Cannes começa sob signo do amor e da política

"Os israelenses não possuem omonopólio da beleza nem o da sutileza da língua." Foi pensandoassim que o diretor israelense Amos Gitai recorreu ao poetapalestino Tawfik Zayad como uma das fontes de inspiração paraKedma. O filme exibido na quarta à noite para a imprensamarcou o início da competição aqui em Cannes. Na quinta de manhã, críticos e jornalistas de todo o mundo viram Marie-Jo et Ses2 Amours, do francês Robert Guédiguian. Dois filmes quefizeram o 55.º Festival International du Film decolar sob osigno do amor e da política.Gitai revela o amor da política ao tratar dos mitos fundadoresda nação em que vive. Guédiguian segue o caminho inverso: falasobre uma política do amor. E os jornalistas nem tiveram tempode absorver direito as possibilidades dessa dupla discussão. Noinício da tarde, George Lucas veio discutir as novas tecnologias, depois de mostrar, no fim da manhã, Guerra nas Estrelas,Episódio 2 - O Ataque dos Clones. O filme foi projetado comimagem e som digitalizados. O cinema do futuro já chegou aqui emCannes.Na verdade, já havia chegado há 13 anos, quando o júri presididopor Wim Wenders atribuiu a Palma de Ouro a sexo, mentiras evideotape, que o jovem Steven Soderbergh havia filmado emvídeo. Começava ali uma revolução que está mudando a face docinema. Gitai participa dessa revolução. Ele narra Kedma empouco mais de uma dúzia de planos-seqüência. O início é depirar.A câmera parte das costas de uma mulher que tira o sutiã,deita-se com um homem, iniciam as preliminares de um jogoamoroso, mas ele pára, levanta-se do leito, veste a camisa e sóaí a câmera se afasta para mostrar que estão num alojamento. Elepassa por outras camas, sobe uma escada e, sempre sem corte, acâmera o acompanha até saltar no convés do navio, pois é umnavio, até debruçar-se na amurada para ver o mar. Só aí ocorre oprimeiro corte e já se passaram sete, oito minutos de filme.Outro corte mostra o navio a distância e só aí vemos que otítulo do filme, Kedma, é o mesmo do navio.Gitai conta uma história desenrolada em 1948, quando osisralenses que haviam sobrevivido ao horror do holocaustochegavam à Palestina, muito deles para morrer. Uma cena éexemplar. Os israelenses, desembarcados clandestinamente, fogemdos ingleses; os palestinos fogem dos israelenses, que vieramtomar suas terras. E os fugitivos de ambos os lados travam umdiálogo de surdos. Nenhum quer ouvir o outro. Começa aí atragédia que prossegue até hoje no Oriente Médio.Woody Allen, que desafiou o Congresso Judaico dos EUA vindomostrar aqui em Cannes, na abertura do festival, o seu novofilme, Hollywood Ending, disse que era um absurdo acusartoda a França de anti-semitismo por causa de Le Pen. Na RádioFrance, ele foi longe e acusou Israel de usar práticasnazistas contra os palestinos. Gitai dá voz a ambos os lados. Opalestino ergue o dedo e diz que ali ele e seu povopermanecerão. "Faremos poemas, ficaremos, apesar de vocês.Vamos construir um muro e encher as ruas de manifestantes.Produziremos crianças revoltadas, geração após geração.Ficaremos." No outro extremo, o israelense diz que pertence aum povo sem história e que o Messias é só um mito. Sem ele, tudoteria sido diferente. E ele diz a frase que fez sensação aqui emCannes: "Israel não é um país judeu."Tudo muda - A discussão política prosseguiu com Guédiguian, odiretor do admirável A Cidade Está Tranqüila. Seu novo filmepassa-se na mesma cidade, Marseille, e é interpretado pelosmesmos atores, à frente a maravilhosa Ariane Ascaride. Se é tudoo mesmo, por que então o filme consegue ser novo? Porque, comodiz Guédiguian, as pessoas, as cidades, tudo muda. Ele continuafalando sobre política - filma trabalhadores, constrói o que nãodeixa de ser uma utopia: o negro e o árabe trabalham na firma deconstruções do marido de Ariane. Esse paraíso não é perfeito,porque Ariane ama, com igual intensidade, o marido e o amante.Não é Dona Flor e Seus Dois Maridos. Todos sofrem,dolorosamente. Guédiguian lembrou, na coletiva, que aos 17 anosparticipava de um grupo de estudos marxistas. Lia Marx de dia,mas de noite seu livro de cabeceira era o do sofrimento do jovemWerther. Nem Kedma nem Marie-Jo são os melhores filmesde seus diretores, embora possuam belas qualidades. A maiordelas é antecipar o que poderá ser esse festival.Vamos discutir arte, política e amor, aqui na Croisette. Vamosdiscutir tecnologia, também. George Lucas está à frente de tudoo que se faz hoje, tecnicamente, no cinema. Dizer que seu filmefoi aplaudido em cena aberta indica que não é só a técnica que éprodigiosa. A história que esse homem conta, a do amor (sempreele, como fonte de sofrimento) do jovem Annakin pela senadoraAmidala, encantou boa parte da platéia do palais. O filmeestréia amanhã em 74 países. Só nos EUA serão 6 mil cópias, masLucas não está preocupado em bater recordes. Poderiam ser maissalas e aí as chances de lucro seriam maiores (OHomem-Aranha estreou em 7.500), mas ele selecionou as melhores, pela qualidade de som e imagem. Sua preocupação, ele jura, nãoé aumentar sua fortuna, mas fazer com que a história que oapaixona há 30 anos chegue da melhor maneira ao público.

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