Canal Brasil faz homenagem a Rogério Sganzerla

Começa hoje no Canal Brasil a Programação Especial Rogério Sganzerla. De hoje a sábado o canal passa filmes do diretor, morto na sexta-feira. Programou obras de três fases de Sganzerla: seu clássico absoluto da fase paulista, O Bandido da Luz Vermelha, passa hoje. Amanhã será a vez de A Mulher de Todos, também ligado à Boca do Lixo paulistana. Nos dias seguintes temos alguns exemplares da produtora Belair, que ele fundou em 1970 no Rio, associado a Julio Bressane: Sem Essa Aranha, Copacabana Mon Amour, Abismu. Finalmente, obras mais recentes: o média Isto É Noel e Nem Tudo É Verdade, um dos seus trabalhos associados à passagem de Orson Welles pelo Brasil, uma persistente obsessão do cineasta. Antes de O Bandido da Luz Vermelha, o Canal Brasil exibe um Cinejornal especial em memória do diretor e um Retrato Brasileiro intitulado Elogio da Luz, dirigido por Paloma Rocha e Joel Pizzini. Trata-se de um documentário rodado quando Rogério estava já muito doente. O programa, dirigido pelo cineasta Joel Pizzini e pela filha de Glauber Rocha com Helena Ignez, recorta várias cenas dos principais filmes de Rogério e entrevista pessoas ligadas a ele. O processo evolutivo de criação de Sganzerla revela o descolamento progressivo em relação ao Cinema Novo que, segundo uma de suas vozes mais influentes, Cacá Diegues, termina mesmo dia 13 de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional n.º 5. Com o fechamento total do regime, não havia mais condições para a arte no País. Ou, por outra: os artistas viam-se obrigados a ocupar algumas poucas frestas disponíveis. A arte tornou-se "marginal" e, com esse termo, o cinema de Rogério, Julio Bressane e alguns outros foi batizado. Curiosamente, O Bandido da Luz Vermelha foi filmado antes do AI-5, como o próprio Sganzerla relembra no documentário Elogio da Luz. O escracho e o desespero que exprime estavam no ar, mas as condições políticas para eles ainda haviam sido estabelecidas de forma institucional. Mas o seguinte, ainda feito em São Paulo, A Mulher de Todos, mostra o caminho que Sganzerla estava tomando. É um filme de ruptura, que aprofunda a estética do escracho presente no Bandido. É sintomático que Sganzerla tenha escolhido os melhores comediantes do seu tempo para expressar o que achava das classes dirigentes do País. Em Bandido, Pagano Sobrinho é um político populista. Em A Mulher de Todos, Jô Soares faz um ricaço nazista. Em Sem Essa Aranha, Jorge Loredo, o Zé Bonitinho, interpreta um milionário venal. Esse é o mundo que Rogério enxergava: o povo esfomeado, se entredevorando para sobreviver das migalhas deixadas por uma elite corrupta, cruel, mesquinha até o embrutecimento. Um mundo de boçais, sem redenção. Dele, o cineasta só consegue salvar-se por uma via regia pessoal, que era a viagem de Orson Welles ao Brasil, tão bem evocada, em forma fragmentada, no belíssimo Nem Tudo É Verdade. Da obra de Sganzerla, pode-se dizer que expressa um amor desmesurado pelo País. Um amor desenganado, sempre espremido entre o desespero absoluto e alguma esperança de fundo, que parecia mais um ato de fé do que um sentimento fundado na realidade.

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