Cannes celebra cinema não hollywoodiano e compromisso com a diversidade

Palma de Ouro para filme tailandês surpreendeu, mas faltou premiação ao russo 'My Joy'

Luiz Carlos Merten, correspondente,

23 de maio de 2010 | 17h51

Júri liderado por Tim Burton posa para foto em cerimônia de encerramento do Festival

 

CANNES- Foi tudo muito bonito e emocionante. A vitória do filme tailandês Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, literalmente Tio Boonmee Que Consegue Se Lembrar de Suas Vidas Passadas, foi o triunfo do cinema de autor, celebrado pelo presidente do júri do Festival de Cannes deste ano, o cineasta norte-americano Tim Burton.

 

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Na coletiva de apresentação de seu júri, integrado, entre outros, pelo diretor espanhol Victor Erice, pelo ator Benicio Del Toro e pelas atrizes Kate Beckinsale e Vittoria Mezzogiorno, ele já afirmara seu compromisso com a diversidade, dizendo que queria ser surpreendido pelo cinema não hollywoodiano, predominante nesta seleção de Cannes.

 

Burton colocou-se à frente dos próprios críticos, que premiaram um filme meio autoral, meio comercial - Tournée, de Mathieu Amalric. Sua escolha foi por um dos filmes mais radicais desta edição do maior evento de cinema do mundo.

 

O próprio vencedor, Apíchatpong Weerasethakul, declarou-se não apenas feliz e honrado com a Palma, mas também disse esperar que ela seja um elemento de pacificação em seu país dividido por conflitos políticos.

 

Ele lembrou que quase não pôde vir a Cannes por causa da tensão e da violência que recrudesceram nas últimas semanas. Seu desejo de paz e entendimento tem a ver com a própria ideia do filme, que trata de reencarnação.

 

Apichatpong não fez um discurso propriamente político de agradecimento, mas encarou o assunto na coletiva. É que a política dera o tom da cerimônia. Logo na abertura, a apresentadora Kristion Scott Thomas apontou para a poltrona vazia de Jafar Panahi e lembrou que o diretor iraniano, preso em seu país sem acusação formal, completou ontem nove dias de greve de fome.

 

Ela acrescentou que Steven Spielberg ligou de Hollywood para se solidarizar com os esforços de Cannes para libertar o autor de O Círculo. Juliette Binoche, vencedora do prêmio de melhor atriz por Copie Conbforme, de Abbas Kiarostami - de quem Panahi foi assistente -, levantou um cartaz com o nome do cineasta e repetiu, para todo o mundo, o que disse na entrevista publicada hoje pelo Estado - "É insustentável que Jafar (Panahi) esteja preso por suas ideias. Um país precisa de seus artistas, de seus intelectuais, e o Irã precisa dele. A crítica faz parte do processo de (auto)conhecimento."

 

Juliette aproveitou a tribuna de Cannes para enfatizar que, como artista e mãe - ela agradeceu aos filhos pela compreensão por sua ausência, enquanto fazia o filme de Kiarostami na Itália -, e que acredita na responsabilidade social como no comprometimento pessoal.

 

"Filmar com Abbas foi uma felicidade. É impressionante como ele consegue desvendar o interior de uma mulher, vindo de um país, uma cultura - o Irã -, em que a mulher é oprimida." O ator italiano Elio Germano dividiu o prêmio de interpretação masculina com o espanhol Javier Bardem, de Biutiful, de Alejandro González-Iñárritu. Germano ganhou seu prêmio por La Nostra Vita, de Daniele Luchetti.

 

Enquanto Bardem dedicava, em espanhol, seu prêmio a Penélope Cruz - ela ficou meio sem graça quando ele a chamou de 'mi amor, mi vida' -, Germano bateu forte na classe dirigente italiana. Dedicou o prêmio à Itália e aos italianos, que lutam por uma vida melhor, 'apesar de nossos governantes'.

 

Muitos filmes da seleção, senão todos, tratavam de conflitos familiares, o que levou o presidente do júri a dizer que nunca viu tantos filmes sobre família, não no sentido da Disney, de proporcionar diversão, mas de refletir sobre o mundo.

 

A família também está no centro do filme do Chad, Um Homme Qui Crie, de Mahamast-Saleh Haroun, que ganhou o prêmio do júri. O grande prêmio ficou com o francês Dês Hommes et Des Dieux, de Xavier Beauvois, e o prêmio de mise-em-scène (direção) com Mathieu Amalric, de Tournée.

 

Ambos buscam outras alternativas de família - Beauvois mostra frades unidos no sacrifício em defesa de sua crença e também de uma comunidade muçulmana. O filme baseia-se numa história real ocorrida na Argélia, nos anos 1990. O de Amalric mostra a família formada por artistas de strip tease, num espetáculo burlesco, e seu empresário.

 

O prêmio de roteiro foi para o chinês Lee Chang-dong de Poetry, sobre uma avó que está perdendo a memória, vítima de Alzheimer. Seu neto é acusado de estupro e, contra todas essas adversidades, ela busca uma saída num curso de poesia.

 

O júri acertou bastante, mas errou ao ignorar o filme mais forte de toda a seleção, o russo My Joy, realizado pelo ucraniano Sergei Loznitsa. Por mais qualidades que tenha o mexicano Año Bisiesto, de Michael Rowe, exibido na Quinzena dos Realizadores, o júri de Gael García Bernal deveria ter outorgado a Caméra d'Or para o melhor filme de diretor estreante, a My Joy. Aí, sim, se poderia dizer que os melhores ganharam em Cannes, 2010.

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