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‘Campo de Jogo’, de Eryk Rocha, é ensaio poético sobre uma partida de futebol

Filme estreia na quinta-feira, dia 23, em São Paulo; neste domingo, 19, o cineasta fala sobre o longa em Cidade Tiradentes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 Julho 2015 | 04h00

Garoto, e flamenguista, Eryk Rocha já ia ao Maracanã torcer por seu time. Como muitos meninos, sonhava ser jogador, e até acha que era bom – “Não era perna de pau, não” –, mas o DNA falou mais alto e ele virou cineasta. Eryk tem muito orgulho de ser filho de Glauber Rocha. Afirma: “Meu pai é o pai do cinema brasileiro”. Há tempos, Eryk vem pensando no futebol brasileiro, que já foi o melhor do mundo, mas sofreu aquela humilhação histórica nos 7 a 1 da Alemanha, na Copa do ano passado. O que fez a grandeza do futebol brasileiro? “Mais do que as estratégias, foi a habilidade dos jogadores, a ginga, a familiaridade com a bola. O futebol começou com os ingleses, mas o Brasil acrescentou a negritude e virou melhor do mundo. Mas o futebol se industrializou, virou todas essas táticas e estratégias. Onde é que a ginga sobrevive? Na várzea.”

E, assim como amando o Maracanã, Eryk Rocha nunca desistiu dos campos de várzea e foi para lá que ele se dirigiu ao realizar seu filme de futebol. Campo de Jogo estreia na quinta, dia 23, em São Paulo e no Rio, mais algumas praças. Neste domingo, 19, haverá uma sessão do filme em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo. Eryk tem realizado esses encontros. Na semana passada, já houve um debate do filme com a participação de Juca Kfouri. Em Cidade Tiradentes, o próprio Eryk vai debater com o público. Ele está todo animado com a possibilidade de debate, ainda mais que neste domingo, dia 19, se comemora o Dia do Futebol Brasileiro. Que melhor oportunidade para debater futebol, um assunto que todo brasileiro (bem, quase todo) adora? E mais – a relação entre futebol e cinema?

Filho do pai do Cinema Novo, Eryk Rocha cita um clássico do movimento – Garrincha, a Alegria do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade. É seu filme preferido de futebol e, já que ele abriu o flanco, é bom revelar logo suas outras preferências esportivas. O time é o Flamengo, sua seleção brasileira do coração é a de 1982 (embora só a tenha visto jogar em videotape) e o gol mais belo? Zico, de falta, contra o Santa Cruz, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro de 1987, jogo vencido pelo Mengão. Pronto – o boleiro já sabe o essencial sobre Eryk e o cinéfilo também precisa atentar que ele não quis fazer o ‘seu’ Garrincha. Não quis nem fazer um documentário tradicional, embora, no País e no exterior, Campo de Jogo tenha passado em importantes foros de documentário. Mas, se o filme não é um documentário tradicional nem uma ficção – “Mas tem dramaturgia”, ele ressalta –, então o que é? Campo de Jogo está mais para filme ensaio, e poético.

Há, no Rio, esse campeonato de futebol entre comunidades. Eryk e uma equipe reduzida – quatro pessoas com ele: fotógrafo, o cara do som e uma assistente – começaram a filmar os jogos. Filmavam no domingo e depois tinham a semana toda para avaliar o material e até pensar como poderiam filmar o jogo seguinte. Planificar, fazer um storyboard não dava – “O jogo é sempre imprevisível”, ele avalia. E, aí, ocorreram duas coisas. Ele encontrou o campo em que seria jogada a final do campeonato e a partida ainda foi para os pênaltis. O jogo tomou uma outra dimensão. O campo virou um território mítico do confronto. A partida virou um épico. Glauber teria amado. Você não precisa de super-heróis para criar um épico sobre o futebol brasileiro, sobre o povo brasileiro. Está tudo ali naquele campo de várzea.

De cara, na abertura, uma cartela informa que o campo escolhido por Eryk fica perto do Maracanã, e o Estádio Mário Filho é definido como ‘palco da Copa do Mundo de 2014’, a segunda que o Brasil deixou escapar em casa. O que o filme quer dizer com essa informação inicial é algo que não deixa de ser político. “É uma maneira de afirmar o que não é”, diz Eryk. Nada de Maracanã nem de Fifa. O futebol que não é oficial. A copa comunitária que não é do Mundo. E o esforço guerreiro dos atletas de base. Eryk conta que tinha 100 horas de material filmado. Eliminou mais de 98 – “Campo de Jogo é meu longa mais curto, tem apenas 70 minutos”. Nessa hora e 10, o diretor se preocupa mais com a dramaturgia/dramaticidade do que com a fluência das jogadas. E não deixa de criar um manifesto estético.

Eryk pode estar falando de seu pai (Quimera), da América Latina (Pachamama), do futebol de várzea (Campo de Jogo). Cada filme é sempre uma experiência plástica, sensorial. Campo de Jogo é sobre corpos em movimento. Existem a imagem, a montagem e a trilha. Villa-Lobos, Wagner e Callas. Uma Callas enlouquecida, que leva ao limite a experiência visceral desse jogo. “O que mais gosto nesse filme é que muita gente tem vindo falar comigo no final, no Brasil e fora. E muitos me dizem que não gostam de futebol e amaram o filme. Ou seja, não é a informação que o filme passa. É o sentimento estético. Nada me faz mais feliz.”

Veja o trailer do filme:

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