Cakoff, o crítico de cinema que criou sua mostra

Foram mais de duas horas de entrevistacom Leon Cakoff, interrompidas somente porque o criador daMostra Internacional de Cinema São Paulo tinha de ir correndopara um programa de rádio, para outra entrevista. É sempre assim. Quando outubro chega, há 30 anos, São Paulo prepara-se para suamaior festa de cinema e Leon precisa multiplicar-se para atendera tantos compromissos e demandas. Ainda bem que ele tem RenataAlmeida, mulher e parceira que lhe dá sustentação. Naquele dia,sexta passada, Renata estava encerrada em outro espaço da Mostra fechando a programação. Pensa que é fácil acomodar mais de 400 filmes em 15 diasde programação, em 19 salas, cada um com direito a trêsexibições, em média? Faça as contas. São, no mínimo, 1.200sessões, que não podem coincidir. O computador facilitou ascoisas, mas é uma máquina. Tudo depende de Renata - e de Leon,que lembra como a Mostra era pequenina, quando ele a criou,ainda no Masp. A primeira edição, em 1977, teve 18 filmes. Desdeentão, a Mostra não parou de crescer. Ficou gigante e, como elenão se cansa de dizer, criou um padrão que acostumou as pessoas.Todo ano, o cinéfilo freqüentador da Mostra quer mais - maisfilmes, mais debates, mais shows. Não é fácil contemporizar tudoisso mantendo o padrão de qualidade que caracteriza o evento.Este é o ponto, o conceito vitorioso, que Leon não quer mudar. Trinta anos - e, antes de 1977, houve um período depreparação de três anos, que Leon chama de ?pré-Mostra?. Oevento nasceu de um estalo que ele teve. Leon era, e continuasendo, crítico de cinema. Exasperava-se com a lerdeza do mercadodistribuidor e exibidor do Brasil, com a ação rigorosa dacensura. Somado tudo isso, filmes importantes que ele começou aver em festivais internacionais como Cannes, que começou afreqüentar em 1971, não chegavam ao País. Defensor da livrecirculação das idéias, Leon queria que o público visse essesfilmes. Era crítico em dois jornais populares, o DiárioPopular e o Diário da Noite, nos quais uma gostosa de biquíniera mais atraente do que qualquer filme de arte, na capa. Leon,lá com seus botões, reclamava de tudo e todos - os exibidores,os distribuidores, a censura. O estalo foi que um dia ele pensou- por que não faço, por que fico esperando pelos outros? Foi assim que tudo começou. Ele foi a Pietro Maria Bardie o todo-poderoso diretor do Masp, o Museu de Arte Moderna deSão Paulo, topou que ele fizesse a programação de cinema da casa uma semana por mês. Garantido o espaço, e o prestígio do Masp,Leon descobriu que poderia trazer filmes proibidos usando a maladiplomática de consulados e embaixadas. Durante três anos, elefez isso, ampliando espaço, consolidando um público fiel,mudando a mentalidade das pessoas. Fazia também uns folhetospromocionais. Era onde o crítico Leon Cakoff se manifestava,avaliando a obra de diretores (e até cinematografias) que ooutro Leon, o exibidor, programava. A coisa seguia assim quandoo velho Bardi chamou Leon e lhe disse que ?inventasse? uma coisapara comemorar os 30 anos do Masp. Leon inventou a Mostra. A primeira teve menos de 20 filmes, a 30.ª terá mais de20 vezes mais - põe crescimento nisso. Ao longo desse tempo todo Leon avançou lentamente, ano a ano. Teve problemas com Bardi,no Masp, que não deixava de ter ciúme do prestígio que a Mostrarapidamente ia adquirindo e não fornecia muitos recursos a Leon.Teve problemas, maiores ainda, com a censura do regime militar. Havia um tal de certificado especial de censura, quedistribuidores e exibidores tinham medo de usar, com medo deficar visados pelo aparelho repressivo da ditadura. Leon usou.Em diferentes momentos, ele foi à Justiça contra censura àMostra e conseguiu uma liminar, cassada quando a União recorreu.Já em processo de abertura, foi ao ministro Fernando Lyra, daJustiça, pedindo que revogasse a censura. Lyra respondeu que não podia, que era atribuição daConstituinte, porque se tratava de uma lei. Leon, inocentemente(ele diz), perguntou ao ministro o que ele, no exercício docargo, podia fazer. O ministro respondeu que uma portaria,eliminando a censura prévia para a Mostra. Como a portaria épara todos, a brecha que Leon abriu terminou favorecendo todosos demais festivais e mostras de cinema que ocorriam no Brasil. Histórias destes 30 anos, Leon tem aos montes paracontar. Na terceira Mostra, ele já exibia os filmes de Manoel deOliveira e o quase centenário mestre português estará na 30ªedição, se não em pessoa, representado por seu novo filme,Belle Toujours, no qual ele propõe uma releitura do cultuadoA Bela da Tarde, de Luis Buñuel. Leon trouxe Quentin Tarantinoa São Paulo quando ele ainda não era ninguém, revelou, para opúblico paulistano e brasileiro, o cinema iraniano, o chinês da5.ª Geração. Impôs autores como Abbas Kiarostami, Jim Jarmusch,Amos Gitai, Atom Egoyan. Se não fosse pela Mostra, SergeiParadjanov e Béla Tarr talvez ficassem até hoje desconhecidos.Como - você não conhece nem um nem outro? Sorry, mas não écinéfilo ou não é devoto da Mostra, como o próprio co-autordesta reportagem, Bira Brasil, que guarda até hoje cópias decédulas de votação e permanentes da Mostra.. As cédulas. O crítico Ely Azeredo, um carioca, escreveuque a Mostra era o único respiradouro democrático do País porqueaqui, e em nenhum outro lugar do País, o voto popular é quedecidia tudo. Desde a primeira Mostra, Leon instituiu a regraque vale até hoje. O primeiro vencedor da Mostra, escolhido pelovoto popular, foi um filme brasileiro - Lúcio Flávio, oPassageiro da Agonia, de Hector Babenco. No ano passado, outrofilme brasileiro, pré-selecionado pelo voto popular, ganhou oprêmio Bandeira Paulista, atribuído pelo júri internacional -Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. Este ano, parafestejar os 30 anos da Mostra, a Petrobras, principalpatrocinadora do evento, criou um prêmio especial para a MostraBrasil. O Prêmio Petrobras de Difusão Cultural vai contemplarcom R$ 400 mil a melhor ficção e com R$ 200 mil o melhordocumentário, como incentivo à distribuição. Mais uma vez, aescolha será pelo voto popular e Leon, preocupado com umapossível manipulação do gosto do público, instituiu regras paragarantir a lisura. Justamente , o cinema brasileiro. Durante muito tempo, afama de Leon foi de ?iraniano?, porque era o cinema que eleparecia contemplar. Mas ele diz que nunca discriminou o cinemado País. Os próprios diretores se autodiscriminavam, com medo deexibir seus filmes com as obras que, ano a ano, representavam asnovas tendências e o que havia de melhor e mais ousado no cinemamundial. Não é hora de ressentimento, mas grandes intelectuais,pensadores que fizeram escola apoiando o cinema brasileiro, senão foram contra a Mostra, também não cerraram fileiras com Leonem suas grandes batalhas. Nosso homem foi um batalhadorsolitário, mas não convém romantizar demais a figura. Nãoestamos falando de São Leon e o criador da Mostra é um sujeito -baixinho - que honra a fama de irascível, embora seja o primeiroa reconhecer que Renata Almeida o adoçou. Os tempos heróicos da censura passaram, mas a Mostraenfrenta hoje outro tipo de censura, a econômica. A Petrobrastem sido mãezona, permitindo que Leon realize a Mostra deste anocom a garantia de que haverá uma 31ª Mostra, em 2007. Mas Leonqueixa-se das chamadas ?autoridades?. Os governos Municipal eEstadual adoram subir ao palco na hora das homenagens, mas atéhoje uma controvérsia jurídica impede que a Mostra receba averba impugnada pela ex-secretária Cláudia Costin. Problemas à parte, e eles são sempre dores de cabeça, aMostra que começa nesta quinta-feira vai exibir 420 filmes de curta,média e longa-metragem, representando 44 países. A abertura seráno Auditório Ibirapuera, com o programa duplo formado pelodocumentário Os EUA contra John Lennon, de David Leaf e JohnScheinfeld, e pelo curta Eu Quero Ser Piloto, de DiegoQuemada-Diez. Além da Mostra Brasil, a Perspectiva vai exibir120 títulos de todo o mundo. Haverá uma retrospectiva do cinemapolítico italiano e a exibição de clássicos restaurados, desde aobra do brasileiro Joaquim Pedro de Andrade até o clássicosilencioso Cabíria, de Giovanni Pastrone, com acompanhamentoao piano de Stefano Maccagno. A Mostra vai até dia 2, quandovolta ao Auditório Ibirapuera para o encerramento comMacunaíma, de Joaquim Pedro.

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