185 Films
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Cannes: Em 'Memoria', Apichatpong Weerasethakul investiga os ecos do passado e do trauma

Direitor tailandês concorre à Palma de Ouro no Festival de Cannes com 'Memoria', que traz Tilda Swinton no elenco; veja o trailer

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

15 de julho de 2021 | 05h00

Na última vez que esteve no Festival de Cannes, com Cemitério do Esplendor, Apichatpong Weerasethakul participou da mostra Um Certo Olhar. Isso depois de ganhar o prêmio do júri com Mal dos Trópicos (2004) e a Palma de Ouro com Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010). Ele está de volta à disputa principal com Memoria, exibido nesta quinta, 15, no festival. “Estou mais curioso de ver como vamos criar empatia com as outras pessoas, poder viajar de novo, estar num cinema de novo, absorvendo histórias juntos. Acho mágico. Não penso muito na ideia de competição”, disse o cineasta tailandês em entrevista ao Estadão, por videoconferência.

Apichatpong Weerasethakul, que não se incomoda de ser chamado pelo apelido Joe, é um dos cineastas de mais personalidade no cinema mundial. Seus filmes são únicos, um amálgama de referências pop de sua infância e da vivência no norte da Tailândia, onde cresceu, da espiritualidade local, dos ecos do passado no presente. Pela primeira vez, ele transfere sua sensibilidade para outra língua – o inglês e o espanhol – e outro país, a Colômbia. “Eu diria que foi um feliz acidente”, disse Weerasethakul. “Sempre tive muita curiosidade pela cultura latino-americana e tive chance de estar lá. Me apaixonei pela paisagem, pelas pessoas e pela dança. Sou um péssimo dançarino. Ver as pessoas dançando na Colômbia foi fantástico. Era como se estivesse testemunhando algo pelo qual estava procurando. Não sei explicar. Comecei a escrever e a incorporar essas coisas, sob o ponto de vista de um observador.”

Desde menino, ele se encantava com as histórias de aventuras pelas florestas da América Latina atrás de tesouros fantásticos, cheias de realismo mágico, de um estado entre a realidade e os sonhos. “Memoria existe entre essas duas esferas. Há esse eco na minha consciência, mesmo quando faço meus filmes na Tailândia”, disse o cineasta. “A magia e o mistério da selva e das sombras, da escuridão, tudo isso está presente no meu cinema.”

Quando está filmando, o cineasta não sabe do que o filme trata. “Faço como um jeito de entender esses sentimentos dentro de mim”, disse. “No caso, como me sentia com o peso desse país, mas também sua leveza.” O título Memoria veio de visitas a cemitérios que continham a palavra. “Uma memória é uma memória, claro, mas para os colombianos também está ligado a uma memória política”, afirmou Weerasethakul. “Achei que cabia perfeitamente, porque não falava apenas de memória, mas de memória da violência, do trauma.”

Na sinopse, Memoria, uma coprodução Colômbia, Tailândia, Reino Unido, México, França, é a história de uma mulher, Jessica (Tilda Swinton), que não consegue dormir desde que se assustou com um “bang” (estrondo) ao amanhecer. Tiro, bomba ou coisa da sua cabeça? Ela está em Bogotá para visitar sua irmã e lá conhece Agnes (Jeanne Balibar), arqueóloga que estuda restos mortais encontrados na construção de um túnel. Jessica viaja com Agnes ao lugar da escavação e conhece um peixeiro, Hernan (Elkin Diaz), com quem troca memórias. “O filme é sobre essa mulher que acaba de perder o marido e tenta se reencontrar, reencontrar o país. Então, há uma tentativa de sincronização com a memória pessoal e a social.”

Para o diretor, somos produto do que veio antes. O passado está em nós. “E não apenas individualmente, mas coletivamente também. “Passamos para a próxima geração o que veio da anterior, e não apenas de humanos, mas animais, paisagens. O filme fala disso, dessa vibração, desses ecos, que afetam Jessica.”

Ele tenta não comparar a Colômbia com a Tailândia, mas vê semelhanças. “Temos problemas diferentes, mas o mesmo tipo de violência e de falta de responsabilização. Ninguém é responsável pelos assassinatos”, observou. Também viu uma certa reserva dos colombianos que é semelhante à dos tailandeses. “Acho que tem a ver com uma certa cortesia. Você precisa conhecer as pessoas para elas se abrirem. Então, fazer um filme, para mim, foi como uma desculpa para conhecer pessoas. Eu me sinto muito privilegiado.”

A experiência de fazer Memoria, combinada à pandemia que se seguiu à filmagem, mostrou a Weerasethakul a fragilidade do mundo e a falta de sentido das divisas entre países. “Sinto que meus próximos projetos e mesmo minha vida têm a ver com viajar e não tratar outros países como diferentes, e sim como se não houvesse fronteiras. Esse é o tipo de ideia que gostaria de buscar.” Uma volta à América Latina não está descartada. Só que, primeiro, ele quer aprender a falar espanhol.

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