Cameron Diaz, numa comédia romântica

Digamos que Tudo para Ficar comEle é uma comédia romântica moderninha e pode-se pensar que oessencial estará dito. Mas vale acrescentar que o papelprincipal fica por conta de Cameron Diaz -- e aí talvez hajaalgumas coisinhas a acrescentar. Quem a conhece de O Máscarae depois do estranho Por uma Vida Menos Ordinária, de DannyBoyle, sabe que a moça não é exatamente comum. Costuma marcarseus papéis com uma sensualidade, vá lá, cheia de personalidade.É o que faz também neste filme dirigido por Roger Kumble e quetem por título original The Sweetest Thing - a coisa maisdoce, que todos sabemos qual é. Cameron interpreta a demolidora Christina Walters.Devoradora de homens, acredita que não se deve perder tempoprocurando o amor perfeito. Vale mais contar com aquilo, ouaquele que está ao alcance. Bem pragmática. Ela mora com duasamigas, Courtney (Christina Applegate) e Jane (Selma Blair).Quando Jane sofre um desilusão amorosa, Courtney e Christinaresolvem levá-la a uma festinha para que se anime. Ela se animaaté demais, mas o embalo repercute mais na vida de Christina. Éque ela conhece lá o bonitão Peter (Thomas Jane) e fica caídapor ele. Depois da festa e de alguns mal-entendidos, resolve irà luta e vai atrás do rapaz na cidadezinha onde ele mora.Descobre que está para se casar. O resto das peripécias é típicode toda comédia romântica, gênero de ótimo apelo popular poisjunta os fios de dois desejos básicos: a alegria pura e simplese a felicidade amorosa. Esse é o esquema básico da coisa, a sua, se quisermosempregar linguagem pedante, estrutura formal. O recheio, oconteúdo, varia. Vai longe o tempo em que esse tipo de filmetinha heroínas virginais. Cameron pode parecer com qualquer tipoque se deseje, mas não se encaixa nesse ideal platônico demulher doméstica, nascida para o lar e para a educação defilhos. Seu departamento é outro. De modo que nessa versãocontemporânea do gênero (escrito por uma mulher, Nancy M.Pimental) há espaço para piadas cabeludas e situações nadaconvencionais. Algumas delas hilárias, e essas cenas particulares, maisdo que o todo, garantem ao filme o interesse que ele possa ter.Algumas exemplos: as três amigas, num restaurante, tecendocomentários musicais sobre o órgão sexual masculino e tudo o quedeve ser dito ao parceiro para que ele se sinta confiante. Janelevando uma saia à lavanderia para limpar uma certa mancha e láencontrando vários conhecidos. Christina e Courtney na estrada,pondo louco um motoqueiro que pensa estar acontecendo algumacoisa interessante entre elas dentro do carro. As duas tentandosair de fininho da igreja onde acontece o casamento e dizendoque erraram de lugar, estavam na verdade indo a um bar-mitzva.Coisas assim, mas que garantem boa diversão. Em especial porque,além de Cameron Diaz, deve-se destacar a presença de ChristinaApplegate, dona de boa veia cômica além de outros predicadosmais evidentes. Além desses pequenos episódios, bem escritos e beminterpretados, há uma, digamos assim, questão de fundo, e quepode ter sido bem sacada pela roteirista americana. ChristinaWalters, a protagonista, é, no fundo, uma mulher travada. Sob afachada liberal, levemente promíscua, há uma garota insegura,que morre de medo de encontrar um grande amor, entregar-se a elee sofrer uma desilusão. Por isso vai hesitar tanto antes deapaixonar-se por Peter. A paixão implica uma perda de controlesobre si mesma e isso vai contra toda a ideologia moderna queprega a autonomia absoluta do ser humano. Somos felizes naproporção em que não dependemos de ninguém. O outro é um serperigoso em potencial e só existe na medida em que podemosusá-lo e descartá-lo em seguida. Essa fantasia de independênciapsicológica está inscrita no coração ideológico da América. Pelo menos é o que sustenta um especialista na matéria,o sociólogo italiano Francesco Alberoni, autor de livrosinteressantes sobre o amor. Vários deles estão disponíveis emportuguês, como Enamoramento e Amor, O Erotismo, VôoNupcial e A Amizade, todos editados pela Rocco. Ementrevista recente à revista francesa Le Nouvel Observateur,Alberoni fala do estado amoroso como um projeto total, tãopoderoso quanto uma revolução, o nascimento de uma nação ou deuma religião. Mobiliza profundamente as duas pessoas envolvidas,destrói antigos laços afetivos ao mesmo tempo em que criaoutros. E conclui que, por esse motivo, em nossas sociedadesobcecadas pela segurança e temerosas dos conflitos, o amorpassou a ser tão desejado quando temido. Em especial, no que dizrespeito à paixão, ou seja, aquela embriaguez fugaz em que osamantes se sentem realmente parte um do outro. Diz o sociólogo:O terror da fusão é o terror de se perder, o medo da paixão. Éuma fobia americana, que decorre da cultura anglo-saxã doself-control. É o medo de perder a sua individualidade que levaChristina a hesitar diante do amor que sente por Peter. Nessesentido, se tomarmos ao pé da letra as conclusões da roteiristaNancy Pimental, levadas à tela por Roger Kumble, as moçasamericanas parecem menos predispostas ao ato amoroso do que osrapazes. Mas não precisamos de nada disso para nos divertirmosmoderadamente com Tudo para Ficar com Ele.Serviço - Tudo Para Ficar Com Ele (The Sweetest Thing) ComédiaRomântica. Dir. Roger Kumble. EUA/2002. Dur. 84 min. 14 anos

Agencia Estado,

22 de agosto de 2002 | 18h08

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