Caju e Castanha levam embolada a Cannes

A vida de Caju e Castanha - dupla de emboladores que começou a vida cantando nas feiras do Recife e hoje faz sucesso até na França - é uma fábula de resistência da cultura regional brasileira. Depois de mais de 30 anos lutando para divulgar a musicalidade nordestina, eles agora vão dar uma mãozinha ao cinema nacional. A dupla pernambucana protagoniza A Saga dos Guerreiros - Caju e Castanha Contra o Encouraçado Titanic, curta-metragem de 4 minutos rodado há um mês no Rio de Janeiro, que será exibido em maio no próximo festival de Cannes, na chamada Quinzena dos Realizadores. Idealizado e dirigido por Walter Salles, o filme usa as rimas de Caju e Castanha para fazer uma brincadeira sobre a luta por espaço do cinema nacional frente aos poderosos blockbusters americanos. "Foi uma honra ter sido chamado pelo Waltinho para participar do curta", diz Castanha. "Eu e o Cajuzinho fizemos um monte de brincadeiras com os filmes americanos, dizendo que os nacionais são muito melhores. Acredito que ninguém melhor do que nós para falar da luta de um artista brasileiro por um espaço. A nossa história é melhor do que qualquer filme ou livro." Caju e Castanha sabem muito bem o que é batalhar para mostrar a cultura brasileira. "Passamos por muita coisa ruim nesta vida", diz Castanha, que no ano passado perdeu o irmão e companheiro Caju, morto em decorrência de insuficiência respiratória. "Foi um momento muito difícil da minha vida, mas tenho de continuar vivendo e levando a minha mensagem. O meu sobrinho assumiu o lugar e o nome do Caju, e agora estamos mais dispostos do que nunca, participando do filme do Waltinho e lançando o nosso 15.º disco." Nascidos em Matriz da Luz, em São Lourenço, distante cerca de 30 km do Recife, os irmãos José Albertino da Silva (Caju) e José Roberto da Silva (Castanha, 31 anos) começaram a ganhar a vida em 1973, cantando no Mercado de São José, Pracinha do Diário e outros pontos da capital pernambucana. Tocando pandeiros confeccionados por eles mesmos, com latas de doce e tampinhas de garrafa, os dois moleques utilizavam os trocados arrecadados para ajudar os pais. Do Minhocão para a Cidade-Luz Desde o início, Caju e Castanha se comportam como irreverentes repórteres do dia-a-dia brasileiro. A existência dos pequenos artistas chegou ao conhecimento da cineasta Tânia Quaresma, que em 1979 estava no Recife para a produção do filme Nordeste, Repente e Canção. A dupla foi então convidada para participar da trilha sonora do longa, ao lado de nomes como Milton Nascimento, Zé Ramalho, Elba Ramalho e o ilustrador e poeta de cordel J. Borges. Quase 20 anos depois, Lenine encontraria a trilha sonora no Japão e samplearia um trecho da embolada interpretada pela dupla. O sample foi utilizado em A Ponte, uma das canções vencedoras do Prêmio Sharp de 1998. Nordeste, Repente e Canção rendeu mais alguns trocados aos miniemboladores, mas não o suficiente para que deixassem o palco das ruas. E foi num desses espaços que produtores do selo Jangada, da Odeon, os descobriram. Batizado Embolando na Embolada, o primeiro disco sairia em 1980. Em São Paulo, a luta da dupla recomeçou no início dos anos 80. "Moramos debaixo do Minhocão, no Viaduto do Chá, na rodoviária e até na Estação do Brás", lembra Castanha. O reconhecimento só chegou em 2000, quando a dupla lançou um disco pela gravadora Trama, chamado Vindo Lá da Lagoa. "O melhor momento foi no show do Heineken Concerts de 2000, ao lado de um grupo francês (os Fabulous Trobadors)", conta Castanha. "Começamos a fazer um duelo. Quando a gente começava a desafiar os gringos, o povo ria demais. Ninguém se entendia muito, mas o interessante da história é que eles sabiam quem éramos e se inspiravam no nosso modo de embolar. Depois desse encontro, acabamos indo para a França, e foi a vez deles darem risada de nós." O novo disco de Caju e Castanha - chamado Andando de Coletivo (Trama), vendido por R$ 9,90 - continua a proposta de urbanizar a embolada feita há 30 anos pela dupla. "O nosso estilo é a velha embolada, pois fazemos versos improvisados ao som do pandeiro, mas a gente não se limita e inclui muitos outros instrumentos", explica Castanha. Em Andando de Coletivo há, por exemplo, a presença de violinos, cavaquinho, bateria, baixo, guitarra, flauta e muita percussão. Tudo na medida, sem prejudicar a essência de cantador de rua, que faz também baião, aboio e forró. "Essa urbanização da embolada fez o nosso público ficar muito diversificado", diz Castanha. "Já participamos desde o programa do Ratinho até o da Marília Gabriela. Até tocamos com vários rappers, como Rappin´ Hood e Faces do Subúrbio". Já as rimas da dupla não mudaram muito com a estréia do novo Caju, e muito menos sofreram influência externa. Elas continuam falando, com muito humor, sobre o cotidiano e situações maliciosas - motes nordestinos tradicionais. "Colaboramos e continua colaborando muito com a cultura brasileira", diz Castanha. "Podemos colocar vários elementos diferentes na nossa música, mas nunca vamos abrir mão da nossa regionalidade."

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