"Cama de Gato" quer debate sobre jovens

Caio Blat não cospe no prato em que come. Gosta de fazer televisão - "É do c... trabalhar num meio tão de massa, que atinge instantaneamente milhões de pessoas", explica. Acaba de fazer um papel de destaque numa novela de sucesso, o que o deixa numa posição confortável na Globo. A emissora lhe dá agora umas férias, até encaixá-lo em outra atração - coisa de três, quatro meses -, que Caio vai usar para desenvolver seus projetos mais pessoais, isto é, cinema e teatro. Caio está cada vez mais entusiasmado com os filmes. Estrela Cama de Gato, o longa de estréia de Alexandre Stockler, que estréia hoje. E está possuído pelo demônio do teatro. Faz cara de espanto - "Como assim?" - quando o repórter lhe pergunta por que gosta tanto de teatro. É uma necessidade vital. Alguém se pergunta por que está respirando? É necessário para estar vivo. O teatro é assim para Caio Blat. Tinha 20 anos quando fez Cama de Gato. O diretor Stockler tinha 27. Agora estão, respectivamente, com 24 e 31 anos. Quatro anos podem parecer uma eternidade, mas foi o tempo que o projeto precisou, desde a idéia inicial até chegar agora às telas, em poucas salas de São Paulo e Brasília. Impossível imaginar um filme mais barato - Cama de Gato custou R$ 13.096,00. Cama de Gato põe na tela uma visão nada idealizada da juventude de classe média do País. Caio faz um de três amigos. Ele chama uma menininha para a sua casa. Ocorre um estupro, seguido de duas mortes, que se situam no limite entre o acidente e o assassinato. Os jovens querem se divertir. São irresponsáveis, mas não necessariamente alienados. Um deles até faz um discurso contra a globalização. Um discurso oco que serve de contraponto à parte documental de Cama de Gato. Stockler entrevistou cerca de 80 jovens, pedindo-lhes que comentassem a situação básica do filme - o estupro seguido de morte. Um dos garotos lembrou o candidato a prefeito de São Paulo, Paulo Maluf. "Estupra, mas não mata." Outro diz que, consumado o estupro, o importante é eliminar as provas. O horror da realidade supera o da ficção. Essa lição (antiga) pode ser encontrada num clássico de Peter Bogdanovich nos anos 1980 - Na Mira da Morte, em que um astro de terror resolve parar de fazer filmes. Seu trabalho mais recente, que ele espera ser o último, está passando num drive-in, que é invadido por um sujeito armado que se posiciona atrás da tela e inicia um tiroteio. A realidade é o horror. Logo no começo, os três jovens estão cada um em sua casa. Tentam se comunicar pela internet, mas é difícil acionar os computadores. É um dos pontos em que os quatro anos necessários para fazer Cama de Gato mais pesam. Hoje em dia, há servidores que garantem comunicação instantânea. Não é isso que está em pauta. "O jovem moderno dispõe de mais informações do que o homem já teve em qualquer momento da história. Isso não nos torna melhores", diz o diretor. Caio Blat diz que Cama de Gato é inovador e provocativo. Um murro na cara, um soco no estômago. Cama de Gato tem dois sites. Um é do Trauma - www.trauma.arte.br. O outro é www.camadegato.com.br, como se fosse o blog do personagem de Caio no filme. O segundo é campeão de acessos. Reproduz a cena de estupro, na qual o ator aparece nu. Pode parecer irresponsável - "Se o meu nu levar o público aos cinemas, vai ser ótimo", ele espera. Mas não é pensando no faturamento que Caio e Stockler pensam assim. Ambos gostariam muito que Cama de Gato desencadeasse uma discussão - ética e social - sobre a juventude. Se não houver essa discussão, vão se sentir frustrados.

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