Stephane Mahe Reuters
Stephane Mahe Reuters

Cannes 2022: Diretor sueco Ruben Ostlund divide a crítica com sátira sobre status social

Polêmico, cineasta expõe em ‘The Triangle of Sadness’ pessoas em luta para sobreviver em uma ilha após um naufrágio

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

23 de maio de 2022 | 18h27

CANNES - É oito ou 80. O sueco Ruben Ostlund tornou-se rapidamente talvez o autor mais polêmico do mundo. O 75º Festival de Cannes está rachado - metade dos jornalistas de todo o mundo defende o filme dele com o mesmo ardor com que a outra metade o detesta. Ostlund já ganhou a Palma de Ouro - por The Square -, concorre agora com The Triangle of Sadness. De cara tem a explicação - o triângulo da tristeza é esse vinco que na testa expõe o estado de ânimo das pessoas. 

Começa com a disputa - por dinheiro - de um casal de modelos, Carl e Yaya. É o primeiro capítulo. Depois vem O Cruzeiro e, finalmente, A Ilha. Apesar das disputas e ofensas do começo - quem ganha mais, quem está explorando quem -, Carl e Yaya embarcam no cruzeiro marítimo. Tudo de graça. É a vantagem de serem jovens, belos, celebridades. O navio vai a pique numa tempestade, os sobreviventes reencontram-se na ilha, onde uma funcionária da limpeza assume o poder. Na adversidade, é a única que sabe pescar, acender o fogo. Seu poder é total, ela inclusive ‘rouba’ o namorado da bela modelo. 

Ostlund adora causar. Sua sátira ao status social e ao culto das celebridades subverte o mundo da moda com a mesma virulência com que investe contra o capitalista que fez fortuna vendendo armamentos. No mundo em guerra, é a certeza de ganhar dinheiro. A garotada da crítica morre de rir com as piadas sobre Marx e Lenin, sobre vômito e flatulência devido ao enjoo do mar. O problema é que Ostlund atua no limite. Para criticar o estado do mundo, concede ao seu público tudo aquilo que parece estar criticando. É um cínico. 

Religião e política

O festival tem abordado questões de família e o embate entre religião e política, sobretudo no mundo islâmico. O noir Holy Spider, de Ali Abbasi, mostra um Irã como nunca se viu na tela. A história (real) de um serial killer que mata prostitutas. Sexo, corrupção e violência. Abbasi vive na Escandinávia. Não conseguiu filmar no Irã, nem na Turquia. Foi acolhido na Jordânia. A cena mais forte desse festival, até agora, é do filme de Cristian Mungiu, RMN. O autor romeno já venceu a Palma por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. Um homem volta para a cidade em que nasceu, dividida pela dificuldade econômica - e o ódio aos imigrantes. Uma cena de quase 20 minutos, filmada em plano-contínuo, no interior da igreja. Palavras de ódio. É impactante por revelar que a direita é igual em todo o mundo. A par da política, impressiona pela técnica, e a estética. Como se filma aquilo? É extraordinário. 

 

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