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'Canção de Baal' e filme de Solanas arrasam em Gramado

Produção de Helena Ignez e 'A Próxima Estação' favorecem tudo - a reflexão, a provocação, menos o glamour

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

11 Agosto 2009 | 17h25

Iniciado no domingo com a homenagem a Dira Paes, o 37° Festival de Gramado teve na segunda uma primeira noite transgressora. Política, sexo, uma política do sexo - Fernando ‘Pino’ Solanas e Helena Ignez botaram para arrebentar. Em princípio, não há nada em comum entre um documentário sobre o ferrocídio na Argentina, onde a privatização da malha férrea virou sucateamento do bem público, e uma ficção livremente adaptada da primeira peça escrita por Bertolt Brecht (em 1919), embora ele tenha feito novas versões de seu texto original até 1954. La Próxima Estación e Canção de Baal favorecem tudo - a reflexão, a provocação -, menos o glamour. Quer dizer, vai ser difícil o festival arranjar uma musa mais arrojada do que Simone Spoladore, filmada pela mítica estrela do Cinema Novo, Helena Ignez.

 

 'A Próxima Estação' de Fernando Solanas conta sobre o desmanche da malha ferroviária argentina.

 Foto: Divulgação

 

Simone é um assombro em Canção de Baal. Com todo respeito, tem um nu frontal que a candidata ao título de os mais belos seios do cinema brasileiro, mas isso é só um detalhe. Simone é talentosa e corajosa. No ano passado, no Festival do Rio, Pedro Cardoso lançou seu manifesto contra o nu artístico, denunciando a objetalização das mulheres. Simone é filmada por outra mulher em Canção de Baal. Helena Ignez subiu ao palco do Palácio dos Festivais, aqui em Gramado, para dedicar a sessão a seu amado Rogério Sganzerla e a Dorothy Stang, a missionária assassinada por defender posseiros na Amazônia. Helena também disse que Brecht é um farol para ela, que a acompanha há muitos anos.

 

O próprio Brecht aparece na abertura e no encerramento de Canção de Baal, prestando seu depoimento à Comissão de Atividades Antiamericanas do Senado dos EUA, dominada pelo senador McCarthy, aquele cujo nome originou o macarthismo. A perseguição aos suspeitos de atividades comunistas virou um período negro da história norte-americana, que George W. Bush, outro celerado de direita, tentou reeditar no clima de paranoia pós-11 de Setembro. Ouve-se a voz do interrogador de Brecht. Ele pergunta se o poeta e dramaturgo é autor de textos revolucionários. Brecht responde que sim. Escreveu peças, poemas e canções com o objetivo declarado de incentivar a derrubada do (des)governo de Adolf Hitler na Alemanha.

 

Canção de Baal baseia-se na peça sobre um músico e poeta mulherengo (e devasso). Seu lema é sintetizado num brado forte - "Meu nome é Baal, faço poesia com meu p..." Mas Baal, e Brecht, é só uma das pontas do filme. A outra é fornecida por Albert Einstein em terras brasileiras. A ficção de Helena Ignez constrói-se em torno da peça e de um fato - em 1919, um eclipse no Ceará permitiu que cientistas fizessem a comprovação da teoria da relatividade de Einstein. O filme encerra-se com uma citação do cientista - "A razão pura é intuição." Abre-se com uma provocação, quando um dos personagens diz que, se o espectador entendeu, a história não foi bem narrada. Baal, no filme, é cooptado por um madeireiro predador a participar de uma festa em sua casa. Ele seduz a mulher do cara, outras mulheres e até um homem e o filme adota o formato do musical (antropofágico) para desconstruir a história, que não é, exatamente, para ser ‘entendida’. É difícil, de qualquer maneira, não se queimar na chama que consome Helena Ignez, companheira, na arte e na vida, de um dos mais transgressores autores de cinema do País, Sganzerla.

 

Canção de Baal encerrou a noite que começara com A Próxima Estação. A privatização da empresa estatal Ferrocarriles Argentinos é o ponto de partida para que Fernando Solanas conte uma história dos trens no país vizinho. A Argentina teve uma das maiores malhas ferroviárias do mundo, que começou a ser desmontada em 1960, quando o presidente Arturo Frondizi, eleito democraticamente, abriu o país para as montadoras norte-americanas. Em favorecimento do carro, a malha ferroviária foi substituída pela rodoviária.

 

O patrimônio público, os trens, foi sendo assaltado pelos sucessivos governos, especialmente os militares, porque as lideranças sindicais no setor eram predominantemente peronistas. A redemocratização não acabou com a pilhagem. A privatização acabou com o serviço e levou a todo tipo de acusação de enriquecimento ilícito contra presidentes como Menen e Kirchner. Instauraram-se centenas de processos que foram acabando em pizza, mas o filme, lançado pouco antes das eleições legislativas na Argentina, com certeza contribuiu para a derrota do partido da atual presidente e seu marido, o ex-presidente. Solanas, com a veemência de Michael Moore, vai atrás das autoridades (ir)responsáveis. Ele entrevista políticos, magistrados. Seu filme debate um tema pertinente no Brasil das atuais acusações ao presidente do Senado, José Sarney. Solanas discute, afinal, o que são bens públicos e privados? O sucateamento da malha ferroviária vira ataque ao novo mundo das economias globais.

 

O filme é o melhor da série de documentários iniciada com Memoria del Saqueo. Tem personagens fortes e momentos que possuem a intensidade das melhores ficções. O tango, na trilha, ajuda a criar o clima. Naturalmente, Solanas poderá ser acusado de passadista, de falta de isenção etc., mas A Próxima Estação é um filme, não uma reportagem. O festival ainda se recupera da dupla transgressão de segunda à noite.

 

O repórter viajou a convite da organização do festival

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