Divulgação
Divulgação

'Campo de Jogo' estreia no momento em que o futebol brasileiro vive sua maior crise

Filme de Eryk Rocha joga luz nas relações entre cinema e futebol

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

19 Julho 2015 | 04h00

Campo de Jogo, de Eryk Rocha, joga luz nas relações entre o cinema brasileiro e o futebol. Já temos documentários notáveis sobre o tema. Também se podem contar ficções extraordinárias tendo como personagens jogadores e como ambiente o futebol. Faltava-nos um que fosse direto à poesia do jogo. Não falta mais. Eryk o fez.

Na verdade, cinema e futebol, no Brasil, têm trajetórias paralelas, que, em alguns momentos, se cruzam. Oficialmente, o futebol começa no Brasil em 1895, com o jogo promovido na várzea do Carmo, em SP, por Charles Miller, um filho de ingleses que trouxe da Europa uma bola e as regras de um novo jogo. Já o cinema, também oficialmente, nasce em 1895, em Paris, com a mitológica sessão dos irmãos Lumière. Pouco depois já está por aqui. Em 1898, os irmãos italianos Segreto tomaram as primeiras imagens brasileiras com uma câmera de cinema, uma vista da Baía de Guanabara.

O pesquisador descobre que logo cinema e futebol se popularizaram no Brasil, e um começou a “conversar” com o outro. Primeiro, sob a forma de “documentários”. Coloco o termo entre aspas porque, pelo que se sabe, eram mais registros de partidas ou das multidões que se formavam para vê-las do que obras elaboradas. Servem como material de pesquisa sobre uma época, embora a maior parte desse material tenha se perdido. Sobram registros sobre eles. Por exemplo, ficamos sabendo que, nos anos 1920, houve um tumulto no Parque Antártica durante um jogo que terminou na delegacia com a prisão de várias mocinhas histéricas que assistiam à partida.

Já nos anos 1930, há registro de filmes de ficção tendo o esporte por tema. O Campeão de Futebol (1931), de Genésio Arruda, e Futebol em Família (1938), de Rui Costa, seriam os primeiros longas que falam de futebol e têm jogadores ou candidatos a jogador como personagens principais.

Nos anos 1960, surgiram os documentários “sociológicos” que davam ao futebol a importância e a dignidade que ele merece. Dois deles se tornaram clássicos - Garrincha, Alegria do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade, e Subterrâneos do Futebol, de Maurice Capovilla. Ambos falam da beleza do jogo, dos ídolos fantásticos que eram os craques, mesmo antes de o marketing esportivo ter nascido. Mas destacam também os problemas sociais existentes tanto no próprio ambiente do jogo quanto na sociedade que o aprecia. Na atualidade, o marco do gênero é a série Futebol, trilogia feita por João Moreira Sales e Arthur Fontes para a TV. E, na ficção moderna, os dois longas de Ugo Giorgetti, Boleiros 1 e 2, que trazem para a tela grande os personagens e as histórias do futebol.

Para utilizar a terminologia de Pasolini, todos eles fizeram do futebol uma grande prosa. Coube a Eryk Rocha introduzir a poesia no tratamento do jogo. Talvez seja uma ironia que, no momento em que o futebol brasileiro atravessa sua maior crise, surja um grande filme sobre o esporte. Mal no campo, o futebol brasileiro vai bem nas telas. 

Mais conteúdo sobre:
CulturaCinemaFutebol

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.