Sebastien Nogier/ EFE
Sebastien Nogier/ EFE

Cannes: Farhadi faz tenso acerto de contas com o passado

Iraniano põe em 'Le Passé' um grau inimaginável de tensão, também forte em 'L’Inconu du Lac', de Alain Guiraudie

17 de maio de 2013 | 18h22

CANNES - Havia grande expectativa pelo novo filme de Asghar Farhadi. Afinal, em dois filmes – Procurando Elly e A Separação –, o diretor iraniano saltou do Urso de Prata para o de Ouro e o Oscar de filme estrangeiro. O que esperar do terceiro – a Palma, posto que estamos em Cannes? O começo de Le Passé, O Passado, até que sustenta a expectativa, mas ela vai se dissipando à medida que a narrativa avança. Farhadi filma bem, faz observações pertinentes sobre a natureza humana. Mas à força de querer ser denso, ele abre cada vez mais seu relato. Mais, às vezes, significa menos. Um pouco mais de concentração teria sido positivo para o filme.

Na abertura de O Passado, a mulher busca o marido no aeroporto. Bérénice Bejo substitui Marion Cotillard, a primeira escolha de Farhadi, mas, como ela engravidou, não pôde fazer a personagem. Bérénice leva o ex-marido para a casa em que vive com o atual namorado. O ex veio para assinar o divórcio. Gostaria de ter ficado num hotel, mas Bérénice o alojou em casa. As tensões explodem, e num grau inimaginável.

Tahar Rahim, de O Profeta, faz o novo companheiro. Bérénice está grávida dele, cuja mulher está em coma no hospital. Ela tem duas filhas, de um primeiro casamento, não o segundo, com esse iraniano que carrega todo o peso da família. Tahar tem um filho pequeno, a filha mais velha de Bérénice não aceita o novo casamento da mãe – nem o fato de ela estar grávida. Lá pelas tantas, há uma pergunta – o que levou Céline, a ex-mulher, a tentar suicídio? Quem é responsável? De quem é a culpa?

São temas sempre em pauta no cinema de Farhadi – culpa, responsabilidade, casais. À força de tanto abrir o leque em O Passado, ele se arrisca a chegar a lugar nenhum. Mas ele filma bem, dirige bem os atores, cria cenas que vão fundo nos sentimentos. O problema é a falta de foco. Muitas vezes os personagens se perguntam – o que há? A resposta, quase sempre, é ‘Nada’. Tudo ou nada podem representar a mesma coisa, as diferentes faces de uma mesma moeda. Só que, se às vezes, nada é tudo, tudo, aqui, é nada.

É interessante assinalar aqui uma crítica que a edição de maio de Cahiers du Cinéma faz à direção do Festival de Cannes. A organização vive dizendo que Cannes quer ser receptiva aos novos talentos, sem abrir mão da tradição. Cahiers toma uma ou duas exceções para criticar a regra – para estar em Cannes, o diretor (ou diretora) tem de ter 40 anos, ou mais. Pode não significar muito, mas ajuda a entender por que não existem longas brasileiros nesta edição. Talvez o problema seja este – quem mandou René Sampaio, diretor de Faroeste Caboclo, não estar nos ‘enta’?

Se a competição segue com altos e baixos – bons mesmo, só o novo Jia Zhang-ke e o novo François Ozon, A Touch of Sin e Jeune et Jolie –, coisas muito interessantes estão ocorrendo nas demais seções. The Congress, de Ari Foldman (Valsa com Bashir), abriu a Quinzena dos Realizadores. O filme mistura animação e live action para discutir o futuro do cinema. Começa com Robin Wright na pele de uma estrela que não cumpriu o prometido. Ela meio que se desligou da carreira e agora, segundo seu agente, Harvey Keitel, está liquidada.

Ele propõe e ela aceita ser escaneada para participar, como personagem de animação, dos blockbusters que sempre se recusou a fazer. Foldman mistura Stanley Kubrick com o japonês Hayao Miyazaki. A origem de seu filme é um livro do russo Stanislas Zem, autor de Solaris, que virou filme de Andrei Tarkovski e depois teve um remake de Steven Soderbergh. Existem grandes filmes em Cannes. O problema, muitas vezes, é descobrir onde estão.

A descoberta mais surpreendente foi um longa da mostra Un Certain Regard. Havia gente pelo ladrão para ver L’Inconu du Lac, O Desconhecido do Lago e, no final, o longa de Alain Guiraudie foi aplaudido até pelo veterano Michel Piccoli, presente à sessão – à noite ele apresentou a versão restaurada de A Grande Comilança, de Marco Ferreri, em Cannes Classics. É preciso coragem para trazer um filme como L’Inconu a um festival como Cannes.

Passa-se numa praia de naturistas. Todo mundo nu. Mas a praia é de gays e um lugar de cruising. Os caras se conhecem e reconhecem nas praias e vão para o mato. O sexo é explícito. O protagonista interessa-se por um sujeito, mas ele já está acompanhado. Mais tarde, Franck – é seu nome – vê Michel matar o parceiro. Nem assim ele desiste do belo desconhecido. Por que ele mata? Um serial killer homofóbico. Após o estranhamento inicial, o público esquece tudo, a nudez, a pegação. O clima é de medo, e terror. O ruído da água, o vento no mato. Guiraudie cria uma tensão infernal, e o desfecho... Terminar bem um filme desses é difícil, mas o diretor consegue.

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