Cannes: Bellocchio ressurge em grande forma

Há tempos que Marco Bellocchio podiaser considerado carta fora do baralho. Seus últimos filmesvinham sendo todos decepcionantes, para dizer-se o mínimo. Nãose pode dizer que Bellocchio tenha assinado agora uma obra-prima, mas La Ora della Religione, também chamado de Il Sorrisode Mia Madre, mostra que talvez tenha sido prematuroconsiderar a carreira do diretor italiano encerrada. Bellocchiocontinua com os punhos cerrados. Dirige sua raiva contra aIgreja. Seu filme é o Tudo sobre Minha Mãe (de Almodóvar) dareligião católica.Bellocchio contou ao repórter que dava um curso decinema em Bobbio. Com seus alunos, fez um trabalho deencerramento do curso. A personagem escolhida era uma mãe,tratada como santa. Aquilo ficou na cabeça dele e o diretorcomeçou a conceber a história do artista, que no filme é umpintor, que um belo dia recebe a visita de um emissário doVaticano e ele lhe diz que está em desenvolvimento o processopara beatificar a mãe do protagonista. O personagem de SergioCastelito, que interpreta o papel, não é simplesmente agnóstico.É ateu mesmo. "Como, minha mãe santa", pergunta-se ele?É assim que começa o filme de Bellocchio e, ao longo dehora e meia de narrativa, pouco mais, Castelito descobre que háuma conspiração em curso. Sua tia está no comando das operaçõese lhe explica, com todas as letras, que a beatificação da irmãserá um bom negócio para a família inteira. Como todo negócio,implica em certos riscos de compromissos. O ateu Castelito teráde converter-se e será preciso provar que a mãe foi morta peloirmão do herói, um louco que permanece incomunicável nohospício. Sem a confissão dele, nada feito. O matricídioconfigura um martírio. É indispensável para a canonização.Um festival se faz não apenas disso, mas também das boascenas que o espectador carrega, após a projeção. Há umafortíssima em Cidade de Deus, por exemplo. No filme deFernando Meirelles, dois garotos são encurralados e o chefe dagangue pede a um comandado que escolha qual deles vai morrer. Umdos meninos chora copiosamente. Meirelles contou aos jornalistasque o garoto pensava mesmo que ia ser morto. É um momento decortar o fôlego. Aponta para o que Cidade de Deus tem demelhor: o trabalho dos atores. Há outro momento prodigioso emA Hora da Religião ou O Sorriso de Minha Mãe. Castelitoentra na casa da tia e, de repente, a câmera o filma de frente eele pára, assombrado. Entra uma música, um canto armênio delamentação. A câmera descreve um momento em torno do herói e elese vê diante de um imenso retrato de sua mãe, que porta oenigmático sorriso a que se refere o título.Ira - Na Itália, compreensivelmente, A Hora daReligião provocou polêmica. Bellocchio enfrentou a ira doVaticano, que acusou o filme de vilipendiar a Igreja Católica.Para o diretor, seu filme conta a tragédia de um homem laico,que se distancia da religião, mas descobre que não pode cortarcompletamente os laços com ela. Como lhe diz o cardeal, éimpossível para quem foi cristianizado. Esse foi um tema queFederico Fellini e Pier-Paolo Pasolini desenvolveram em diversosfilmes, praticamente na obra inteira que construíram. Bellocchioo trata, como define, na forma de um thriller eclesiático ebizarro. Se Bellocchio de alguma forma surpreende favoravelmente, Manoel de Oliveira confirma, com O Princípio da Incerteza,o ritmo binário que vem dando à tônica de sua carreira. Após umfilme bom, segue-se, invariavelmente, um menos bom ou até ruim.Vou para Casa, com Michel Piccoli, que concorreu em Cannesno ano passado, era muito bom. Qual a surpresa pelo fato de queo novo Oliveira seja, agora, ruim?O mais velho diretor do mundo em atividade (nasceu noPorto, em 1908) baseou-se num roteiro de Agustina Bessa Lessa.Na sua obra, é um filme mais próximo de Party e OConvento do que dos filmes realmente admiráveis de Oliveira -Non ou a Vã Glória de Mandar, O Vale Abraão eViagem ao Princípio do Mundo.Começa com a conversa de dois homens e cada um conta umahistória. A mais interessante não deixa de ser uma retomada dotema da luta de classes. O filho da empregada de uma mansão écompanheiro de jogos do filho do patrão, mas ambos crescem e adiferença de classes se impõe. Transferida para o campo do amor,gera um conflito insuportável. É um Oliveira literário,discursivo e mal interpretado (menos pela divina LeonorSilveira). Para manter acesa a chama dos tietes do mestre, valeressaltar o que um jornalista português disse aqui em Cannes.Ele acusou a imprensa mundial de ter visto rapidamente demais oque, para ele, é uma obra-prima. Se você tiver de ver um sófilme de Oliveira para compreender a essência do mestre, escolhaesse, ele propõe.O Princípio da Incerteza vai para a MostraInternacional de Cinema São Paulo. Leon Cakoff já garantiu queisso ocorra. Vamos todos rever o filme em outubro. Aqui, aschances de premiação são remotas. Nada menos "lynchiano" (DavidLynch é o presidente do júri) do que as preocupações estéticas emetafísicas do teatro filmado de Oliveira.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.