'Capitão América 2' traz a melhor atuação em um fime da Marvel

Longa aborda o tempo perdido e encontrado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2014 | 18h50

Há um momento breve em ‘Capitão América 2’. Em companhia da Viúva Negra, Steve Rogers vai ao acampamento em que tudo começou. Foi nesse espaço que o garoto franzino moldou seu físico e a mente para virar o ‘Cap’. E ele vê passar como aquele garoto. Trocam um olhar. Alain Resnais – o tempo reencontrado. Na entrevista que deu ao ‘Estado’, em Los Angeles, o produtor Kevin Feige disse que a cenas já estava no roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely, mas agradou aos irmãos Anthony e Joe Russo, que assinam a direção.

‘Capitão América 2 – O Soldado Invernal’ é sobre o tempo, perdido e encontrado. Sobre a quebra de confiança e a amizade. São temas que correm por veios subterrâneos enquanto, no primeiro plano, a história fala dos planos de um maluco para dominar o mundo, instituindo um sistema de segurança que vai matar 20 milhões de pessoas, mas o que significa isso se bilhões estarão vivendo ordeiramente, seguindo os planos do ditador em potencial?

Já tem gente dizendo que ‘Capitão América 2’ é o melhor filme da história da Marvel, o que pode ser um exagero, mas nem tanto. Existem os efeitos, a ação, a pancadaria, mas existe uma trama intimista e apaixonante. São momentos em que nada acontece. Nada? Steve Rogers, em crise de identidade, vai ao museu que conta sua história. Assim como mais tarde vai se olhar, como num espelho, lembrando o garoto que foi, ele olha para um menino que o identifica como o herói. De que cepa são feitos os heróis? No museu, ele reencontra outras imagens do seu passado e viaja na lembrança. Reconstitui o momento com a mulher amada e o tempo que passou para ela ficou congelado para ele. Reencontra o amigo, Bucky Barnes, que supostamente morreu na guerra.

Se a quebra de confiança é um tema importante em ‘Cap 2’, justificando a filiação do filme aos grandes thrillers paranoicos dos anos 1970, o tema, o verdadeiro tema é a amizade – perdida e reencontrada. O que dizem os amigos lá atrás, no passado, vai determinar a conduta de ambos, que se reencontram em campos opostos e o Soldado Invernal é o oposto – a Nêmesis, o íncubo – de Steve Rogers. A pergunta que não quer calar – é possível se emocionar com filmes grandes e barulhentos como esse? Ou será que a emoção só pode fluir em filmes pequenos e realistas? Essa pergunta passa por outra, ou remete a outra – o que é o cinema? O cinema nunca é uma coisa só, por mais camisa de força e fórmulas que lhe tentem aplicar. A trama de amizade é dolorosa em ‘Capitão América 2’. Sustenta-se na tela na magnífica interpretação de Sebastian Stan. Um dia Hollywood talvez perceba que super-heróis, e seus opostos, também merecem o Oscar.

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