ator. As traquinagens do personagem não têm nada a ver com o processo de fazer um filme. É muito aborrecido filmar várias vezes a mesma cena. Na tela, a gente não vê.

Mas você virou uma celebridade perante seus colegas, não?

Ninguém se impressionou muito, é a verdade, talvez porque nem eu nem meus pais achamos nada demais. Foi bacana, mas chega.

Você já conhecia o personagem, claro. E o primeiro filme?

Vi o primeiro filme só depois de ser selecionado, mas o personagem eu conhecia. Nicolau somos todos nós, os meninos da França e do mundo. Nicolau é naturalmente encrenqueiro e não entende as reações dos adultos a suas parvoíces. Repreendido, chora. É fácil se identificar com ele.

E você também é chorão?

Essa foi a parte menos legal. Achava muito chato.

E como foi trabalhar com Kad Merad e Valérie Lemercier, que fazem os pais?

Foram bem gentis, tinham paciência quando eu errava e a gente ria muito quando tinham de brigar comigo (na ficção).

Série de Goscinny e Sempé tem 5 livros. Algum preferido?

Gosto muito de Nicolau e Seus Colegas e de O Pequeno Nicolau no Recreio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.