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'Caminhos da Floresta' faz síntese de diversos contos de fadas

Meryl Streep foi mais uma indicada para o Oscar de melhor atriz

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 Janeiro 2015 | 03h00

Se há uma coisa que não falta a Rob Marshall é coragem para se cotejar com os grandes. Ele emulou ideias e conceitos de angulação e dança de Bob Fosse em Chicago, versão musical do espetáculo que o próprio Fosse criara nos anos 1970. Recebeu o Oscar de melhor filme, mas não o de direção. Em Nine, ousou transpor o clássico Oito e Meio, de Federico Fellini, obra-prima do diretor e um dos filmes emblemáticos dos anos 1960, para a tela. Foi chamado de louco, mas só a desonestidade intelectual de certa crítica não reconhece a beleza da participação de Fergie como Seraghina, que já era uma das grandes cenas (e tipos) do original felliniano.

Rob Marshall ousa, de novo. Agora transpõe para a tela o show da Broadway em que o próprio Stephen Sondheim e James Lapine emulam Bruno Bettlelheim e sua Psicanálise dos Contos de Fadas. Into the Woods/Caminhos da Floresta conta uma história que, de certa forma, faz a síntese de diversos contos de fadas. Chapeuzinho Vermelho, Gata Borralheira/Cinderela, Rapunzel, João e o Pé de Feijão. Tudo gira em torno de um casal que quer ter um filho e a quem a bruxa encomenda uma série de itens - objetos que remetem às tramas de carochinha, como forma de quebrar a maldição lançada sobre o túmulo da família. Só assim eles poderão ter filhos, que é o que a mulher mais deseja.

Temos assim a história do casal, e da bruxa. E as tramas clássicas que vão se fundindo nos caminhos da floresta. Chapeuzinho, João, Cinderela. E os príncipes. Nada é tratado com realismo porque o musical, território por excelência dos sortilégios de Rob Marshall, opera no registro da fantasia. Existiram tentativas de fazer musicais realistas, mas, no geral, com os maiores, tipo Vincente Minnelli (pai de Liza) e Stanley Donen, o musical sempre quis fazer o espectador sonhar, criando um mundo de sonhos que se choca com a realidade. O sonho dá o tom de Caminhos da Floresta quando Chapeuzinho encontra Johnny Depp na pele do lobo, ou quando o tolo João é enganado e troca a vaca, patrimônio da família, pelas sementes de feijão.


O tom é de fantasia, com muito canto e dança, mas é essa articulação das histórias (e das canções) que faz com que Sondheim (e Marshall) revisem, desde dentro, e psicanalisem, os contos de fadas, seguindo a vertente analítica e desmistificadora de Bettelheim. E o importante é que, no processo, como já assinalaram outros críticos, a produção da Disney consegue reformular o conceito do filme para crianças. Caminhos da Floresta tem todos os seus elementos, e com certeza pode ser atraente para os pequenos, mas é também entretenimento (diversão) com camadas. Cada espectador, em sua faixa etária - dos 8 aos 80, e mais -, poderá decifrar essas imagens e sons, conferindo-lhes a riqueza da sua percepção, e inteligência.

Há quem diga que o filme é ruim, nada o salva. Não dê ouvidos. Não é nem mesmo exclusivo para adeptos de musicais. É um universo assustador, de monstros e magia, que arrasta o público (como os personagens) numa jornada de autodescoberta. Cinderella/Anna Hendrick; Chapeuzinho/Lilla Crawford; Rapunzel/MacKenzie Mauzy e Jack/Daniel Huttlestone somam-se à bruxa de Meryl Streep, indicada para o Oscar de coadjuvante pelo papel, ao padeiro e sua mulher que quer ficar grávida (a ótima Emily Blunt) e ao príncipe garanhão (Chris Pine), pintado como um priáprico que não pode ver rabo de saia. Na adaptação de Lapine (e Marshall), o véu mágico vai sendo dissolvido para que, no limite, e a despeito de toda aparência, crianças e adultos tenham outra percepção, mais verdadeira (realista?), desses personagens e situações.

Na hora H, descendo pelo pé de feijão, uma mulher gigantesca na Terra, mesmo que de faz de conta, em que se passa a história. Os personagens resistem a entregar-lhe João e aí toda a fábula muda de figura e a canção No One Is Alone/Ninguém Está Sozinho ganha outra dimensão. Todo esse universo de fabulação é criado (por Sondheim/Lapine) e recriado (por Marshall/Lapine) para celebrar o desejo de integração. Por mais que o homem se isole, vivemos em sociedade. Temos de ser solidários. É um filme que enche os olhos e libera os sentidos. Aguça o pensamento. Rob Marshall acertou, de novo.

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