"Cama de Gato" divide público em Brasília

Primeiro longa da competição,primeira polêmica, e esta atende pelo nome de Cama de Gato.O filme do estreante Alexandre Stockler provocou reaçõesdesencontradas na platéia do Cine Brasília. Ao longo da projeçãochegou a ser duas vezes aplaudido em cena aberta. Depois, perdeua cumplicidade do público e, quando chegou ao seu primeiro final(há dois), foi recebido de forma gélida por um público conhecidopor seu calor. Finalmente, ao subirem os créditos, parteaplaudiu e parte vaiou. Poucas vezes se viu reação maisdividida.Cama de Gato dá motivos a isso. Seus protagonistassão três adolescentes da classe média paulistana, Christiano,Francisco e Gabriel (Caio Blat, Rodrigo Bolzan, Cainan Baladez).O mundo está lá para que eles se divirtam e, no meio dessadiversão, eles, por assim dizer, começam a pegar um poucopesado. Metem-se numa escalada de violência que parece não terfim, embora a cada momento possam dizer que agiram sem querer,movidos pelo acaso. Assim, vão de uma festinha de embalo àtentativa de sexo grupal e desta ao estupro. Não param por aí. Ea cada vez que tentam consertar a besteira anterior, cometem umanova.Feito com poucos recursos (diz o diretor que gastou R$13 mil na fase de captação das imagens), Cama de Gato é umababel estilística. Usa a câmera na mão, esta se aproxima e seafasta dos personagens de maneira abrupta. A iluminação éirregular, registra ora detalhes ora planos gerais, inverteseqüências cronológicas, alterna cenas documentais com outrasficcionais, vai do naturalismo ao distanciamento com a mesmafacilidade de alguém que vai até a esquina comprar um picolé.Não é filme fácil de acompanhar, isto é, se você tiver comopressuposto que o diretor sabe o que faz e não tem a cabeça tãoconfusa quanto a de seus personagens.Essa impressão de caos talvez venha do excesso decitações. Se ficasse buscando as referências jogadas na tela,não haveria papel que chegasse. Em todo caso, duas parecemnítidas: estão lá o niilismo moralista de Sérgio Bianchi (deCronicamente Inviável), e o cinismo brechtiano de MichaelHaneke, o diretor de Violência Gratuita (Funny Games). Este,Stockler cita explicitamente quando, por exemplo, "rebobina" acena e esta volta a se apresentar na tela, como se o personagemquisesse alterar o que fez. É um dos procedimentos dedistanciamento do filme, entre outros, como os personagensdirigindo-se e falando diretamente à câmera.Esse filme intrigante ganha, como disse seu autor, uma"sinistra atualidade" com o caso de Suzane Louise Richthofen edos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos. Mais do que nunca sedeseja saber o que se passa na cabeça dos jovens bem-nascidos eo que os leva ao crime. Aliás, em Cama de Gato há referênciaexplícita a outro crime famoso, o dos jovens brasilienses quequeimaram vivo um índio pataxó. De qualquer forma, Cama deGato se propõe a revelar alguma coisa desse ethos juvenil: asensação de que o mundo lhes pertence; uma confusão mentaltalvez sem precedentes na história da humanidade, por causa doexcesso de informações não digeridas; o outro visto como fonteexclusiva de prazer e diversão; a falta de rumo político; asensação de impunidade e um cérebro mergulhado numa sopa dehormônios - tudo isso parece a receita de uma bomba, que podeexplodir ou não. E aí está o mistério: por que, na maior partedos casos, não explode?O repórter viajou a convite da organização do festival

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