Canibal retorna elegante e estilizado

Nove anos depois, cinco Oscars mais tarde, sem as participações de Jodie Foster e do diretor Jonathan Demme e com uma inflação de US$ 63 milhões no orçamento, a aguardada continuação do filme O Silêncio dos Inocentes está chegando aos cinemas. Hannibal estréia no dia 9 nos EUA e chega ao circuito brasileiro em tempo recorde: sete dias depois do lançamento americano. O ator Anthony Hopkins é o único remanescente do elenco original. E ele volta a reprisar o maior papel de sua carreira: o de Hannibal Lecter, um psicólogo refinado que é apaixonado por obras de arte, adora degustar vinhos chianti e tem um paladar salivante para a carne e órgãos humanos.Na manhã da segunda, as primeiras sessões para a imprensa americana e estrangeira foram organizadas pelos dois estúdios que dividem os direitos do filme, a MGM e a Universal. Produzido pelo italiano Dino De Laurentiis, que pagou US$ 10 milhões pelos direitos do livro original de Thomas Harris (o maior lance literário da história de Hollywood) lançado em 1998, Hannibal é dirigido pelo inglês Ridley Scott, cineasta que ainda está colhendo os louros por seu último trabalho: Gladiador, drama sobre o império romano que é um dos favoritos para o Oscar.Por se tratar de um filme de Scott, que também dirigiu Blade Runner - O Caçador de Andróides e Thelma & Louise, as imagens de Hannibal são elegantes e bem-acabadas, a violência (em doses cavalares) é estilizada e o suspense eletrizante. Há algumas escolhas dúbias como uma Florença fotografada dark demais (lembra muito a chuvosa e inóspita cidade japonesa de Osaka, em Chuva Negra, filme de Scott com Michael Douglas e Andy Garcia) e o abuso da música clássica, principalmente de Danúbio Azul, de Strauss, utilizada nas cenas que antecedem os crimes do dr. Lecter.Outro ponto questionável é a escalação de Julianne Moore para o papel da detetive Clarice Starling. Como já foi maciçamente divulgado, Jodie Foster recusou assumir novamente o papel, por estar em desacordo com o nível de violência e o rumo que sua personagem tomava no fim do livro de Harris. Mesmo sendo a melhor atriz americana abaixo dos 40, Julianne não traz a mesma intensidade de Jodie à personagem. A Clarice de Julianne é mais raivosa e mais gostosa do que a controlada, desglamourizada e machona feita por Jodie. Mas Julianne não faz feio. Sua sensualidade abre novas nuances na história, que são espertamente aproveitadas por Scott. Como no livro de Harris, dez anos depois de cuidar do caso de Hannibal, Clarice adentra a história numa operação policial contra uma czarina das drogas. A batida resulta num total fiasco, com a morte de alguns policiais e Clarice confrontando a traficante que carrega um bebê recém-nascido. Desmoralizada pelo próprio departamento que serve, Clarice é afastada das ruas, perde a insígnia e a posse de arma, e é jogada numa missão burocrática: investigar a proveniência de um raio X que pode pertencer a Hannibal Lecter. Sua nova missão é acompanhada de perto por um desafeto da investigadora: Paul Krendler (Ray Liotta), oficial do departamento de Justiça americano. Krendler é manipulado e subornado por outro vilão de Hannibal: o milionário pedófilo Mason Verger. Sexta vítima dos ataques de Lecter - e uma das poucas a escapar com vida -, Verger dedica sua vida e fortuna para rastrear o paradeiro do canibal antes da polícia. Seu plano foi minuciosamente estudado e preparado: ao ter a custódia do dr. Lecter, Verger o deixará à mercê de javalis selvagens, criados especialmente para a ocasião. Tal vingança tem motivo especial. Sob a influência hipnotizante de Lecter anos antes, Verger arrancara a pele do próprio rosto com um pedaço de vidro e atirara para um cachorro faminto que não deixa um fiapo no chão. Gary Oldman, que pediu para não ser creditado no filme, interpreta Verger sob uma maquiagem aterrorizante. O resultado é de causar pesadelos ao público de estômago mais fraco, principalmente pelos longos e constantes close-ups no personagem. Ah, a cena de Verger despelando o rosto também é mostrada. Por conta de sua eficiente malha de colaboradores no mundo todo, Verger consegue a cópia de um raio X que suspostamente pertenceria ao dr. Lecter e a qual Clarice investiga. No filme de Scott, a radiografia vem de Buenos Aires. No livro de Harris, ela é despachada do Hotel Ibarra, no Rio de Janeiro. Hannibal Lecter vive tranqüilamente na cidade de Florença, onde está prestes a assumir o posto de diretor de um museu local, depois de ter jantado o italiano titular da vaga. Dr. Lecter veste ternos bem cortados e chapéu Panamá, vive entre pinturas de Giotto e Johann Fussli, ilustrações de Dante e ao som de Bach, que dedilha em seu piano. Ao investigar o desaparecimento do diretor do museu florentino, o policial italiano Pazzi (interpretado pelo sumido Giancarlo Giannini) acaba conhecendo Lecter. Farejando algo extra, não leva muito tempo para a Internet ajudar Pazzi. No website do FBI, Lecter é mostrado como uma das dez pessoas mais procuradas pelos EUA, ao lado do terrorista afegão Osama Bin Laden. Obcecado pela milionária recompensa oferecida por Verger, o italiano tenta - ele próprio - entregar Lecter aos capangas do pedófilo deformado. Mas antes de fugir para os EUA, Lecter estripa Pazzi, numa das cenas mais enojantes do filme.Na América, Lecter começa a seguir Clarice, mas acaba sendo capturado pelos capangas de Verger e quase vira comida dos javalis. Em sua volta, Lecter também faz uma de suas vítimas degustar um pedaço do próprio cérebro. O bifinho tirado do lóbulo superior da vítima faz parte do polêmico epílogo do livro, que acabou afastando Jodie, o diretor Demme e o roteirista Ted Tally, os três oscarizados por O Silêncio dos Inocentes. Como já foi divulgado antes, o final não segue a mesma estrutura do livro. Os roteiristas David Mamet e Steve Zaillian (de A Lista de Schindler) criaram uma nova alternativa, sem deixarem de ser sanguinolentos. Pornô - Mesmo sem Mamet no estágio de revisão do texto (o dramaturgo iniciou o projeto de dirigir um novo filme, a comédia State and Main, estrelada por Alec Baldwin e Sarah Jessica Parker), Zaillian criou uma cena extra e ultra-irônica para o desfecho de Hannibal. É um crime revelá-la para os leitores que ainda não viram o filme, mas vale adiantar que a seqüência envolve um garoto oriental bem xereta e que aborda a pessoa errada. Final sanguinolento? Não é bem por aí. Mas ao envolver um guri nessa história, e justamente no começo de uma era moralizante nas artes proposta pelo presidente George W. Bush, o final de Hannibal é um dos menos ortodoxos para uma superprodução (custou US$ 85 milhões) de Hollywood. "A gente riu muito e eu disse a Ridley que o fim ficou tão ultrajante que o próximo passo para nós será fazer um filme pornô", explicou Hopkins a uma revista americana.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.