Câmera digital anuncia nova fase do cinema

O cinema não é uma arte como as outras e se modifica rapidamente pela introdução de novidades tecnológicas. Alguns grandes saltos foram dados, como os pontos de viragem marcados pela introdução do sonoro e da cor. Em escala menor, mas também bastante significativa, houve a introdução de câmeras mais leves e dos gravadores Nagra, que permitiram o registro do som direto e das imagens mais soltas, tirando as máquinas do tripé e levando-as à mão. Difícil imaginar os "cinemas novos" dos anos 60 sem esses recursos.Agora, com a simbólica vitória em Cannes de Dancer in the Dark de Lars Von Trier, parece, nova revolução se anuncia com a chegada do cinema digital. O alemão Wim Wenders filmou seu grande sucesso, o documentário Buena Vista Social Club, em digital e prepara-se para sua primeira obra de ficção inteiramente nesse sistema, o road movie In America, previsto para o fim do ano. O mexicano Arturo Ripstein lançou em Cannes o primeiro filme latino-americano totalmente gravado em digital, Asi Es la Vida, apresentado em São Paulo na Semana dos Independentes, promovida pelo Espaço Unibanco de Cinema.Disse Wenders em entrevista à revista Bravo! que considera o digital o início de uma nova era para o cinema. Segundo ele, o digital vai reintroduzir o que pensávamos que estivesse perdido, os pequenos filmes, originais, de autor, destoantes do mainstream. Isso porque, com a nova tecnologia, mudam, em tese, as condições de produção. Tudo se torna mais barato, ágil, acessível.Wenders acha prematuro teorizar sobre as mudanças estéticas que decorrerão do avanço tecnológico. Diz que vai filmar In America justamente para compreender o que vai mudar. É uma atitude sensata.No entanto, do que já foi feito até agora se podem tirar algumas conclusões. O próprio Wenders, com Buena Vista, é um exemplo. Eduardo Coutinho, com Santo Forte, é outro. Como podem se dar ao luxo de registrar imagens sem nenhuma sensação de desperdício (o que acontece com o negativo), os documentários tornam-se mais livres, ganham em profundidade, parecem mais espontâneos. O cineasta pode trabalhar com uma quantidade muito maior de material, que depois vai selecionar na montagem.No plano da ficção as perspectivas parecem igualmente interessantes. Em Asi Es la Vida, Ripstein propõe uma leitura moderna de Medéia. Recria a tragédia grega da mulher que abandonada, mata seus dois filhos, num ambiente sufocante, surrealista, em seu México natal. O trabalho de câmera é espetacular. Chega a ser incômodo no começo, tamanha a mobilidade conseguida. Talvez ele conseguisse efeito semelhante com uma steady cam (a câmera móvel, que fica atada ao corpo do operador), mas a execução seria muito difícil, e provavelmente cara demais. Com a digital, ele liberou-se de qualquer empecilho técnico. Sem grande esforço, criou as imagens sufocantes, instáveis, que tinha em mente.Essa Medéia mexicana é um exemplo de como essa nova tecnologia pode permitir uma alteração no plano estético. Sente-se, ao mesmo tempo, o deslumbramento do diretor com o brinquedinho novo. Como se quisesse, nessa primeira aventura, explorar todas as suas possibilidades de uma só vez. Felizmente isso não se torna exibicionismo e nem compromete esse belo filme.Quem conhece o cinema de Ripstein sabe como é importante para ele o tratamento de cores e enquadramentos. Por isso, tão decisivo quanto a captação das imagens em digital é o seu tratamento na pós-produção, quando as cores podem ser trabalhadas e alteradas. Mesmo assim, a definição das imagens, a sutileza e a "temperatura" das cores em digital estão longe de comparar-se às filmadas em 35 milímetros pelo cinema analógico. Na verdade, o digital pode ser o futuro, mas ainda tem um longo caminho pela frente.

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