Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Camila Morgado se destaca em lote de filmes independentes

Atriz é um dos destaques do Festival de Cinema de Veneza

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2018 | 06h00

Camila Morgado vai acompanhar com especial atenção a 75.ª edição do Festival de Cinema de Veneza, que abre nesta quarta, 29. Não apenas pela participação do filme Domingo, de Fellipe Barbosa e Clara Linhart, do qual ela é protagonista e é um dos destaques da Venice Days, a face independente da mostra italiana - a projeção do longa em um espaço privilegiado confirma como acertada a decisão tomada pela atriz, há alguns anos, de recusar papéis da mulher forte e se entregar a personagens insólitos, despudorados, enfim, um salto no escuro que confirme sua versatilidade.

“A televisão é um excelente veículo, mas, para o artista, ela ensina a prática do liga e desliga”, comenta Camila, referindo-se ao raro polimento que os atores conseguem dar à sua atuação em trabalhos para a telinha, normalmente realizados com pressa. Ela, por ora, participa apenas da novela juvenil Malhação como a professora Gabriela, papel que já lhe rendeu um tremendo sucesso pelo carinho com que ela trata os alunos.

Mesmo assim, grava cerca de 20 cenas por semana. “A vantagem é ser obrigada a reagir espontaneamente diante da câmera”, conta Camila, mais preocupado com projetos de cinema. Em Domingo, ela vive uma estrangeira cuja família se reúne em sua casa, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, no primeiro dia de 2003, quando Lula toma posse como presidente. “É um clã decadente e minha personagem é uma mulher livre, despudorada, que incomoda os parentes.”

De fato, como já afirmou o diretor Barbosa, o filme é sobre, basicamente, o medo da revolução do proletariado, do comunismo no Brasil a partir dessa família aristocrata, mas decadente, que se reúne para tentar enterrar esse temor. “Trata diretamente da relação entre patrão e empregados”, observa Camila, que guarda boas lembranças da convivência com Ittala Nandi, veterana atriz que interpreta a matriarca da família.

Experiência mais radical a atriz enfrentou ao rodar Vergel, da argentina Kris Niklison. Filmado em um apartamento de 37 m² (a equipe se apertava nos raros cômodos) em Buenos Aires, Camila vive uma mulher cujo marido morre inesperadamente durante uma viagem a passeio e ela é obrigada a enfrentar a burocracia argentina para liberar o corpo e voltar ao Brasil. “Quando li o roteiro, já sabia como seria essa mulher”, explica a atriz, cujo trabalho é mais psicológico que físico.

Afinal, sua interpretação é minimalista para mostrar o tour de force de uma mulher enlutada, que é tomada por todo tipo de pensamento, enquanto se vê trancafiada em um apartamento que faz lembrar uma floresta pela quantidade de plantas (daí o título, que quer dizer algo como “pomar”). Seu único contato exterior é via uma enigmática vizinha, interpretada pela argentina Maricel Álvarez. “Desenvolvemos, Maricel e eu, uma grande amizade, trocando ideias pelo WhatsApp”, conta Camila, cuja proximidade foi necessária para realizar cenas de alto conteúdo erótico, como uma relação entre elas, além de outra com masturbação. “Não me incomodei em fazer porque entendi como parte do processo íntimo da personagem, atravessada pela dor da perda”, comenta. “Não é uma exposição gratuita, é realmente um retrato fiel de alguém que passa por aquela situação de dor.”

Romper os limites da interpretação a favor da arte não é uma novidade na carreira de Camila. Basta observar outra de suas surpreendentes atuações, agora em O Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida, já em cartaz em São Paulo. Ali, seu potencial dramático é levado a um extremo para garantir o tom de terror.

Mais enigmático é o papel de Camila em Albatroz, longa de Daniel Augusto, com roteiro de Braulio Mantovani, previsto para março de 2019. O filme conta a história do fotógrafo Simão (Alexandre Nero) que, durante uma viagem com a amante a Jerusalém, testemunha um atentado malsucedido. Com as fotos do fato, ele se torna internacionalmente conhecido, mas sofre críticas por ter decidido fotografar em vez de ajudar as vítimas. “Minha personagem, Rene, é uma mulher misteriosa, pois não se sabe se é uma espiã ou uma atriz - sua meta é iludir Simão”, explica Camila, habituada a desafios.

Sua carreira começou no teatro, trabalhando com diretores notáveis como Gerald Thomas e Antunes Filho. Na TV, estreou em 2003, na minissérie A Casa das Sete Mulheres, sucesso de crítica e público. E, no cinema, impressionou como a protagonista de Olga, de Jayme Monjardim. Não satisfeita em atuar, Camila também se exercita como videoartista. Inicialmente um projeto pessoal, ela cedeu ao pedido do curador Batman Zavareze para participar do Riofestiv.al, primeira mostra inteiramente realizada no ambiente virtual. É dela o trabalho Privilégio da Dor, uma coreografia para a musculatura facial. “Fiz uma brincadeira com o excesso de selfies”, explica ela.

Festival de Veneza começa com aliança inédita com Netflix

ROMA - O Festival de Cinema de Veneza, que abre na quarta-feira, 29, celebra seu 75.º aniversário com os filmes mais esperados do ano, graças a uma aliança sem precedentes com a Netflix, Hollywood e o cinema latino-americano.

Um dos destaques será Roma, do mexicano Alfonso Cuarón - rodado em preto e branco e ambientado nos anos 1970, o longa estava previsto para o Festival de Cannes, que vetou a participação de filmes destinados à TV. “Não vejo as razões para excluir um filme de Cuarón apenas porque ele foi produzido pela Netflix”, reconheceu o diretor da Mostra de Veneza, Alberto Barbera, que convidou seis produções (três em competição) produzidas pela gigante do audiovisual, que também inclui o mais recente trabalho dos irmãos Coen (A Balada de Buster Scruggs) e de Paul Greengrass (22 de Julho).

O evento, que escolheu abrir as portas para a gigante do audiovisual após a guerra com o festival francês em Cannes, atraiu um número espetacular de convidados este ano, entre astros, grandes autores e até mesmo ex-guerrilheiro latino-americano, o Pepe Mujica. Para comemorar seu aniversário, a Mostra preparou uma edição especial com vários vencedores do Oscar e Palmas de Ouro, além de estrelas como Lady Gaga no papel de Judy Garland, dirigido por Bradley Cooper, e personalidades como Ryan Gosling, Vanessa Redgrave, Emma Stone, Rachel Weisz, Naomi Watt, Christoph Waltz.

Um total de 21 filmes competirão pelo cobiçado Leão de Ouro, entre eles o mexicano Carlos Reygadas, que estreou em Veneza com Nuestro Tiempo, e o também o argentino Gonzalo Tobal, com Acusada.

O evento vai começar, como em outros anos, com uma produção dos EUA, desta vez o novo trabalho do jovem Damien Chazelle, que começou em Veneza sua carreira de sucesso com La La Land, e, desta vez, conta a vida íntima do primeiro homem que pisou na lua no filme First Man.

A presença de apenas uma diretora na competição oficial (a australiana Jennifer Kent, com Nitghtingale, uma história sobre seu país no início do século 19) relançou o debate mundial sobre a igualdade das mulheres. Não se descarta que a igualdade desejada seja levada em conta em edições futuras, segundo admitiu Barbera. Segundo ele, dos 1.650 filmes vistos para a seleção, 23% foram dirigidos por mulheres. “Escolhemos pela qualidade e não pelo gênero”, confessou, provocando uma enxurrada de críticas.

Um dos destaques será a chegada em Veneza do ex-presidente uruguaio José Mujica, político que desperta admiração no mundo e críticas em seu país. Veneza exibirá dois filmes sobre o ex-guerrilheiro que presidiu o Uruguai entre 2010 e 2015. A adaptação do sucesso editorial de Elena Ferrante, A Amiga Genial, está entre os grandes lançamentos junto com a exibição do filme inacabado de Orson Welles, Do Outro Lado do Vento, que o lendário diretor nunca finalizou. Uma justa homenagem a um dos artistas mais versáteis do século 20./AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.