Câmera na mão, a História na cabeça

Uma pergunta em mente, um concurso ganho, nove meses de pesquisa e três semanas de produção resultaram em Por Mares Nunca Dantes Navegados, um documentário surpreendente, com histórias reveladoras sobre as navegações portuguesas. A diretora Regina Jehá decidiu pesquisar a fundo algumas questões obscuras sobre a aventura mercantilista da Península Ibérica. "Movida por pura curiosidade", a diretora lembra, em seu filme, Camões e Pessoa, poetas que também se deslumbraram com as navegações. Amarrou seu mote à vontade de filmar e foi a Portugal, onde gravou, com equipamento digital, algumas tomadas inéditas e obteve depoimentos inusitados. O filme de Jehá faz o circuito de festivais no início do ano que vem e, formatado para TV, deve ser veiculado também por emissoras.Uma pergunta em mente - "Sempre que paro para pensar no achamento do Brasil me pergunto o seguinte: por que coube a um país tão pequeno como Portugal impulsionar esse movimento que mudou toda a história da humanidade e deu início à globalização?" Regina se refere ao domínio português sobre os mares, coisa que todos nós aprendemos nas escolas, ainda no primário. Mas mesmo que essa história pareça tão fundamental ao brasileiro, seja lá quais forem suas aspirações, as verdadeiras causas desse descobrimento ficaram, provavelmente, restritas aos historiadores. "Não sou historiadora e não vou fazer um filme tese, como se soubesse de tudo e falasse aos outros como eu sei. Sou uma documentarista, e sempre que filmo busco só responder a essa minha curiosidade", afirma. Com a visão (e audição) de quem quer aprender que Regina concebeu o projeto de Por Mares Nunca Dantes Navegados.A metalinguagem do título não é acaso. Camões cantou as glórias das conquistas portuguesas e foi seguido, séculos depois, por Fernando Pessoa. Regina, inspirada no poema Infante, de Pessoa, montou um roteiro que revelasse, além dos virgens mares do Atlântico, como se estruturaram as companhias de navegação portuguesas. Roteiro e projeto prontos, encaminhou-os, ano passado, ao Ministério da Cultura.Um concurso ganho - Regina não tinha planos de documentar o mercantilismo no começo do ano passado. O projeto era somente escrever um roteiro de ficção, que se passaria no Brasil do século 17. Fazendo as primeiras pesquisas bibliográficas para o roteiro, surgiram, porém, as perguntas sobre o que era aquela metrópole que colonizara de maneira tão intensa o Brasil mas não sofrera um progresso natural, como outras nações da Europa Ocidental. "Portugal veio a recuperar o tempo perdido há poucos anos, com a União Européia", diz Regina. A mudança de idéia veio de uma curiosidade: três porquês sobre Portugal, que revelassem o que antecedeu e justificou o mercantilismo, o que aconteceu durante esse período, e o que seguiu a ele. O roteiro ganhou financiamento de R$ 80 mil junto ao MinC, no ano passado, no mesmo concurso que possibilitou à Joel Zito Araújo produzir A Negação do Brasil - o Negro na Telenovela, também prestes a ser lançado. O projeto que Regina concebeu a partir dessa primeira aprovação, no entanto, é muito mais ambicioso que essa primeira produção.Por Mares Nunca Dantes Navegados deve resultar, como espera Regina, numa série com outros quatro episódios de 26 minutos. Cada um deles abordando um tema específico sobre a expansão marítima. Para o próximo documentário, aliás, Regina já tem até verba financiada pelo BNDES, além de viagem marcada para janeiro de 2001. Deve tratar da conquista da Índia pelos portugueses, antes de chegarem às Américas. Depois, se tudo der certo, filmará um documentário sobre as conquistas espanholas -simultâneas à chegada de Portugal à Índia pelo contorno da África e ao fim da predominância portuguesa nos mares. A quarta parte trata da conquista da costa africana, que também fala do declínio do mercantilismo português, quando o país volta à essência do feudalismo, explorando absurdamente as fontes de minérios do continente e o comércio de escravos. O último filme deve documentar a importância da cultura muçulmana na formação ibérica. Mas para estes Regina ainda não captou recursos.Nove meses de pesquisa - Regina coloca a pré-produção de um documentário no topo da importância no processo de realização. E por esse tipo de pré-produção subentenda-se pesquisa. A diretora passou oito meses em cima de livros no Brasil e mais quarenta dias rodando Portugal para acumular informações suficientes para iniciar a produção. Lá, foi auxiliada pela fotógrafa francesa Malie Letrange, que rodou com Regina as principais localidades históricas de Portugal. Começando em Sagres e subindo até Tomar, as duas descobriram algumas informações surpreendentes sobre o mercantilismo. Fazem parecer que o curso de história do ensino médio é uma brincadeira de mau gosto.O documentário implode os conceitos sobre a famosa Escola de Sagres. "Sagres nunca existiu como a gente imagina", diz ela. Baseada nos depoimentos dos professores e academicistas que entrevistou, Regina explica: Sagres foi uma conseqüência geográfica. Era uma localidade que representava uma parada obrigatória para todos os navegantes, tanto aqueles que saiam do Mediterrâneo para subir até a região do Báltico, no mar do norte, como para quem entrasse no Mediterrâneo. Não tanto pelo Cabo de São Vincente, o último ponto extremo antes do Estreito de Gibraltar, mas principalmente pelas péssimas condições climáticas da região. "Todas embarcações tinham que parar ali e esperar melhores condições para seguir viagem. Às vezes permaneciam ali semanas", explica. "Tantos marinheiros num mesmo ponto, de origens diferentes falando todas as línguas do mundo... era natural que dessa troca de experiências surgisse uma concentração tão grande de conhecimentos, mas nunca existiu ali uma escola de navegação".Como a própria Regina se anuncia não ser historiadora, formar um certo receio em relação a tantas observações é justificável. Mas o que diz é só transferência de conhecimento. Entre seus entrevistados, estão estudiosos como o historiador Cláudio Torres, de Mértola, e Rui Parreira, historiador da Companhia de Sagres. "É um conhecimento muito enclausurado, restrito à academia, mas não é inalcançável", esclarece.Outras questões importantes contidas no filme: a importância maior do Infante Dom Henrique para o aprimoramento das navegações; o capital proveniente do tesouro dos monges Templares, que acumularam por anos as riquezas das cruzadas; e a primeira revolução burguesa, surgida entre os mercantilistas lusitanos, décadas antes da Revolução Francesa. Essas revelações devem estrear em festivais a partir de abril de 2001, como o Vídeo Brasil e o Festival de Cinema de Língua Portuguesa (este último programado para acontecer em Porto Seguro). Contatos com tevês, como o Canal Brasil e TV Cultura, também devem viabilizar o Por Mares Nunca Dantes Navegados para a telinha.Três semanas de produção - Regina Jehá também se rendeu à realidade da tecnologia digital. Por isso que ela, sozinha, conduziu a sua DV-Cam e dirigiu o documentário durante as três semanas que viajou e redescobriu a história de Portugal. "Foi bem difícil no começo. Não só estava sozinha, como decidi começar filmando o Cabo de São Vicente, em Sagres, e fiquei muito doente. Dizem que eu ofendi os deuses". Regina se refere ao boato de que ninguém deve se atrever a admirar a alísia paisagem destes penhascos, o que equivale a uma maldição. Por isso, logo após a primeira tomada, Regina teve que ficar alguns dias de cama, bastante gripada. "Fiquei preocupada, pois tinha entrevistas importantes marcadas. Felizmente foi o primeiro e último empecilho grave na viagem", lembra.Como resultado, a edição final é bela, entrecortada por paisagens e algumas tomadas inéditas de locais históricos (permitidas pelo fato da câmera digital não precisar de luz extra para captar a imagem), que dão leveza e corpo ao documentário - elementos quebrados raramente, ora pela veloz pronúncia portuguesa, ora pelo enquadramento exótico de um entrevistado. Também fazem corte versos dos poemas de Fernando Pessoa, que separam partes específicas da obra. A câmera numérica, apesar de novidade, não é uma transformação estranha para Regina, que já começou fazendo cinema sem medo de dificuldades. Ao contrário da maioria dos estreantes, seu primeiro filme foi em 35 milímetros. Ela dirigiu O Brás e Bexiga, Ano Zero, da antológica série Brás, Bexiga e Barra Funda, que foi ao ar na TV em 1971. Viúva do cineasta Luís Sérgio Person, a diretora não é nem um pouco avessa a desafios. Também dirigiu Pantanal, a Última Fronteira, sobre a belíssima região do Pantanal mato-grossense, e em 1981 rezalizou Curumins e Cunhantãs, chegando até a filmar em plena floresta amazônica.

Agencia Estado,

10 de novembro de 2000 | 22h33

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