Wilson Webb|Bleecker street|Divulgação
Wilson Webb|Bleecker street|Divulgação

'Capitão Fantástico' ironiza a sociedade de consumo

Longa estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 22

Luiz Carlos Merten, Impresso

22 Dezembro 2016 | 05h00

Nas sucessivas entrevistas que deu no Festival de Cannes, em maio – na TV Festival e na apresentação de seu filme na seção Un Certain Regard/Um Certo Olhar –, Matt Ross explicou sempre a gênese de Capitão Fantástico. “Esse filme começou a nascer quando me tornei pai. Todo pai quer sempre o melhor para seus filhos. Eu também queria para os meus. Mas aí comecei a pensar – e se o melhor que acho não for o melhor para eles?” Capitão Fantástico terminou ganhando o prêmio de direção de Um Certo Olhar, atribuído pelo júri presidido por Isabella Rossellini. Na hora da premiação, Isabella lembrou-se do pai, o grande Roberto Rossellini. “Ele teve tantos filhos. Preocupava-se sempre em nos dar a melhor formação, o melhor exemplo. Creio que teria gostado desse filme.”

Capitão Fantástico estreia nesta quinta, 22. Além do prêmio de direção de Um Certo Olhar, chega credenciado pela indicação que Viggo Mortensen obteve para melhor ator de drama, no Globo de Ouro. Mortensen, o Aragorn da trilogia O Senhor dos Anéis, havia sido indicado anteriormente para melhor coadjuvante de drama, por Um Método Perigoso, de David Cronenberg. Seu nome aparece em todas as listas possíveis para o Oscar. O curioso é que também já foi indicado antes para o prêmio da Academia, e por outro filme de Cronenberg, Senhores do Crime. Em Capitão Fantástico, Mortensen é Ben Cash, que abre mão de uma carreira para se consagrar à criação dos numerosos filhos. Antiestablishment, Ben cria os filhos em contato com a natureza. Todos desenvolvem suas aptidões, e não é apenas uma coisa física. Também aprendem a argumentar, falam numerosas línguas. A grande diferença é que, vivendo em condições tão primitivas, no mato, não se integraram à sociedade do consumo.

Suas necessidades são outras, nascidas do embate diário com o “mundo real”. Quando as circunstâncias fazem com que a família precise voltar à civilização, o choque é inevitável. Para o jovem que vive conectado 24 horas nas redes sociais, os personagens de Capitão Fantástico são verdadeiros aliens. O diretor, aliás, contou coisas divertidas sobre a escolha de seu elenco jovem. “Eu me dei conta de que procurava mesmo por aliens. Queria garotos e garotas com boa preparação física, com facilidade para aprender línguas e também para argumentar, e ainda queria que fossem não profissionais, mas desinibidos perante a câmera.”

Quem é Matt Ross? Embora tenha estreado na direção, em 2012, com 28 Hotel Rooms, ele é mais conhecido como ator, tendo aparecido em A Outra Face, de John Woo, e O Aviador, de Martin Scorsese. Não se pode negar que tem ambição – Capitão Fantástico possui alguma possibilidade de aproximação com um livro clássico que virou filme, O Senhor das Moscas. Ross segue o caminho aparentemente mais difícil – diz que o desafio do cinemas é apresentar ideias por meio de ação, e é o que tenta fazer. O tipo de humor que ele apresenta no filme é representado pelo fato de os Cash não celebrarem Natal nem ano novo. Sua principal comemoração é um dia dedicado a Noam Chomsky, o linguista, filósofo, cientista cognitivo e ativista político reverenciado no meio acadêmico como pai da linguística moderna. No palco da Sala Debussy, durante a cerimônia de premiação, Ross agradeceu a Viggo Mortensen, dizendo que, sem ele, o filme não teria sido possível.

Não falava apenas no aspecto econômico, mas no que significava ter um ator como ele, que trafega com desenvoltura entre o cinemão e a produção independente. Matt Ross disse que, ao fechar com Mortensen, ficou de lhe mandar alguns livros-cabeça, de filosofia e sociologia, que gostaria que lesse, como preparação. Mortensen brincou que só mandasse a lista, porque muito provavelmente teria os livros, e os teria lido, como efetivamente ocorreu. Filho de um administrador de fazendas dinamarquês e de uma norte-americana inquieta, Viggo teve uma infância e adolescência itinerantes, rodando o mundo. Viveu dez anos na Argentina, onde aprendeu espanhol e adquiriu o hábito do mate. Esse pai meio hippie de Capitão Fantástico lhe serve como uma luva. “Adoro diretores que me propõem o que ainda não fiz”, gosta de dizer Viggo Mortensen. “Ficar repetindo papéis e personagens é muito chato.”

 

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