REUTERS/Andrew Kelly
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Canal no YouTube mostra 'previsões' de David Lynch

Cineasta de ‘Twin Peaks’ apresenta boletins diários de meteorologia durante a pandemia

Sonia Rao, THE WASHINGTON POST

29 de agosto de 2020 | 16h55

“Que dia é hoje?”, pergunta o telespectador, emergindo brevemente da amnésia intermitente que se instalou desde meados de março. Ele está em boa companhia, embora confuso. Estamos, atualmente, há mais de cinco meses desde o começo de uma pandemia que não dá sinal de acabar e a menos de 70 dias das eleições gerais. Esta estressante combinação de fatores nos fez perder a noção do tempo a ponto de várias publicações consultarem profissionais para saber que diabos está acontecendo. Humildemente recomendamos que se consulte outro especialista: o cineasta David Lynch.

Um dos criadores de Twin Peaks, os últimos dias de Laura Palmer narra diariamente, desde meados de maio, os boletins do tempo de Los Angeles para o canal YouTube do David Lynch Theater, voltando ao seu hobby ocasional da metade dos anos 2000. Ele está sentado aparentemente em um subsolo, mas que poderia também ser um bunker, cercado por objetos espalhados ao acaso, como um telefone fixo e, tipicamente, uma maravilhosa caneca de café. Ele olha para a câmera, fala a data e o dia da semana e então passa para o seu tema: “Aqui em L.A. desceu uma névoa pesada na noite passada, mas felizmente logo irá desaparecer”, disse no vídeo de segunda-feira. “Muito firme neste momento, 70º Fahrenheit e 21º Celsius.” Depois ele muda completamente. “Hoje, eu me pergunto: O que irá acontecer agora?”.

Os vídeos recebem milhares de visualizações, a seção de comentários está repleta de respostas francas às palavras de Lynch. “Não sei o que irá acontecer, só sei a previsão do tempo de amanhã”, disse uma das respostas. “Ninguém conhece David, mas todos nós poderemos sobreviver ao que acontecerá desde que continuemos a enviar mensagens”, afirmou outra. Uma terceira descreve Lynch como “o homem que proporciona ao mundo uma sensação de estabilidade e de estrutura”.

Estabilidade e estrutura nem sempre são associados a Lynch, artista conhecido pelos estranhos elementos de sua obra – perfeitamente captada pela Sala Vermelha e pela pessoinha dançante que fala de trás pra frente tirada de Twin Peaks (estreado em 1990). A série de mistério e assassinato “pegou um gênero familiar e fez com que parecesse exótico”, diz um artigo da revista Atlantic de 2015, detalhando uma experiência de visual não muito diferente de como é quando acordamos em nossa própria cama, mas em um mundo que parece ter perdido o seu eixo. Talvez o celebrado conhecimento do cineasta faça com que seja visto como autêntico no nosso mundo de hoje.

Quem sabe os que estão presos em casa descubram que este é o tempo certo (tempo? o que é isto?) para começar a ver toda a obra de Lynch, desde as duas temporadas originais de Twin Peaks, e o renascimento em Showtime de filmes como Veludo Azul, Inland Empire e a sua clássica obra de estreia cult, Eraserhead. Nos últimos meses, Lynch, vlogger (uma forma de blog que tem como veículo o vídeo) extremamente prolífico, lançou também alguns contos para o YouTube com o mesmo tom precisamente bizarro dos seus projetos mais longos. Todos os 12 minutos deste drama que se passa no peitoril de uma janela, The Spider and the Bee (A aranha e a abelha), por exemplo, com uma música assustadora que lembra a batida da coluna sonora de Twin Peaks, de Angelo Badalamenti.

Mas estas criações não acalmam espíritos perturbados quando os boletins do tempo de Lynch, que, independentemente de onde você more em Los Angeles, são transmitidos da toca do coelho no YouTube. Há uma espécie de bálsamo em sua voz calma e na maneira carinhosa como ele pronuncia a palavra “Monday”, que o The New York Times atribuiria ao “sotaque monótono, brega, de sua Missoula natal, what the heck is going on Montana”, (descrição tirada de um artigo de 2006 apropriadamente intitulado David Lynch’s Shockingly Peaceful Inner Life). O ouvido acaba se acostumando a ouvir datas como July 4, lido estranhamente como “July four”, enquanto os olhos são embalados pelos filtros azul e cinza que se sobrepõem às imagens.

Quando você chegar ao fim de 2020, por que não mergulhar nos arquivos? Lá está ele, no dia 1º de fevereiro de 2005, dizendo olá para “David Lynch dot com members” juntamente com sua colaboradora Laura Dern: “Aqui em Los Angeles, faz um lindo dia ensolarado, nenhuma nuvem no céu”. Mais de três anos depois, no dia 4 de setembro de 2008, nos aguardam mais “céus azuis e a luz dourada do sol”.

Lynch ainda consegue falar deste tempo que estimula a serotonina em seus vídeos mais recentes, ainda que seja um dia sombrio. No dia “25 de julho”, ele olha para a névoa plúmbea, o céu cinzento nublado que o cerca.“Quando ela desaparecer, como de costume, teremos novamente aqueles maravilhosos céus azuis e sol dourado”, Lynch tranquiliza o público. “A todos vocês, um excelente dia!” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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